O texto propõe uma leitura materialista do conceito de interpelação ideológica, articulando Althusser, Fanon, Pêcheux e autores contemporâneos da Análise do Discurso, para defender que tal processo pode e deve ser compreendido em sua dimensão racializada. Na primeira parte, retoma-se a leitura de Pierre Macherey, que coloca em confronto duas figuras de interpelação: o “Ei, você aí!” formulado por Althusser e o “Olhe, um negro!” tematizado por Fanon. Essa comparação permite identificar diferenças no trato desses autores com o conceito de interpelação ideológica, mas também possibilidades de articulação. Na segunda parte, retorna-se ao Semântica e Discurso, de Michel Pêcheux para mostrar que a interpelação ideológica funciona pela articulação entre interpretação, sentido e evidência. A partir dessa leitura, defende-se que, em sociedades como a brasileira, marcadas pela colonialidade, pelo capitalismo e pelo patriarcado, a racialidade constitui uma dimensão estruturante das condições de produção, afetando a constituição do sujeito, o funcionamento das formações discursivas e a produção de sentidos. Propõe, assim, a possibilidade teórica de compreender o funcionamento de uma “interpelação racializada”, argumentando que a racialização atravessa tanto os processos de dominação quanto as práticas de resistência.