Chamada para o Nº 32 da Revista Conexão Letras
CONTRIBUIÇÕES DO ENSAÍSMO
Organizadores: Prof. Dra. Magali Lopes Endruweit e Prof. Dr. Antônio Marcos Vieira Sanseverino.
A escrita acadêmica tende a se cristalizar em formas rígidas, erigindo modelos que se traduzem em artigos científicos. Mesmo que o objeto seja a linguagem, literatura ou língua, a escrita impessoal se impõe como a forma naturalizada de se fazer ciência no campo das Letras.
A questão que nos persegue – a nós, na Universidade, principalmente – passa pelos modelos assumidos como próprios de um saber científico, do discurso legitimando determinados gêneros e apagando outros como impróprios para o fazer da pesquisa. Assumimos, porque estamos acostumados, que as pesquisas que circulam no ambiente acadêmico não podem fugir do formato canônico, pois colocarão em risco a seriedade necessária para a ciência. Esse formato já cristalizado alimenta o entendimento de que se escreve para comunicar resultados, como um relato do que foi feito, não como uma escrita que mostra a construção de uma pesquisa inacabada, em constante mudança. Assim, os modelos assumidos como legítimos para a escrita acadêmica consolidaram-se como os únicos possíveis e, na mesma medida, excluíram outros gêneros, entre eles, o ensaio.
Derrotar uma forma de escrita significa suprimir uma possibilidade de raciocinar, de construir o conhecimento próprio ao raciocinar por esse gênero. Há controle sobre a forma não só da divulgação, mas também da busca do saber. Larrosa argumenta que “os dispositivos de controle do saber são também dispositivos de controle da linguagem e da nossa relação com a linguagem”. Portanto, se escrevemos dentro de um formato estabelecido e não podemos sair dele, devemos também pensar o que esse formato nos permite. O gênero ensaio, cujo modo livre de reflexão excede as formas aceitas na academia – opondo-se assim a forma canônica do “artigo científico” – permite um outro tipo de relação com os objetos de conhecimento, representando frequentemente uma quebra na hegemonia do saber institucionalizado, do saber domesticado.
Pensemos, então, o que significa escrever ensaio. O ensaio como forma, na concepção adorniana, se contrapõe à rígida separação entre ciência e arte, ao colocar como fundamental tanto a reflexão sobre o objeto quanto a forma com que a reflexão é exposta. A escolha pelo ensaio é uma opção metodológica exigente, em que a forma da escrita deve ser tão reveladora quanto o pensamento formulado. A potência do ensaio se revela em sua forma, que articula a presença do sujeito, encarnado em sua escrita, as relações conceituais sobre o objeto analisado, e a forma de exposição. Ao se arriscar para além do já pensado e por meio de modos inusuais de pensar, o ensaio tende a encontrar formulações poderosas que tanto revelam aspectos novos da natureza do objeto quanto criam modos inusitados de exposição.
Com essa chamada, os organizadores convidam os interessados no gênero ensaio a discutir as contribuições do ensaísmo às diferentes áreas das Humanidades – à literatura, aos estudos linguísticos, à filosofia, à história, à antropologia etc. Incentivamos particularmente a submissão de trabalhos que busquem desnudar – pelo estudo de ensaístas, de tipos ou estilos ensaísticos, e/ou de áreas temáticas do ensaísmo –, a relação entre aspectos livres e criativos da forma ensaio e o caráter inovador, inusitado, revelador, da reflexão apresentada nas obras estudadas. E incentivamos também contribuições que se arrisquem elas próprias a navegar pelo gênero ensaio – buscando explorar modos de apresentação e expressão criativos, potencialmente reveladores dos aspectos inusitados da contribuição discutida.
As contribuições devem ser enviadas ao editor por meio do sistema de submissões da revista (https://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras) até da data-limite de 31 de julho de 2025. O editor pede, encarecidamente, que as submissões respeitem às normas de publicação exigidas pela revista.