COSMOGONIAS NÃO OCIDENTAIS, DIALÉTICA HEGELIANA E ROMANCE LATINO-AMERICANO NO DISCURSO SOBRE A ESCRAVIDÃO: O CASO DE O REINO DESTE MUNDO, DE ALEJO CARPENTIER

Autores

  • Diana Klinger UFF-Cnpq

Resumo

Resumo: O presente trabalho propōe uma leitura do romance O reino deste mundo, do escritor cubano Alejo Carpentier (1948), sobre a revolução dos escravizados no Haiti em termos de um “perspectivismo” em que coexistem diferentes realidades de acordo com as diferentes perspectivas das personagens. Nossa leitura busca também uma aproximação com a leitura que a filósofa Susan Buck-Morss faz da “cena do reconhecimento”, isto é, da dialética do senhor e do escravo em Hegel, que teria sido inspirada na revolução haitiana. Buck-Morss diferencia Hegel de outros pensadores liberais e iluministas europeus, que contraditoriamente sustentavam um discurso sobre a liberdade que não questionava a escravidão nas colônias.

Assim, entendemos, a partir do romance, que o discurso na América Latina não constitui uma unidade ou uma síntese em oposição ética e estética ao discurso colonizador, mas pensamos ambos os discursos em sua fragmentação, formada por múltiplos pontos de vista incompossíveis entre si. Pensamos, em suma, que uma crítica da modernidade, da colonialidade e do capitalismo, não necessariamente deve seguir um caminho unidirecional nem uma racionalidade dicotômica que oponha o pensamento europeu ao latino-americano.

Palavras-chave: Escravidão; Hegel; Revolução haitiana; Alejo Carpentier; Perspectivismo.

 

Abstract: The present work proposes a reading of the novel The Kingdom of this World, by the Cuban writer Alejo Carpentier (1948), about the revolution of the enslaved in Haiti in terms of a “perspectivism” in which different realities coexist according to the different perspectives of the characters. Our reading also seeks an approximation with the reading that the philosopher Susan Buck-Morss makes of the “scene of recognition”, that is, the dialectic of master and slave in Hegel, which would have been inspired by the Haitian revolution. Buck-Morss differentiates Hegel from other European liberal and Enlightenment thinkers, who contradictorily supported a discourse on freedom that did not question slavery in the colonies.

Thus, we understand, from the novel, that the discourse in Latin America does not constitute a unit or a synthesis in ethical and aesthetic opposition to the colonizing discourse, but we think of both discourses in their fragmentation, formed by multiple points of view that are incompatible with each other. We think, in short, that a critique of modernity, coloniality and capitalism should not necessarily follow a unidirectional path or a dichotomous rationale that opposes European and Latin American thought.

Keywords: Slavery; Hegel; Haitian Revolution; Alejo Carpentier; Perspectivism.

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Biografia do Autor

Diana Klinger , UFF-Cnpq

Diana Klinger é Professora Associada de Teoria Literária da Universidade Federal Fluminense. É bolsista de produtividade em pesquisa do Cnpq (Nivel 2). Graduada em Letras pela Universidad de Buenos Aires (2000), onde lecionou Literatura Brasileira, e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2006). Fez Pós-Doutorado no Programa Avançado de Cultura Contemporânea, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ (2007-2009). Desde 2009 coordena, junto com a professora Celia Pedrosa, o Grupo de Pesquisa (Cnpq) "Pensamento teórico-crítico sobre o contemporâneo", que participou do acordo de Cooperação Internacional com a Maestria en Literatura Latinoamericana de la Universidad de Tres de Febrero (Argentina). Foi, durante doze anos, editora da revista binacional Grumo (2002-2014), e curadora da coleção Gandula de poesia brasileira traduzida e publicada na Argentina, para a qual traduziu vários títulos. Em 2021 recebeu a bolsa Tinker Visiting Professor para lecionar Literatura Brasileira na Universidade de Madison, Wisconsin.

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Publicado

2023-07-10

Edição

Seção

ENSAIO/ESSAY