Avaliação da utilização do etil-2-cianoacrilato na síntese de pele em equinos
DOI:
https://doi.org/10.22456/1679-9216.129991Palavras-chave:
cicatrização, cavalos, feridas, adesivo cirúrgico, cianoacrilatosResumo
Introdução: Considerando as dificuldades na cicatrização de feridas em equinos, a possibilidade de utilização de um adesivo biocompatível para sutura de feridas apresenta-se como uma mais valia para a cirurgia de equinos. O adesivo tecidual, composto de etil-2-cianoacrilato, apresentou vantagens quando utilizado em feridas humanas, como ausência de desconforto, redução do tempo cirúrgico e de cicatrização, barreira física contra agentes infecciosos ambientais, resistência a exsudatos e redução de deiscência. O objetivo deste estudo foi avaliar a eficácia e biocompatibilidade do etil-2-cianoacrilato como adesivo cutâneo em feridas cirúrgicas de equinos e compará-lo com o uso de suturas no processo de cicatrização.
Materiais, Métodos e Resultados: Foram utilizados oito cavalos em dois estágios experimentais, pescoço e garupa, divididos em dois grupos em cada estágio. Em ambos os lados do pescoço, foram feitas incisões cutâneas de 7 cm de comprimento, suturadas com fio de náilon (GS; grupo sutura; lado esquerdo do pescoço) ou coladas com etil-2-cianoacrilato (GA; grupo adesivo tecidual; lado direito do pescoço). O mesmo procedimento foi realizado em ambos os lados da garupa desses animais, sendo o esquerdo o GS e o direito o GA. As avaliações macroscópicas das feridas cirúrgicas de ambos os grupos foram realizadas nos dias 1 (D1), 3 (D3), 7 (D7), 10 (D10) e 12 (D12) após a cirurgia com fotografias padronizadas quanto ao espaçamento e posição. Animais com 70% a 100% de deiscência da ferida, ou seja, com comprimento maior que 4,9 cm, foram considerados como deiscência total e excluídos das avaliações. Aspectos como sensibilidade ao toque, consistência tecidual, aumento de volume e temperatura, processo de cicatrização e sinais de rejeição do biomaterial foram observados. No décimo segundo dia após a cirurgia (D12), um fragmento de pele cicatrizada foi colhido para avaliação microscópica. O adesivo tecidual foi considerado um método mais rápido e fácil em relação ao GS, com vantagens como a função de barreira contra microorganismos e o fato de não precisar ser removido. No entanto, a maior desvantagem foi o alto índice de deiscência. A análise histopatológica mostrou maior infiltrado inflamatório no GS, sugerindo reação à presença do adesivo, além de ser um método de síntese mais agressivo.
Discussão: O etil-2-cianoacrilato demonstrou conformidade quanto à facilidade e velocidade de aplicação, sendo o tempo necessário para a síntese com o adesivo tecidual significativamente menor quando comparado à realização da sutura em todos os resultados obtidos no experimento, além de não causar desconforto nos animais no momento da síntese. Contudo, encontrou-se dificuldade para aplicação do adesivo tecidual nos animais que apresentaram intensa hemorragia, uma vez que o produto polimeriza rapidamente em contato com o sangue, o que promoveu boa hemostasia, porém resultou em uma síntese insatisfatória da ferida, fato que pode ter contribuído para sua futura deiscência. No presente estudo encontrou-se significativa diferença entre os grupos avaliados quanto à presença de deiscência, uma vez que o GS não apresentou deiscência, comparado à observação de 50% de deiscência no GA como um todo (n=16), sendo 37,5% considerado como deiscência total e 12,5% como deiscência parcial da ferida. Uma possível explicação é a elevada força tênsil exercida sobre a região, possivelmente por movimentação excessiva do local da ferida, associado ao tamanho de 7 cm da ferida, presumivelmente grande para o uso do adesivo tecidual isolado, sem suturas relaxadoras profundas. O presente estudo avaliou amostras de pele coletadas no D12 de cada grupo Dos resultados obtidos observou-se maior quantidade de células inflamatórias no GS quando comparado ao GA. A presença do fio de nylon como um corpo estranho e a maior agressão pela realização da sutura podem contribuir prolongando as fases inflamatórias do processo de reparo tecidual como encontrado neste grupo. Também foi possível observar maior quantidade de reação tecidual ao redor da área da cicatriz do GA, ou seja, perivascular e periglandular (glândulas sebáceas e sudoríparas), indicando uma dermatite de contato pela presença do adesivo tecidual.
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