Etnografia visual e narrativa oral: da fabricação à descoberta da imagem

Rafael Victorino Devos

Resumo


Ainda como iniciante na pesquisa etnográfica, tomei conhecimento da memória oral que se relaciona às ilhas de Porto Alegre, através de pesquisa exploratória que seguia a metodologia utilizada pela equipe do BIEV: escolhíamos espaços públicos significativos para o cotidiano da cidade (nesse caso, as ruas à beira do Lago Guaíba nas

ilhas), para a realização de gravações em vídeo. Enquanto contemplávamos paisagens da cidade tantas vezes representadas por fotógrafos, pintores, cronistas, novas representações surgiam sobre elas: a voz de moradores, freqüentadores, admiradores de ruas, prédios, beiras de rio e outros tantos lugares da cidade. Tinha início a descoberta de narradores de itinerários de grupos urbanos, dos muitos “começos” das atuais formas da paisagem da cidade.

 

Foi em meio a esse trabalho que nos deparamos com uma memória da cidade de Porto Alegre muito diferente, relacionada às ilhas e águas do Bairro Arquipélago. O Arquipélago é formado por 16 ilhas, circundadas pelas águas dos rios Jacuí, Gravataí, Sinos, Caí e pelo Lago Guaíba. Elas encontram-se à entrada da cidade, à noroeste do centro da capital. No atual contexto urbano-industrial da cidade, as pequenas propriedades rurais na margem das ilhas passaram a dar lugar a grandes residências e clubes náuticos destinados ao lazer de classes economicamente privilegiadas (as chamadas “mansões” das ilhas), enquanto que sua parte mais próxima das pontes e estradas de acesso transformou-se em periferia, vila de classes populares de baixíssima renda.

 

Esse processo de transformação da paisagem do Arquipélago, em meio ao desenvolvimento da Região Metropolitana de Porto Alegre, é narrado de forma muito particular pelos chamados moradores “antigos” das ilhas, que nos contaram suas trajetórias pessoais em meio a um repertório de estórias em que figuras míticas e lendárias eram recorrentes, reconfigurando essa paisagem das ilhas. Colocava-se o desafio de representar no vídeo essa paisagem da cidade, vista das ilhas, a partir das imagens que essas narrativas iam nos revelando.

 

Trabalhando em equipe, sob a direção das antropólogas Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornelia Eckert, iniciei a pesquisa sobre esse tema, junto a esse grupo, e acabei desenvolvendo minha dissertação de mestrado e a minha formação como antropólogo, a partir do duplo lugar de pesquisador e documentarista (gravando e editando em vídeo imagens da pesquisa) que se constituiu sobretudo em ouvinte/narrador das estórias descobertas no trabalho de campo. Nesse artigo, pretendo discutir como questões próprias da produção de um documentário sobre o tema da narrativa oral e da representação da paisagem em vídeo puderam ser recolocadas como um problema de pesquisa e representação da alteridade, como uma etnografia, cujo problema de interpretação é realizado a partir da imagem, e pela imagem.

 

Ao falarem sobre a paisagem do Arquipélago, sobre as ilhas, banhados e canais de navegação, a memória dos narradores trazia outras imagens que transformavam a representação dessa paisagem. Ao invés de tentar inserir os relatos dessas pessoas em um roteiro pré-dado, era preciso mergulhar nessas estórias, ouvi-las muitas vezes, para descobrir uma estrutura e um sentido que não estava oculto, mas expresso na fala dessas pessoas, e que traziam ao seu ouvinte uma outra imagem desse espaço, atravessada pelos muitos tempos que a narrativa revela.


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DOI: https://doi.org/10.22456/1984-1191.9225

Revista Iluminuras - Publicação Eletrônica do Banco de Imagens e Efeitos Visuais - BIEV/LAS/PPGAS/IFCH/UFRGS

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