O encontro: entre "Goethe" e "Lima e Silva"

Jonatas Dornelles, Cornelia Eckert

Resumo


Provavelmente essas duas figuras nunca tenham se encontrado. O primeiro nasceu em Frankfurt, em agosto de 1749. O segundo no Rio de Janeiro, em agosto de 1803. Enquanto um é reconhecido mundialmente pela literatura, o outro é reconhecido nacionalmente pelas suas façanhas beligerantes1. Talvez o único encontro entre os dois tenha se dado via escrita, sem o contato face a face, mas através da leitura de poemas. Algumas bibliografias a respeito de Lima e Silva lembram do seu gosto pela poesia. Entre seus autores preferidos figurava Goethe. Tirando isso e o fato de terem nascido no mesmo mês as coincidências acabam. Mas o leitor deve estar agora se questionando sobre o título desse artigo. Por que ele trata do encontro entre "Goethe" e "Lima e Silva"?

 

Sendo duas figuras famosas, acabaram fornecendo seus nomes à ruas de cidades brasileiras. Algo que acontece em Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul. Nessa cidade encontramos uma rua chamada de Goethe e outra chamada de General Lima e Silva (normalmente chamada somente de Lima e Silva). Tecnicamente a primeira é uma avenida, já que possui várias vias e é mais larga. A rua Lima e Silva se estende no sentido norte-sul e está localizada no bairro Cidade Baixa, ao lado do Centro. A avenida Goethe também está disposta no mesmo sentido, porém está localizada no bairro Rio Branco, que fica mais a leste do Cidade Baixa. As duas estão relativamente perto uma da outra, já que estão distante uns dois quilômetros. Distante? Quer dizer que elas não se encontram? Não há uma esquina formada entre a Goethe e a Lima e Silva? Então onde está o encontro?

 

Em Porto Alegre essas ruas são conhecidas por possuírem uma vida noturna intensa. Cada uma forma um circuito de boemia na cidade, já que ligam "manchas" onde se concentram essas práticas (MAGNANI, 2000). Ao longo de cada uma delas existem outras ruas onde se concentram bares e casas noturnas. Esses espaços são ocupados por diversos microgrupos e tribos urbanas (MAFFESOLI, 1987). Cada um deles constitui um sentimento de pertença ao local que costuma freqüentar, tendo ali o lugar ideal para a prática de sociabilidade. Algumas vezes a escolha do espaço é fixa. Nesse caso, o grupo tende a cultivar um encontro regular em um circuito específico. Talvez mesmo em um mesmo bar ou casa noturna. Porém a escolha também pode variar, o que nos mostra a racionalidade do grupo em consumir um determinado espaço da cidade de acordo com disposições e práticas coletivas. É quando "ir aqui" ou "ir ali" é determinante para um tipo de conduta que pretende ser cultivada. Nesse caso, a escolha do espaço urbano, para sustentar experiências cotidianas, faz parte do conjunto de práticas pelas quais o grupo marca e se demarca (BOURDIEU, 1983).


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DOI: https://doi.org/10.22456/1984-1191.9188

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