A poética do vivido: uma etnografia do cotidiano na Cidade Baixa - Porto Alegre - RS

Flávio Leonel Abreu da Silveira

Resumo


O bairro Cidade Baixa é uma área de Porto Alegre que resguarda parte da memória das populações negras no espaço urbano, mas também de uma boêmia porto-alegrense, de estilos de vida que, ao longo do tempo, na medida que a dinâmica de ocupação e transformação do mesmo foi ocorrendo, possibilitaram que esse local tomasse as feições que adquiriu na atualidade. A isso relacionam-se as modas que se sucederam de maneira a imprimir características diversas à paisagem urbana, seja nas formas que a arquitetura revela através dos muitos estilos das construções que convivem entre si, configurando um cenário singular, seja pela diversidade de atores sociais e grupos humanos que transitam por ele, onde a estética ligada ao vestir, por exemplo, revela comportamentos e formas de associações entre grupos que se alteram com o tempo, com aquilo que é próprio de cada época, da vida social existente no bairro.

 

Sendo assim, os personagens urbanos que constituem o corpo social que pulsa no bairro trazem consigo uma maior ou menor inserção e, por isso, permanência no local, engendrando processos microscópicos de interação, ocupando nichos específicos - aqui, a relação com a ecologia é direta (uma ecologia urbana) - no sentido de desempenharem papéis importantes na dinâmica do bairro através de interações da ordem do simbólico que demarcam espaços do habitar, da labuta, do lazer, da busca do alimento, entre outras possibilidades. Portanto, há um óbvio caráter relacional - e porque não, ecossistêmico -, de interação proxêmica, de diálogo e permuta entre diversas instâncias das práticas sociais que se revelam possíveis no mesmo.

 

A Cidade Baixa, nessa perspectiva, é esse espaço urbano que traz em si uma dimensão polissêmica (e polimórfica) onde grupos circulam e interagem: do menino de rua que cheira loló sentado no muro de uma casa ao punk tatuado e repleto de piercings que exibe sua cabeleira espetada; do rastafari de longas tranças que compra pãezinhos ao lado da vovó numa padaria de classe média; dos taxistas que se agrupam em torno de seus automóveis à moradora de rua que sorri banguela para mim sentada na calçada junto aos seus pertences - temos um universo cultural extremamente rico e promissor no que tange a produção de formas peculiares de relações sociais e sociabilidade no contexto citadino atores sociais que por ali circulam, portanto, ao apresentarem inserções variadas na paisagem do bairro, através de suas ações cotidianas, imprimem uma dinâmica que se constitui de cenas singelas e comuns, pelo fato de que transitam no local como personagens em deriva através das ruas, no sentido de uma cidade que se constitui também no andar, naquilo que a rua oferta em termos de possibilidade de experienciar a esfera do público - no deslocamento que pode representar apenas uma espécie de circularidade por bares, ou trânsito de um bairro a outro -, mas também, enquanto espaço que resguarda certa fixidez, de convivência, de construção das redes de relações e produção de cultura na cidade.


Texto completo:

PDF


DOI: https://doi.org/10.22456/1984-1191.9134

Revista Iluminuras - Publicação Eletrônica do Banco de Imagens e Efeitos Visuais - NUPECS/LAS/PPGAS/IFCH/UFRGS

E-ISSN 1984-1191