Korfmann

    A respeito do Processo de Kafka


    1 Introdução
    2 Vida
    3 O Processo

    Notas


    ABSTRACT

    Based on a supposedly new discovery of pornographic magazines, James Hawes aimed, in Excavating Kafka (2008), to reset the almost saintlike image of Kafka. This article will argue that these publications are fare from being hard-core pornography and their existence has been a long known fact. It will then discuss relations between literary texts and biography with reference to Kafka’s novel Der Process, written in 1914 and published only posthumous.

    Keywords:Kafka; process; biography; literature.

     

      Veio, como elemento mais importante
      ou estimulante, o desejo de obter um olhar
      da vida – e poder convencer os outros
      deste olhar através da escrita – no qual
      a vida conservasse suas quedas e subidas,
      mas fosse paralelamente reconhecida
      claramente como um nada, como um sonho,
      como algo flutuante”.
      Franz Kafka. Er. Aufzeichnungen aus dem Jahre 1920 [1]


     

    1 Introdução

    Com o objetivo declarado de desmistificar o cult ao redor de Franz Kafka, James Hawes, em sua publicação Excavating Kafka (2008, ed. Quercus), defende a tese de que a imagem de “quase santo” do autor foi construída a partir de premissas erradas. Em vez de um depressivo neurótico, passando forçosamente as noites em claro para livrar-se de seus tormentos e de seu pai opressivo, Hawes nos apresenta um jovem de humor negro, com um salário elevado de funcionário público e um pai normal que “deixou-o estudar o que quisesse, entrar e sair da casa quando quisesse e viver sem pagar aluguel durante anos, quando para todos os efeitos Kafka ganhava bem”.[2] Além disso, seria um escritor apoiado por um grupo influente e admirado por quase todos os seus colegas escritores. E há ainda o fato mais destacado por Hawes, as revistas classificadas por ele como “pornográficas” e assinadas por Kafka quando tinha em torno de 24 anos. Para Hawes, a negligência da crítica em geral de tais elementos “negativos” da biografia mostra sua pretensão de idealizar Kafka e instrumentalizá-lo como profeta máximo do totalitarismo posterior.

    Diz o autor de Excavating Kafka: “Toda a indústria que se alimenta de Kafka prefere que não se saibam coisas deste gênero sobre o seu ídolo. Talvez os biógrafos não gostem da idéia de Kafka ter recorrido a este tipo de materiais no início da carreira. Todos os postais que ele mandou, todas as páginas de diário que ele escreveu, todos os relatórios que ele preencheu são vistos como uma espécie de Arca de Noé. Mas nunca ninguém quis saber da pornografia. Há uma conspiração para censurar este assunto”.[3] Abolindo esta censura, Hawes presume que, talvez, finalmente consigamos ver o trabalho de Kafka pelo que realmente é: não expressões de uma figura deprimida, obscuro e cheio de dúvidas, mas sobretudo maravilhosas comédias negras. Para Hawes, revelar a ligação de Kafka com a “pornografia” contribui assim para contar “a verdade sobre toda a sua vida literária", de acordo com uma declaração sua num artigo recente para a revista The Guardian.[4]

    Talvez certa idealização cultivada pela crítica tradicional a respeito de Kafka tenha sido a origem de seu ataque de fúria. Se tomarmos o exemplo do Brasil, basta ler os prefácios de diversas obras para achar comentários como os seguintes, de Torrieri Guimarães, que claramente santificam Kafka de maneira extrapolada. Citamos aqui apenas três curtos trechos para que se tenha uma idéia do freqüente tom um tanto pomposo nas análises sobre Kafka que poderiam ter causado a irritação de Hawes. “Poucos são os homens que, dotados do poderoso microscópio de auto-análise, e gênio bastante para psicanalizar-se com inteira isenção de preconceitos, descobrem em si estas falhas de educação, esses vácuos abertos e perigosos de sua personalidade”.[5]

    “O homem Franz Kafka [...] sente a necessidade de empreender a formidável descida às cavernas de sua mente para apanhar os fragmentos dos temores infantis, de frustrações e dissentimentos, e submeter esse material ao crivo de sua inteligência lúcida”.[6]

    “Sua obra é um reflexo, o mais verdadeiro que se poderia desejar, porque ele escreve mais para si do que para os leitores [...]”. [7]

    Mas mesmo uma certa compreensão da crítica de Hawes tendo como fundo tais afirmações não elimina o sentimento de que Excavating Kafka representa mais uma tendência sensacionalista do que realmente uma contribuição relevante para uma nova visão sobre a vida e obra de Franz Kafka. Em relação às publicações “pornográficas” descobertas por Hawes na British Library e na biblioteca de Bodleian em Oxford, trata-se de exemplares das revistas Der Amethyst (1905/1906) e Die Opale (1907), editadas por Franz Blei, amigo de Kafka, e, devido ao conteúdo parcialmente erótico, destinadas exclusivamente a um público restrito de assinantes; mas esta não era uma praxe excepcional: basta lembrar aqui que mesmo Der Reigen de Arthur Schnitzler podia, na época, apenas ser publicado como edição privada. As tão faladas imagens sexuais consistem sobretudo de ilustrações de artistas famosos como Aubrey Beardsley, Félicien Rops, Franz von Bayros, Thomas Theodor Heine e Alfred Kubin. Aqui dois exemplos de imagens contidas nas duas revistas assinadas por Kafka:

     

     

      rehinkarnation korfmann

      Th. Th. Heine: Encarnação da corça Reh-Inkarnation:

       

       

      Félicien Rops: Fogo!

     

     

    Além de tais materiais visuais, as revistas apresentavam textos de conteúdo erótico, grotesco ou de diversos assuntos, incluindo também autores consagrados como Goethe, Rimbaud, Wilde e Robert Walser. Quanto à alegação de Hawes de que Kafka teria escondido estas revistas por causa de seu conteúdo escandaloso, podemos ler numa carta a Max Brod de meados de agosto de 1907 que ele as guardou numa caixa fechada a chave para que ninguém descobrisse nela “minha caderneta de poupança cuja existência é desconhecida por todos”.[8]

    Tudo isso, bem como as visitas de Kafka aos bordéis locais de Praga ou nas viagens para o exterior, como Paris, já era fato conhecido, sobretudo graças às biografias de Klaus Wagenbach de 1958[9] e 1964.[10] Talvez o fato de que estas nunca foram traduzidas para o inglês possa explicar a suposta “ruptura” aclamada por Hawes. Conseqüentemente, Wagenbach ataca duramente o escritor inglês: “James Hawes é um idiota que não sabe nada acerca de Kafka, mas escreve sobre ele como se soubesse.”[11] A pesquisadora americana Anjana Shrivastava comenta: “Hawes deixou-nos espreitar pelo buraco da fechadura e viu Kafka com as calças na mão. Mas chamar as revistas ilustradas que ele assinava de pornografia hard-core é como comparar um poema de Heinrich Heine a um slogan publicitário do McDonald’s'.[12] Aproveitando esta recente polêmica a respeito de um dos mais comentados autores, mostraremos, a seguir, uma possível aproximação de elementos biográficos, inclusive o aspecto sexual, com uma das obras kafkanianas mais conhecidas, O processo, numa tentativa de evitar radicalizacões interpretativas. Em vez disso, pretende-se manter certa contingência textual, porém, apontar também para as diversas linhas biográficas que se cruzam nesta obra. Pontos centrais neste trabalho são a relação de Kafka com Felice Bauer, ou seja, o aspecto biográfico, bem como um ensaio de Alfred Weber, irmão do famoso Max Weber. Alfred Weber era professor de estudos sociológicos, culturais e econômicos na Universidade de Praga. Fazia parte da banca do doutorado de Kafka e, em 1910, publicou um artigo chamado “O funcionário público”, na revista Die Neue Rundschau.[13] Kafka tinha feito uma assinatura desta revista, o que torna provável sua leitura. Pretende-se ler este texto como possível fonte de inspiração para obras como O Processo.

     

    2 Vida

    “A escrita é imutável, enquanto as opiniões sobre seu significado são variáveis e, mesmo sendo diversas e contraditórias, são plausíveis e apresentam uma lógica interna”.

    Esta citação do episódio “Perante a lei”, o núcleo de O Processo, romance inacabado de Kafka, pode ser lida como comentário referente ao texto da lei (fixo) e as sentenças (variáveis), bem como referente ao próprio texto de Kafka (fixo) e suas intermináveis e freqüentemente contraditórias interpretações ao longo das ultimas décadas. Albert Camus resume isso: “Ė o destino e talvez também a grandeza de sua obra que apresenta todas as possibilidades interpretativas, mas não confirma nenhuma”.[14] Esta qualidade ambígua do texto literário, por excelência presente nas obras de Kafka, pode ser vista como vantagem, no sentido de exigir ou permitir atualizações permanentes via leitor, época histórica e procedimentos metódicos escolhidos. Assim, Thomas Mann ou Alfred Döblin compreendiam seus textos como sonhos ou pesadelos de desenvolvimento lógico interno; Hermann Hesse viu neles a profecia das mudanças sociais posteriores; Robert Musil elogiava sua delicadeza e fragilidade moral enquanto; André Gide destacava a combinação de imagens realistas e viradas para o misterioso. No entanto, esta vantagem do significado aberto pode tornar-se uma desvantagem quando se entende a análise literária como procedimento cientifico, de resultados sólidos e confiáveis.

    Para obter um certo grau de coerência – a não ser que se rejeite por princípio tal pretensão em favor de uma leitura anti-autor-itária de fluxo livre, usando (ou instrumentalizando) o texto apenas como ponto de partida para construções de arbitrárias redes de significados –, é preciso então inserir uma folha de apoio “embaixo” do romance que servirá para destacar certos pontos ou elementos textuais. Desta forma, reduz-se sua complexidade potencial e forma-se uma complexidade própria, ou seja, constrói-se um ponto de observação. Investiga-se aqui, nestas condições, O Processo a partir de dois destes pontos: um de caráter biográfico, interligando o romance ao ambiente pessoal de Kafka; o segundo busca abordar o romance dentro da problemática da burocracia e administração. Lembramos aqui que Elias Canetti via Kafka como o especialista maior do poder, e Deleuze e Guatarri julgaram-no como o teórico maior da burocracia.

    Como súdito do Império Austro-Húngaro, Kafka possuía passaporte austríaco. Em Praga, centro político da Boêmia, pertencia aos 7% da população que falava alemão. Era sobretudo aquela camada que serviu ao Império em suas repartições administrativas. Em 1918, quando, ao final da Primeira Guerra, fundou–se a República da Tchecoslováquia, Kafka obteve então um passaporte tcheco tornou-se entao a única língua oficial. O próprio Franz Kafka dominava tanto o alemão quanto o tcheco de forma quase bilíngüe; herança sobretudo de sua mãe, que aprendeu o alemão como língua materna e o tcheco como segunda. O pai era de origem tcheca.

     

     


     

     

    Kafka pertencia então a uma dupla minoria: à alemã e, dentro desta, ainda à minoria judaica, embora nem a família nem Kafka fossem religiosos ortodoxos e haja uma longa disputa sobre a questão se Kafka realmente apoiava o movimento zionista como alega Max Brod ou Hannah Arendt.[15]

     

     

      Kafka com 5 anos

     

     

    Kafka freqüentou a Deutsche Knabenschule, ou seja, a escola alemã para meninos de Praga.

     

     

       

       

      Aqui uma fotografia da época de estudante:

      Bild:Kafka-as-pupil.jpg

     

     

    A seguir, estuda na Universidade Alemã de Praga, onde cursa primeiro quatro semanas de química, depois se matricula em direito. Mais tarde, muda sua ênfase para história da arte e literatura alemã e, por fim, volta para o curso de direito. Após oito semestres, termina seus estudos, como era de praxe, com a defesa de sua tese de doutorado em 1906.

     

     

      Bild:Kafka1906 cropped.jpg

      Kafka na época de sua formatura

     

     

    Kafka já começara a escrever durante seu período universitário e conseguiu publicar seu primeiro texto em 1912. Em 1915, foi editado um dos seus textos mais famosos, A Metamorfose.

     

     

     

     

    Kafka freqüentava teatros, apresentações e discussões literárias, bem como alguns salões de Praga, onde encontrou inclusive Albert Einstein, que lecionou em Praga entre 1911 e 1912. Fez algumas leituras públicas de seus textos, tanto em Praga como em Munique, e numa destas ocasiões sociais conheceu Max Brod, que acabaria se tornando seu grande amigo.

     

     

      Bild:Max Brod.jpg

     

     

    Como se sabe, em seu testamento, Kafka pediu a Brod que queimasse ou destruísse grande parte de seus escritos, o que não aconteceu. Contudo, também se sabe que Kafka mostrara este testamento a Brod bem antes de seu falecimento, e este já o avisara de que jamais faria isso. Resta então a dúvida se este desejo foi realmente expresso para ser cumprido, como indica a queima de vinte “grossos cadernos” em seu último ano de vida por sua então parceira Dora Diamant, ou, como alegam certos críticos, fazia parte de uma auto-encenação para aumentar o mistério ao redor de sua pessoa após sua morte.

     

     

      Arbeiter-Unfall-Versicherungs-Anstalt.

     

     

    Trabalhava das nove às quatorze horas. Dormia à tarde, para depois fazer caminhadas ou praticar esportes, como nadar, remar ou andar a cavalo. Devido a sua aversão ao barulho, escreveria quase sempre à noite, entre vinte e três e duas ou três horas da manhã, até sua aposentadoria por invalidez, em 1922. Sua tuberculose progrediu para um câncer de laringe, e Kafka viria a morrer em 1924, num sanatório na Áustria.

    A partir destes traços básicos de sua vida, talvez já se possa perceber que Kafka não era aquela figura “alienada” ou fracassada como foi freqüentemente caracterizada. Citamos suas práticas esportivas, podemos ainda mencionar sua tendência para a comida vegetariana ou suas férias no interior, onde andava de motocicleta. Fez carreira como funcionário público na Arbeiter – Unfall- Versicherungs – Anstalt. Foi promovido quatro vezes e exerceu chefia de certo nível. Também escrevia artigos especializados sobre sua área, que deviam classificar empresas industriais quanto a seu grau de perigo para a saúde dos trabalhadores. Para uma compreensão melhor de processos industriais, freqüentou cursos sobre tecnologia mecânica na Universidade de Praga e visitava regularmente as fábricas, onde via de perto os danos físicos causados pelas máquinas, descrevendo as conseqüências em textos ilustrados como este:

     

     

      Kafka

     

     

    Possivelmente, em conseqüência destas observações sobre as condições precárias de trabalho, Kafka tivesse certa simpatia pelo lado esquerdo em termos políticos. Freqüentava, pelo menos como observador, círculos socialistas e anarquistas e carregava em diversas ocasiões de protesto uma flor vermelha como sinal de solidariedade. Sua literatura não reflete, portanto, diretamente suas condições externas de vida. Kafka dispunha de toda liberdade financeira para sair da casa de seus pais, o que ele de fato fez diversas vezes. Da mesma forma, não se pode reduzir obras como O processo a mero resultado de sua experiência profissional ou das condições reais dentro de sua empresa.

     

    3 O Processo

    O Processo é, ao lado de Amerika e O Castelo, um dos três romances inacabados de Kafka, publicados apenas postumamente.

     

     

      Primeira Edição, 1925 & Manuscrito de Kafka

     

     

    O romance inicia com as seguintes frases:

      Alguém devia ter caluniado a Joseph K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal, foi detido certa manhã. A cozinheira da senhora Grubach, sua hospedeira, que todos os dias às oito horas lhe trazia o desjejum, não se apresentou no quarto de K. nesta manhã. Jamais acontecera isso.[16]

    O bancário Joseph K. é preso pouco tempo antes de fazer 30 anos, sem ser informado sobre a causa desta estranha detenção que o permite continuar com sua rotina usual de vida. Joseph K. procura, em vão, saber qual é a instância que o acusa e qual seria a acusação. No entanto, é informado de que a culpa atrai a lei e assim, já que atraiu a atenção da lei, deve ser culpado. Na busca por uma explicação lógica, perde-se perde cada vez mais num sistema impenetrável e aparentemente absurdo, de lugares tortuosos, secretos e escondidos, cheio de personagens bizarras. Um dia antes de completar 31 anos, Joseph K é levado, ou se deixa levar quase em silêncio e sem muita resistência, a uma pedreira para execução: “(...) as mãos de um dos senhores seguraram a garganta de K. enquanto o outro lhe enterrava profundamente no coração a faca e depois a revolvia ali duas vezes. ‘Como um cão’ – disse K. Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele” [17]

    Visto de um ângulo biográfico, podemos associar a detenção decretada, mas não efetuada, o labirinto de poderes não-identificáveis e a permanente ameaça anônima dentro de sua relação com Felice Bauer.

     

     

      Kafka e Bauer em 1917

     

     

    Kafka inicia o Processo em agosto de 1914. Ele conheceu Felice Bauer, estenógrafa berlinense, mulher objetiva, de grande sentido prático, em 1912, em Praga, na casa de Brod. Nelson Mello e Souza traça a linha entre esta relação e O Processo da seguinte maneira:

      Sendo um crítico excessivamente rigoroso de si mesmo, foi [...] a encarnação da fúria iconoclasta em relação à sua obra. Não era somente a dúvida sobre seu valor literário o que o atormentava, mas a decorrência. Produzir uma literatura cifrada e fazer-se entender... Se não tivesse o talento necessário para este esforço nobre, melhor desistir, aceitando o fluxo normal da vida como seu destino, casando-se, empregando-se, tendo filhos e mais tarde netos. A opção abria a perspectiva do impossível. O sentido da existência iria desmoronar. Kafka chegou à plena vida adulta sempre em meio a esta ambivalência. O resultado foi uma ferida que ficou, um sentimento de “culpa”. Foi-se ampliando e vazou em sangue e dor no decorrer do ano de 1914, o ano de O Processo.[18]

    Souza vê O Processo dentro das ambivalências de Kafka entre uma vida dedicada à literatura e uma existência “normal”, simbolizada pelo futuro casamento com a Felice Bauer. Kafka a visita, em 1913, duas vezes, em Berlim; depois, distancia-se dela e tem um caso com uma jovem suíça na Itália. Volta a relacionar-se com Felice e, em junho de 1914, realiza-se um noivado oficial. Já em julho do mesmo ano, desfaz o noivado. Em julho de 1917, acontece um segundo noivado. No final deste ano, Kafka adoece de tubercoluse e, em outubro, manda sua última carta a Felice. Mas o que interessa aqui, em relação ao Processo, é sobretudo a dissolução do noivado em 1914. Para isso, Kafka viaja até Berlim. Como Joseph K., está quase completando 31 anos. Acontece um encontro no hotel Askanischer Hof para acertar a separação, do qual participam Felice, Kafka, uma amiga de Felice, Grete Bloch, a irmã de Felice, Erna Bauer, bem como um amigo de Kafka, Ernst Weiss. Este encontro foi definido freqüentemente pelo próprio Kafka como “corte” ou “o julgamento do hotel” e poderia ter dado início ao Processo: o noivado e o futuro casamento podem ser vistos como a detenção no início do romance e o encontro no hotel, o julgamento, como a execução no final. Um papel central aqui exerce Grete Bloch, a amiga de Felice. Wagenbach afirma que Kafka tinha um caso com ela, que inclusive resultou numa gravidez e o nascimento de um filho, em 1915.[19] A criança faleceu aos 7 anos de idade, mas Kafka nunca soube de sua existência. Tudo indica que Greta passou certas informações a Felice e argumentava contra Kafka no encontro do hotel, de modo que foi vista por ele como a juíza que o “matou” neste encontro traumático. O acerto de contas e a separação “pública” foram sentidas por Kafka como profunda humilhação, a qual ele assistiu em silêncio, correspondendo assim ao final de O Processo, onde Joseph K se deixa levar quase em silêncio e quase sem vontade própria à cena final de sua execução. Evidentemente, há ainda o jogo dos nomes: no início de O Processo, Joseph K. fica preso no quarto da Senhorita Bürstner, nome que inicia com B como Bauer ou Bloch e a quem Joseph K beija como a “um animal sedento”.

    Esta cena nos leva à questão da sexualidade. Tanto em O Processo como em outros textos há frequentemente mulheres que se oferecem, se vendem, meio prostitutas, pessoas baratas e meio repugnantes, com “cheiro amargo” como Elsa em O Processo. Estas figuras surgem sempre em um momento específico da trama: elas entram em cena quando há situações decisivas referentes ao futuro. Neste momentos, elas surgem, agarram o homem e impedem que ele prossiga com seus objetivos iniciais. Dentro da constelação biográfica do conflito permanente entre a vida ou a literatura de Kafka, poderia argumentar-se que o sexo é usado como ameaça de afastar o homem do caminho artístico ou então que o sexo impessoal, “sujo”, com prostitutas, não oferece uma solução satisfatória. Uma visão completamente oposta é defendia por Karin Leich, que, em sua tese sobre dominação e sexualidade em Kafka, vê em tais figuras “um espaço não dominado pela repressão social e sexual da época”.[20] Como a autora se esforça para integrar os elementos literários numa concepção na qual Kafka mostra “os efeitos das condições de dominação social sobre a consciência comum de um membro da esfera capitalista de distribuição”,[21] ela conseqüentemente chega à conclusão de que, em relação à Senhorita Bürstner, Kafka mostra a “tentativa de uma jovem mulher de criar e defender um espaço privado, não dominado pelas normas sociais vigentes. Ela mostra curiosidade intelectual e, com isso, formas de resistência contra a dominação crescente do mundo exterior e interior”. [22]

    Vimos aqui já uma leitura bastante afastada dos elementos biográficos de Kafka. Traçamos, a seguir, as linhas básicas de um acesso ao romance baseado num texto sociológico contemporâneo, o já citado artigo “O funcionário público” de Alfred Weber, publicado em 1910, na revista Die Neue Rundschau.

    Após a “prisão” que não impede Joseph K. de continuar com sua vida, ele tenta esclarecer este fato por meio de perguntas racionais: entre outras, quer ver o mandato de prisão, saber da instância que emitiu o mandato ou a razão deste mandato. Recebe inicialmente a resposta dos agentes que não é de sua competência responder tais questões. Joseph K. presume tratar-se apenas de representantes de baixo escalão e, consequentemente, tenta chegar a instâncias mais altas na hierarquia, equivalentes a seu próprio nível social como funcionário destacado do banco. Conforme Joseph K., uma tal confusão nunca poderia acontecer no seu banco, já que lá há uma ordem estabelecida e claras estruturas de competências. A entrada do caos, a retirada de uma estrutura hierárquica de competências, de motivos e efeitos, é contrabalançada pelo fato de que Joseph K. pode continuar a viver sua rotina, porém sempre sobre uma ameaça não-identificável e despersonalizada. Toda culpa é atribuída a ele, já que, conforme lhe é informado, a lei é atraída pela culpa e, portanto, todo processo parte do próprio acusado. E uma vez dentro do sistema, não há como sair.

    No decorrer do processo, Joseph K. descobre cada vez mais pessoas que sabem deste processo e parecem fazer parte desta organização invisível mas onipotente. O que parece para Joseph K. ser algo irracional e absurdo, sem sentido, ou seja, sem causalidade, pode ser, para esta organização, algo muito racional e necessário no sentido de sua própria sustentação e sobrevivência: Joseph encontra quartos cheios de relatos, documentos, anotações etc, de modo que se presume, uma vez que há tantos textos sobre seu caso, que deva haver alguma razão que justifique a existência destes documentos e deste caso. O acesso ao poder leva Joseph K. a intermináveis quartos, salas, edifícios de estruturas bizarras e espaços secretos: o espaço do poder corresponde à dificuldade de achar o caminho a ele, tema também do famoso episódio “perante a lei”. Enfim, não se trata de um sistema burocrático/administrativo sustentado por pessoas identificáveis, mas sim de um sistema de rede com regulamentos internos que são experimentados do lado de fora como contingentes, incompreensíveis e inacessíveis. O sistema funciona sozinho, basta inserir o nome e inicia-se o programa; como diz o advogado Huld no romance: a hierarquia e seus graus é infinita e, mesmo para aqueles a par, não determináveis. Se seguirmos esta linha aqui traçada, poderemos encontrar inúmeras correspondências entre O Processo e o artigo de Alfred Weber, irmão do mais famoso Max Weber. Alfred Weber

     

     


     

     

    era professor na Universidade de Praga para estudos sociológicos, culturais e econômicos e também fazia parte da banca do doutorado de Kafka. Publicou seu artigo “O funcionário público” em 1910, na revista Die Neue Rundschau, Vol. XXI, Nr. 4, p. 1321– 1339. Kafka tinha feito uma assinatura desta revista; portanto é possível pressupor que ele lera o texto, porém, até que ponto realmente o tomou como inspiração, não há como comprovar. Alfred Weber justifica seu artigo[23] como um ataque a “mechanism and mechanization” (p. 47) no início da modernidade e um pladoyer em favor da individualidade ameaçada pelo apparatus burocrático crescente. “People who sense that a common feeling of culture is at stake today see something monstrously problematic growing up around us. They see an immense ‘apparatus’ rising up in our life with a tendency to pervade more and more of our more native, free and organic facets of existence, and to suck us into its chambers, into its compartments and sub-compartments.” (p. 47-48). Nao é preciso muito esforço para ver as semelhanças entre o labirinto de Joseph K. e o sistema anônimo que emerge em nossas vidas, penetrando-a e sugando nossa existência para dentro de quartos, prateleiras, gavetas e documentos. Nota-se, conforme Weber, como este apparatus é algo auto-sustentável e possuidor de um veneno que elimina tudo o que é estranho, diferente e individual. Em vez do particular, indivual, ele impõe algo gigantesco, um sistema, que se estende sobre todo o trabalho e toda a atividade e realiza a inclusão total do homem no aparato, na grande rede burocrático-administrativa.

    Se entendermos então O Processo como comunicação literária sobre o processo de desindividualização e o emergir da sociedade de massa, regulada por forças funcionais anônimas e seus mecanismos não transparentes, onde o indivíduo torna-se um mero elemento substituível e submisso a uma rede de regulamentos e leis autônomas e auto-sustentáveis, podemos constatar – ampliando um pouco mais nossa lente histórica – que já havia, numa fase histórica anterior, uma constelação parecida. No final do século XVIII, na fase aguda da diferenciação social e funcional na Europa, Hyperion, no romance de Hölderlin, volta para Alemanha e observa: “Não posso imaginar um povo mais despedaçado que os alemães. Artesãos tu vês, mas não humanos, pensadores sim, mas não humanos, sacerdotes, mas não humanos, patrões e servos, jovens e pessoas de idade, mas não humanos”.[24] Para ele, o estado do país lembra cenas de guerra. “Não é como um campo de batalha, onde mãos e braços encontram-se despedaçados enquanto o sangue da vida derramado se derrete na areia? Tu dirias que cada um faz o seu ofício, mas na verdade cada um é comprimido para dentro de uma área onde ao espírito não é mais permitido viver”.[25] Schiller profere, em 1795, palavras empáticas para caracterizar a sociedade funcional emergente:

      A imagem da espécie encontra-se nos indivíduos de tal forma fragmentada que é preciso perguntar de indivíduo a indivíduo para reunir a totalidade da espécie. É quase possível afirmar que, em nossa época, as faculdades afetivas se manifestam na experiência tão dividida como o psicólogo as separa na imaginação, e nós vemos não apenas sujeitos singulares mas classes inteiras de pessoas desenvolverem apenas parte de suas faculdades, enquanto as restantes quase nem são perceptíveis.[26]

    E continua: “Sempre encadeado a um fragmento do todo, o homem se desenvolve apenas como fragmento [...], se torna mera cópia de sua tarefa, de sua ciência e acaba sendo um mero formulário”.[27] A descrição do homem como formulário deriva evidentemente da imposição da galáxia de Gutenberg. A invenção de Gutenberg, a impressão de livros via letras móveis por volta de 1450, havia iniciado uma divulgação ampla da escrita e o aumento gradual das taxas de alfabetização. Não são mais apenas pequenos círculos nos mosteiros, cortes ou nos centros universitários que lêem e escrevem; a capacidade da comunicação social através da escrita torna-se tanto uma norma nas repartições públicas como nas residências particulares, onde a ascensão social começa via exercício da palavra no papel e a dominação de diversas formas da linguagem: já no século XVII existiam os primeiros manuais para redigir cartas ou pedidos formais à administração, ensinando como formular requerimentos e outros formatos oficias. Se, de um lado, isso abre caminho para uma comunicação despersonilizada e, por conseguinte, livre de decisões individuais arbitrárias da comunicação face a face – bem como a ascensão social através da capacidade de ler e escrever –, encontramos, mesmo na própria área literária, inúmeros exemplos a respeito do poder negativo da escrita: Dom Quixote lia romances demais; o Fausto de Goethe, cansado e desesperado com o conhecimento e a experiência provenientes de textos sem vida, embarca numa viagem temporal fantasmagórica e sensual como contraponto ao emergente e burocrático “sistema de registro”, (Kittler 1985)[28] das escrituras. Dessa forma, podemos entender O Processo também como marca referencial a respeito do poder dos sistemas autoreferenciais e suas leis internas que, desde a implantação da sociedade funcional no século XVIII, não se sustentam primeiramente a partir de objetivos ou representantes individuais mas de estruturas dinâmicas e comunicações auto-sustentáveis.

    Sendo assim, podem-se detectar em O Processo elementos de um conflito pessoal e autobiográfico de Kafka, da desindividualização acentuada no início da sociedade de massas ou, olhando para trás, como profecia ao futuro próximo: Max Brod, amigo de Kafka, escreve, em 1933, como o romance ganhou uma atualização inesperada frente ao nacional-socialismo emergente. Ao reler as primeiras páginas e ver a descrição das roupas pretas e dos cintos dos guardas, Brod assusta-se com a semelhança com os uniformes da SS. E não se deve esquecer que, apesar de Kafka ter morrido em 1924, suas três irmãs foram deportadas pelas forças ocupantes dos nacional-socialistas e morreram num campo de extermínio.

     

     

       

       

      Outra namorada de Kafka, Milena Jesenská, morre em 1944, logo após ser libertada de um campo de concentração em Ravensbrueck.

       

       


       

       

      A parceira de seus ultimos tempos, Dora Diamant,

       

       

     

     

    conseguiu fugir dos nazistas para a Inglaterra. Mais tarde foi com o marido para a União Soviética, onde este foi morto durante as limpezas stalinistas. Portanto, o estado totalitário faz parte, inevitavelmente, da leitura de Kafka, mesmo se este não tivesse como prever tal futuro na época.

     
     
     
    Notas

    [2] (2008, p. 12).

    [3] HAWES, James. Excavating Kafka, Quercus 2008, p. 17.

    [5] Torrieri Guimaraes. Prefacio. In: KAFKA, Franz. O processo. Edições Tema, São Paulo, não datado, p. VIII.

    [6] Torrieri Guimaraes. Prefacio. In: KAFKA, Franz. O processo. Edições Tema, São Paulo, não datado, p. IX.

    [7] Torrieri Guimaraes. Prefacio. In: KAFKA, Franz. O processo. Edições Tema, São Paulo, não datado, p. X.

    [8] http://homepage.univie.ac.at/werner.haas/1907/bk07-004.htm#9

    [9] WAGENBACH, Klaus. Franz Kafka. Eine Biographie seiner Jugend 1883–1912. Francke, Bern 1958

    [10] WAGENBACH, Klaus. Kafka. Rowohlt, Reinbeck bei Hamburg, 1964.

    [11] www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/germany/2562641/British-writer-sparks-Anglo-German-row-over-Kafka-porn-collection.

    [12] http://www.guardian.co.uk/books/2008/aug/15/franzkafka.germany

    [13] WEBER, Alfred. Die Beamten. Die Neue Rundschau, 1910, Bd. XXI, Nr. 4, S. 1321– 1339.

    [14] Apud WAGENBACH, Klaus. Kafka. Rowohlt, Reinbeck bei Hamburg, 1964, p. 143.

    [15]  Ver, por exemplo, Ritchie Robertson. Kafka. Judentum, Gesellschaft, Literatur. Stuttgart 1988.

    [16] KAFKA, Franz. O processo. Edições Tema, São Paulo, não datado, p. 1.

    [17] KAFKA, Franz. O processo. Edições Tema, São Paulo, não datado, p. 179.

    [18] O Processo, de Franz Kafka.Uma interpretação.Nelson Mello e Souza internet.

    [19] WAGENBACH, Klaus. Franz Kafka. Eine Biographie seiner Jugend 1883–1912. Francke, Bern 1958, p. 100.

    [20] „Herrschaft und Sexualität in Franz Kafkas Romanen ‚Der Proceß’ und ‚Das Schloß’“. Karin Leich. 2003.

    [21] Leich s. 25

    [22] Karin Leich. 2003. s. 32

    [23] por falta de acesso ao original, usamos aqui a versão em inglês feito por Austin Harrington: “Alfred Weber’s essay ‘The Civil Servant’ and Kafka’s ‘In the Penal Colony’: the evidence of an influence“. In: HISTORY OF THE HUMAN SCIENCES Vol. 20 No. 3, 2007.  SAGE Publications (Los Angeles, London, New Delhi and Singapore) pp. 41–63.

    [24] HÖLDERLIN,Friedrich. Fragment von Hyperion. Stuttgart: Cotta, 1963, p. 160.

    [25] HÖLDERLIN,Friedrich. Fragment von Hyperion. Stuttgart: Cotta, 1963, p. 160.

    [26] SCHILLER, Friedrich. Über die ästhetische Erziehung des Menschen. Stuttgart: Reclam, 1986, p. 19.

    [27] SCHILLER, Friedrich. Über die ästhetische Erziehung des Menschen. Stuttgart: Reclam, 1986, p. 20.

    [28] KITTLER, Friedrich A. Aufschreibsysteme. Wilhelm Fink Verlag, München 1985.

     

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