Rilke

O coveiro - Rainer Maria Rilke

tradução de Filipe Kegles Kepler


 

Nota

 

 

 

Em San Rocco, morrera o velho coveiro. Divulgava-se diariamente que a vaga estava disponível, porém passaram-se três semanas, ou mais, sem que ninguém se apresentasse, e, como durante todo esse tempo ninguém morrera em San Rocco, o caso não parecia também ter muita urgência. Assim, aguardava-se tranqüilamente. Aguardava-se; até que numa noite de maio apareceu o forasteiro, que quis assumir o cargo. Gita, a filha do podestade, foi a primeira a vê-lo. Ele saiu do escritório de seu pai (ela não o vira chegar) e veio diretamente ao seu encontro, como se aguardasse encontrá-la no corredor, que estava escuro.

– Tu és filha dele? – perguntou em voz baixa, acentuando de modo incomum cada uma de suas palavras.

Gita anuiu com a cabeça e seguiu ao lado do forasteiro até uma das baixas janelas, através da qual adentravam o brilho e o silêncio da viela mergulhada em noite. Ali observavam ambos, atentamente, um ao outro. Gita encontrava-se de tal modo imersa na contemplação do forasteiro, que só depois se deu conta de que, durante todos esses minutos em que esteve a contemplá-lo, ele também havia de tê-la observado. Era alto e esguio e vestia um trajo de viagem preto, de corte estrangeiro. Seus cabelos eram louros, e usava-os como o faziam os fidalgos. Ele, de fato, encerrava em si um quê de nobreza: podia ser magistrado ou médico; era curioso que fosse coveiro. Instintivamente, ela procurou-lhe as mãos. Ele lhas estendeu, ambas, como uma criança.

– Não é um trabalho difícil – disse. E ela, embora olhasse para suas mãos, sentia-lhe o sorriso dos lábios, sob o qual se deixava estar como sob um raio de sol.

Em seguida, os dois foram juntos até o portão da casa. A rua já anoitecia.

– É longe? – indagou o forasteiro, vendo as casas que seguiam abaixo, até o fim da viela. Esta estava completamente vazia.

– Não, não muito, mas eu quero levar-te até lá, pois tu podes não saber o caminho, forasteiro.

– Tu o sabes? – perguntou o homem, sério.

– Sei-o bem; aprendi a trilhá-lo ainda quando pequena, porque ele conduz à mãe, que nos foi levada prematuramente. Ela descansa lá fora, eu quero mostrar-te onde.

Eles, então, seguiram novamente calados, e seus passos soavam no silêncio como um passo.

O homem de preto disse, de repente:

– Quantos anos tu tens, Gita?

– Dezesseis – tornou a menina e esticou-se um pouco. – Dezesseis, e a cada dia um pouco mais.

O forasteiro sorriu.

– Mas – disse ela, sorrindo também –, quantos anos tu tens?

– Mais, mais do que tu, Gita, o dobro de anos e, a cada dia, muitos, muitos anos mais.

Eles estavam em frente ao portão do cemitério.

– Aquela é a casa na qual tu deves morar, ao lado da câmara mortuária – disse a menina, apontando com a mão por entre as grades do portão para a outra extremidade do cemitério, onde havia uma pequena casa toda coberta de hera.

– Então é aqui, afinal – acenou o forasteiro com a cabeça e, vagarosamente, passou os olhos por sua nova terra, de um extremo ao outro. – Não era um homem velho, o coveiro? – perguntou.

– Sim, um homem muito velho. Ele morou aqui com a mulher, e a mulher era também muito velha. Ela partiu logo após sua morte, não sei para onde.

O forasteiro disse apenas “sei...”, e parecia pensar em algo completamente diferente. De súbito, virou-se para Gita:

– Tu deves ir agora, menina, está tarde. Tu não sentes medo sozinha?

– Não, eu estou sempre sozinha. Mas e tu, não sentes medo aqui fora?

O forasteiro abanou a cabeça, tomou a mão da menina e segurou-a, imprimindo-lhe leve, segura pressão: “Eu também estou sempre sozinho”, disse ele em voz baixa. Ela, então, sussurrou de repente, sem fôlego: “Escuta”. Então, ambos ouviram um rouxinol que começou a cantar na sebe de espinhos do pátio da igreja; e ficaram completamente envolvidos pelo som que se avolumava e como que embebidos no anseio e júbilo desse canto.

Na manhã seguinte, o novo coveiro de San Rocco iniciou em seu ofício. Entendeu-o de modo um tanto estranho: ele reformou todo o pátio da igreja e fez do lugar um grande jardim. As antigas sepulturas perderam sua tristeza meditativa e desapareceram sob o desabrochar das flores e o balouçar das gavinhas. Acolá, do outro lado do caminho meão, onde até então houvera relva bravia e abandonada, o homem plantou vários canteiros de flores, pequenos, semelhantes aos das sepulturas no outro lado, de modo que ambas as metades do pátio mantivessem certo equilíbrio entre si. As pessoas que vinham da cidade mal conseguiam reencontrar seus queridos túmulos – sim, sucedeu de alguma velha mãezinha ajoelhar-se e chorar junto a um dos canteiros abandonados do lado direito do caminho, sem que por isso essa encanecida prece se extraviasse ao filho que jazia distante, do outro lado, sob claras anêmonas. Contudo, as pessoas de San Rocco que viam esse pátio já não mais sofriam tanto sob o peso da morte. Quando alguém morria (e eram, na maior parte das vezes, idosos, nesta primavera memorável), por mais longo e inconsolável que pudesse ser o caminho, lá fora era sempre qual uma pequena e silenciosa festa. Flores pareciam assomar de todos os lados e colocar-se tão depressa sobre a cova escura que se poderia dizer que a boca negra da terra abria-se somente para proferir flores, mil flores.

Gita viu todas essas transformações; quase sempre estava ela lá fora, junto ao forasteiro. Permanecia a seu lado enquanto ele trabalhava e fazia perguntas, e ele as respondia; o ritmo do cavar estava nas suas conversas, que o ruído da pá seguidamente interrompia.

“Longe, do Norte”, disse o forasteiro em resposta a uma pergunta. “De uma ilha”, curvou-se e agarrou ervas daninhas, “do mar. De um outro mar. Um mar que, com o vosso (eu às vezes o escuto, à noite, respirar profundamente, embora ele se encontre a mais de dois dias de viagem daqui), pouco tem em comum. Nosso mar é cinzento e cruel e fez as pessoas que moram ali tristes e caladas. Na primavera, ele traz inúmeras tempestades, durante as quais nada pode crescer, de modo que maio passa inaproveitado; e, no inverno, ele cobre-se de gelo e faz todos prisioneiros, os que moram na ilha”.

– Moram muitos na ilha?

– Não muitos.

– Mulheres também?

– Também.

– E crianças?

– Sim, crianças também.

– E mortos?

– E muitos mortos; pois são muitos, muitos os que o mar traz e, à noite, deita à praia; e quem os encontra não se assusta, mas apenas anui com a cabeça, anui como alguém que há muito o sabe. Há entre nós um velho que costumava contar de uma pequena ilha à qual o mar cinzento trouxe tantos mortos que já não restava mais espaço para os vivos. Eles estavam como que cercados por corpos. Talvez, isso seja apenas uma história, e, talvez, engane-se o velho que a conta. Eu não acredito nela. Eu acredito que a vida é mais forte que a morte.

Gita calou por um momento. Depois, disse:

– E, no entanto, a mãe morreu.

O forasteiro parou de trabalhar e apoiou-se na pá:

– Sim, eu também conheço uma mulher que morreu. Mas ela queria.

– Sim – disse Gita, séria –, eu posso imaginar que se queira.

– A maioria das pessoas quer e por essa razão morrem também os poucos que querem viver; eles são arrastados, não se lhes pergunta. Eu corri o mundo, Gita, falei com muitas pessoas e perguntei por seus corações. Mas dentre elas não havia uma que não desejasse morrer. No entanto, muitas disseram o contrário, e seu medo as fortaleceu nisso; mas o que é que as pessoas não dizem. Por detrás estava sua vontade, a vontade que não fala e que caiu sobre a morte como o fruto, da árvore. E não há nada que possa impedi-lo.

Então, veio o verão. E cada novo dia, que começava com o despertar dos passarinhos, encontrava Gita lá fora, junto ao forasteiro do Norte. Em casa, avisavam-na, repreendiam-na, tentavam usar de força e castigo para com ela, a fim de impedi-la. Tudo em vão: Gita coube ao forasteiro como um quinhão. Certa feita, mandou chamá-lo o podestade, um homem enorme, com uma voz grossa e ameaçadora.

“Vós tendes uma criança solitária, messer Vignola”, disse-lhe o forasteiro em resposta a todas as censuras, calmamente, inclinando-se um pouco. “Eu não posso proibi-la de estar perto de mim e da mãe. Eu não lhe dei nem prometi nada e jamais a chamei com palavra alguma”. Disse isso de maneira respeitosa e segura e, uma vez que o dissera, foi-se, pois não havia nada a ser acrescentado.

Lá fora, o jardim agora floria e estendia-se em suas quatro sebes, recompensando todo o trabalho que lhe fora dispensado. De vez em quando, podia-se encerrar mais cedo o trabalho e quedar-se no pequeno banco à frente de casa, vendo como, de uma maneira silenciosa e sublime, anoitecia. Gita, então, perguntava, e o forasteiro respondia; e, nesse meio tempo, tinham eles longos silêncios, nos quais as coisas lhes falavam. “Hoje quero contar-te de um homem, de como morreu sua amada esposa”, começou certa vez o forasteiro, depois de um dos tais silêncios; e suas mãos tremiam, uma na outra. “Era outono, e ele sabia que ela morreria; os médicos o haviam dito. Porém, eles podiam sempre se enganar. Mas ela mesma, a mulher, há muito o dissera, antes deles. E ela não se enganava”.

– Ela queria morrer? – perguntou Gita, porque o forasteiro fizera uma pausa.

– Ela queria, Gita. Ela queria algo além do que viver. Havia sempre muito ao seu redor; ela queria ficar sozinha. Sim, ela queria isso. Quando menina, ela não era sozinha como tu e, quando casou, ela soube então que era sozinha. Mas ela queria ser sozinha e não o saber.

– Seu marido não era bom?

– Ele era bom, Gita, pois ele a amava, e ela o amava; e, no entanto, Gita, eles não se tocavam um ao outro. As pessoas estão sempre tão distantes umas das outras; e aquelas que se amam são muitas vezes as que mais se afastam. Elas atiram umas às outras aquilo que é seu e não o agarram, e isso jaz em algum lugar entre elas, empilha-se e, por fim, as impede de ver uma à outra e de aproximar-se uma da outra. Mas eu queria contar-te da mulher que morreu. Ela morreu, portanto. Foi de manhã, e o homem, que não dormira, estava sentado junto a ela e viu como ela morreu. Ela levantou-se de repente, ergueu a cabeça, e era como se sua vida lhe afluísse ao rosto, lá se concentrasse e permanecesse, como centenas de flores, em sua fisionomia. Então, veio a morte e a arrancou com um golpe, arrancou-a como de argila fresca, deixando para trás seu rosto amplamente esticado, longo e afilado. Seus olhos permaneceram abertos e continuavam a abrir-se quando se os fechava, como moluscos nos quais o animal morreu. E o homem, que não podia suportar que olhos que não enxergassem permanecessem abertos, buscou do jardim dois botões de rosa tardios, duros, e os colocou sobre as pálpebras como peso. Agora, os olhos permaneciam fechados. Ele estava sentado e, por muito tempo, contemplou o rosto morto. E quanto mais o observava, mais nitidamente sentia que ainda silenciosas ondas de vida arrojavam e depois se recolhiam na margem de suas feições. Ele lembrou-se vagamente de ter visto, numa das mais belas horas, esta vida no seu rosto e soube que aquela era sua vida mais sagrada – a vida cujo confidente ele não se tornara. A morte não lhe tirara esta vida, antes se deixara iludir pelas muitas coisas que se aliaram a suas feições – isso ela arrebatara, juntamente com o suave contorno de seu perfil. Mas a outra vida ainda estava nela; há pouco afluíra até os lábios calmos e agora recuava, fluía silenciosamente para dentro e recolhia-se em algum lugar sobre o coração trincado.

– E o homem, que amara, canhestramente amara essa mulher, assim como ela a ele, este homem sentiu um anseio indescritível de possuir essa vida que escapara da morte. Não era ele o único que podia recebê-la? O herdeiro de suas flores e livros e dos vestidos macios, os quais não cessaram de cheirar ao seu corpo? Mas ele não sabia como conservar esse calor que, de maneira tão implacável, refluía de suas faces; como agarrá-lo, com o que poderia ele extrai-lo? Ele procurou a mão da morta que, aberta e vazia, estendia-se sobre o cobertor, como a casca de um fruto descaroçado. A frieza dessa mão era constante e muda, dando já por completo a sensação de uma coisa que ficou uma noite sob o orvalho e então, com um vento matinal, tornou-se rapidamente fria e seca. De repente, algo se moveu no rosto da morta. Espantado, o homem voltou-lhe o olhar. Tudo estava quieto; porém subitamente fremiu o botão de rosa que jazia sobre o olho esquerdo. E o homem viu que também a rosa sobre o olho direito tornara-se maior e crescia mais e mais. O rosto acostumou-se à morte, mas as rosas abriam-se qual olhos que olhavam para uma outra vida. E quando anoiteceu – noite desse dia silencioso –, o homem trouxe nas mãos trêmulas duas rosas grandes e vermelhas à janela. Nestas, que se balançavam por causa do peso, trazia ele a vida dela, a abundância dessa vida, que sequer ele jamais acolhera.

O forasteiro apoiou a cabeça na mão, permaneceu sentado e calou-se. Quando ele se moveu, Gita perguntou:

– Depois, ele partiu, foi-se; o que mais ele haveria de fazer? Mas ele não acreditava na morte, acreditava apenas que as pessoas não conseguem ir ao encontro uma da outra, nem os vivos nem os mortos – e é esta a sua miséria, não o fato de morrerem.

– Sim, disso eu também sei... Que não podemos ajudar em nada – disse Gita, triste. – Eu tinha um coelhinho branco que era bem mansinho e que não podia viver sem mim. E, depois, ele ficou doente, sua garganta inchou, e ele sentia dores como uma pessoa. E ele olhava para mim e pedia, pedia com seus olhos pequenos, esperava, acreditava que eu o ajudaria. Até que, por fim, ele deixou de olhar para mim e morreu no meu colo, como se estivesse sozinho, como se estivesse a centenas de milhas de mim.

– Não devemos deixar que animal algum se apegue a nós, Gita, isto é verdade. Ao fazê-lo, colocamos uma culpa sobre nós, fazemos promessas e não podemos cumpri-las. Uma mácula indelével, eis o que nos cabe desta relação. E, com as pessoas, não é diferente, só que sempre ambas tornam-se culpadas, uma perante a outra. E isto se chama amar: tornar-se culpado mutuamente. Nada mais, Gita, nada mais.

– Eu sei – disse Gita –, mas isso é muito.

Em seguida, eles caminharam juntos, de mãos dadas, pelo cemitério; e não cuidavam que as coisas pudessem ser diferentes do que eram.

E, no entanto, elas se modificaram. Agosto veio, e um dia de agosto quando as vielas da cidade estavam como em febre – graves, inquietas, sem vento. O forasteiro esperava por Gita ao portão do cemitério, pálido e sério.

– Eu tive um sonho mau, Gita – exclamou ele para ela. – Vai para casa e não voltes mais aqui até que eu avise que tu podes vir. Talvez, agora eu venha a ter muito trabalho. Adeus.

Ela, porém, lançou-se-lhe ao peito e chorou. Ele a deixou chorar o quanto quisesse e, por muito tempo, seguiu-a com os olhos, quando ela se foi. Ele não se enganara; teve início um trabalho sério. Saíam agora, diariamente, dois ou três cortejos fúnebres. Muitos burgueses os seguiam; eram funerais ricos e festivos, nos quais não faltavam incensos e cânticos. Porém, o forasteiro sabia aquilo que ainda ninguém proferira: a peste estava na cidade. Os dias tornavam-se cada vez mais abafados e causticantes sob os céus funestos, e as noites vinham, e não refrescavam. Horror e medo abateram-se sobre as mãos daqueles que exerciam um ofício e sobre os corações daqueles que amavam, paralisando-os. E nas casas, reinava um silêncio como no maior dos feriados ou no meio da noite. Entretanto, as igrejas estavam repletas de rostos transtornados. De súbito, os sinos começaram a tocar, todos, avolumavam-se, irrompiam em sons, como se animais selvagens tivessem atacado suas cordas e agora não mais as largassem – assim dobravam eles, sem fôlego.

Nestes dias medonhos, o coveiro era o único que trabalhava. Seus braços robusteceram-se em virtude das exigências maiores do trabalho, e havia nele mesmo uma certa alegria, a alegria de seu sangue, que circulava mais depressa.

Contudo, certa manhã, ao acordar de um cochilo, Gita encontrava-se parada diante dele.

– Tu estás doente?

– Não, não. – E só aos poucos ele foi compreendendo o que ela, rápida e desordenadamente, dizia.

Ela dizia que as pessoas de San Rocco estavam a caminho, contra ele. Elas queriam matá-lo, pois “tu, dizem elas, invocaste a peste. Tu fizeste montes no lado vazio do cemitério, onde não havia nada, covas, dizem elas, e tu chamaste os cadáveres com essas covas. Foge, foge!”, implorou Gita e caiu de joelhos, impetuosamente, como se se precipitasse do alto de uma torre. Na rua, via-se já uma turba escura que se avolumava e aproximava. Poeira à frente. Do murmúrio surdo da multidão, palavras isoladas já se desprendem e ameaçam. Gita levanta-se num pulo, e cai novamente de joelhos, e quer arrastar o forasteiro consigo.

Porém, ele se mantém firme, como se fosse de pedra; ele fica e ordena-lhe que entre em sua casa e espere. Ela obedece. Ela se agacha dentro de casa, atrás da porta, e o coração pulsa-lhe na garganta, nas mãos – por tudo.

Eis que vem uma pedra, de novo uma pedra; escutam-se ambas bater na sebe. Gita não suporta mais. Ela escancara a porta e corre, corre exatamente de encontro à terceira pedra, que lhe esmigalha a fronte. O forasteiro a apanha enquanto ela cai e a traz para dentro de sua pequena e escura casa. O povo urra e encontra-se já bem perto da sebe baixa, que não pode detê-lo. Mas, eis que então acontece algo inesperado, terrível. O pequeno escrivão calvo, Teófilo, pendura-se de repente em seu vizinho, o ferreiro da viela vicolo Sma Trinità; ele cambaleia e seus olhos reviram-se de uma maneira estranha. Simultaneamente, na terceira fila, um menino começa a bordejar e, atrás dele, grita uma mulher, uma grávida – grita, grita, e todos conhecem esse grito; e correm para todos os lados, ensandecidos pelo medo. O ferreiro, um homem grande e forte, treme e sacode o braço no qual o escrivão agarrou-se como se quisesse arremessá-lo de si – e sacode, e sacode...

Dentro de casa, Gita, que jaz sobre a cama, volta uma última vez a si e escuta.

– Eles se foram – diz o forasteiro, curvado sobre ela. Ela já não o pode ver, mas apalpa-lhe suavemente o rosto abaixado, a fim de saber uma vez mais como era. Para ela, é como se tivessem vivido juntos por muito tempo, o forasteiro e ela, anos e anos.

De repente, ela diz:

– Não é o tempo que conta, não é mesmo?

– Não, Gita – diz ele –, não é o tempo que conta. – E ele sabe o que ela quer dizer. Assim, ela morre.

E ele abre-lhe na terra uma sepultura ao final do caminho meão, no cascalho, puro e brilhante. A lua vem e é como se ele cavasse em prata. Ele a depõe sobre flores e a cobre com flores. “Amada”, diz ele e permanece imóvel por um momento. Mas, logo depois, como se temesse permanecer imóvel e refletir, ele começa a trabalhar. Sete caixões ainda estão por enterrar; foram trazidos para fora no decorrer do dia anterior – sem grandes cortejos, embora jaza em um caixão de carvalho especialmente largo Gian Battista Vignola, o podestade.

Tudo se modificou. Honrarias já de nada valem. Em vez de um morto com muitos vivos, agora vem sempre um vivo e, em sua carroça, ele traz três, quatro caixões. O vermelho Pipo, que fez disso o seu negócio. O forasteiro mede o quanto de espaço ele ainda tem: espaço para cerca de quinze covas. Assim, ele começa a trabalhar e, a princípio, sua pá é a única voz na noite. Até que se ouve novamente o som da morte vindo da cidade. Pois, agora ninguém mais se contém; agora não é mais nenhum segredo. Quem é assaltado pela doença ou tão-somente a teme – este grita, grita e grita até chegar ao fim. Mães temem seus filhos, ninguém mais reconhece um ao outro, como numa enorme escuridão. Alguns desesperados oferecem banquetes e jogam pela janela as prostitutas bêbadas, quando elas começam a cambalear, com medo de que a doença pudesse tê-las agarrado.

Lá fora, porém, o forasteiro segue cavando calmamente. Ele tem a sensação: enquanto for senhor daqui, destas quatro sebes, enquanto ele puder organizar e construir aqui e, ao menos exteriormente, ao menos por meio de flores e canteiros, dar a este acaso insano um sentido, conciliá-lo com a terra ao redor e lograr harmonizá-lo, o outro não terá razão; e pode vir o dia em que ele – o outro – canse, desista. Duas sepulturas já estão prontas. Mas, eis que vêm as risadas, as vozes, o ranger de uma carroça. A carroça está abarrotada de corpos. O vermelho Pipo encontrou companheiros que o auxiliassem. Eles metem as mãos cega e cobiçosamente naquela abundância, arrebatam um que parece defender-se e arremessam-no sobre a sebe no cemitério. E mais um. O forasteiro continua trabalhando calmamente. Até que lhe cai diante dos pés o corpo de uma menina: nu e ensangüentado, os cabelos desgrenhados. Aí, então, o coveiro ameaça noite adentro. Ele quer pôr-se novamente a trabalhar. Mas, os rapazes bêbados não estão dispostos a receber ordens. Repetidamente, surge o vermelho Pipo, ergue a fronte chata e joga um corpo por sobre a sebe. Empilham-se, assim, corpos ao redor do silente trabalhador. Corpos, corpos, corpos. A pá torna-se cada vez mais pesada. As mãos dos próprios mortos parecem estender-se como se buscassem defender-se. Então, o coveiro se detém. Há suor sobre sua fronte. Alguma coisa se debate em seu peito. Em seguida, ele avizinha-se da sebe e, quando Pipo ergue uma vez mais sua cabeça vermelha, ele vibra a pá com um largo golpe, sente como ela acerta e ainda vê que está preta e molhada quando a recolhe. Ele a joga longe com força e baixa a cabeça. E, assim, ele sai vagarosamente de seu jardim para a noite: um vencido. Um que veio muito cedo, cedo demais.

 
 
Notas

[1] A tradução foi feita a partir do texto original alemão. (1895) In: RILKE, Rainer Maria. Sämtliche Werke (5 Bde.). Frankfurt am Main: Insel, 1961, Band 4, p. 688 – 703.


Aluno do curso de Bacharelado em Letras da UFRGS. UFRGS, Instituto de Letras, Setor de Alemão. Avenida Bento Gonçalves, 9500, Cep: 91540-000, Porto Alegre, RS, Brasil. Tel: 55 51 3308-6696; Fax: 55 51 3308 7303. E-mail: filipe.kepler@gmail.com
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