Rilke

Vladímir, o pintor de nuvens - Rainer Maria Rilke

tradução de Filipe Kegles Kepler


 

Nota

 

 

 

Uma vez mais, eles estão completamente acabados, são supérfluos, renegados, ludibriados em todos os sentidos. Cada um começa consigo e segue, assim, desprezando para cima e para baixo.

A partir deste sentimento, fala o barão: “Não se pode mais vir a este café. Nenhum jornal, nenhum atendimento, nada”.

Os outros dois estão absolutamente de acordo.

Assim, continua-se sentado em torno da pequena mesa de mármore, que não sabe o que esses três homens querem dela. Eles querem silêncio, simplesmente silêncio. O poeta expressa-o de maneira igualmente clara quanto onomatopéica.

“Bobagem”, diz ele, após uma meia hora.

E, novamente, os outros se mostram da mesma opinião.

Continua-se a esperar, sabe-se lá Deus pelo quê.

Começa a balançar uma perna do pintor. Absorto, ele a contempla por um tempo. Por fim, compreende o movimento e começa devagar e com sentimento:

“Apatia, apatia,
Tu, meu divertimento...”

Porém, já está mais do que na hora de partir. Um atrás do outro, eles se vão, e com o colarinho levantado, pois o tempo também está assim. Dá vontade de uivar.

O que fazer? Só resta uma coisa: entre as cinco e as seis, ir à casa de Vladímir Lubóvski para um crepúsculo. Claro. Avante, portanto: Rua Park, 17. Ateliê.

*

Só se chega a Vladimir Lubóvski através de suas obras. É que ele fuma todos os seus quadros. Todo o ateliê está repleto do fumo fantástico. Podes-te dar por feliz quando consegues encontrar, no meio dessa névoa primordial, o caminho mais curto até a cama velha e gasta na qual – entra dia, sai dia – Vladímir vive.

E hoje também, como era de se esperar. Ele não se levanta e aguarda, tranqüilamente, os três “ludibriados”. Estes se sentam ao seu redor, cada um conforme seu estilo e sua preferência. Eles encontraram, em algum lugar, cigarros e uma chartreuse verde. Sem mais delongas, eles se servem, com a expressão de pessoas que se sacrificam incessantemente. Os cigarros são até finos: por Deus, o que não se faz por amor a esta vida miserável.

O poeta se recosta: “Ou não será, então, uma obra mal-feita, a vida, algo para diletantes... não?”

Vladímir Lubóvski não responde.

Os outros não se importam em esperar; é tão estranhamente agradável nesta escuridão perfumada. Não se tem de fazer nada senão permanecer quieto. Eis que repentinamente algo irrompe e começa a embalar...

“Como você faz isso, Lubóvski? Na sua casa, não cheira a aguarrás...”, diz, casualmente, o pintor; e o barão completa:

“Ao contrário. Você tem flores em algum lugar por aqui?”

Silêncio. Vladímir permanece bem atrás de suas nuvens.

Mas os três são pacientes. Eles têm tempo e chartreuse. Eles já sabem como é: aguardar, logo vem.

E eis que vem: fumaça, fumaça, fumaça e, então, palavras amáveis e vagarosas, as quais correm o mundo e admiram as coisas de longe. As nuvens as elevam. Inúmeras ascensões secretas.

Por exemplo:

Fumaça. “Isto resulta em: as pessoas sempre desviam seus olhares de Deus. Buscam-no na luz, que se torna cada vez mais fria e nítida, em cima”. Fumaça. “E Deus aguarda em outro lugar – aguarda –, na base de tudo. No fundo. Onde estão as raízes. Onde é quente e escuro”. Fumaça.

E o poeta começa a andar para cima e para baixo, de repente.

Os três pensam em Deus, que mora em algum lugar atrás das coisas, sabe-se lá onde.

E depois:

“Ter... medo?” Fumaça. “Para quê?”. Fumaça.

“Está-se sempre acima dEle. Como um fruto, sob o qual alguém segura uma bela casca. Dourada, luzindo na folhagem. E, quando o fruto está maduro, ele se desprende...”

Então, o pintor cortou a fumaça, assim, com um movimento impetuoso: “Senhorrrr Deus”, diz ele e encontra sobre a cama um homem pequeno e pálido, que possui olhos grandes e estranhos. Olhos de eterna tristeza por trás de todo brilho, tão feminilmente alegre. E mãos muito frias.

E o pintor permanece desajeitado diante daquilo. Ele já não sabe mais o que queria.

É bom que o barão entra em cena: “Você tem de pintar isso, Lubóvski”. O quê exatamente, o barão não o sabe. De qualquer forma, ele repete: “Sério, Lubóvski”. E isto soa um pouco altivo, sem que ele o quisesse.

Neste ínterim, Vladímir percorreu um longo caminho: do estarrecimento, passando por uma sombria admiração. Por fim, ele chega ao sorriso e sonha baixinho: “Ah, sim, amanhã”. Fumaça.

*

Eis que os três não têm mais espaço no ateliê. Um esbarra no outro. Todos se vão: “Até mais ver, Lubóvski.”

Já na próxima esquina, apertam as mãos com desnecessária intensidade. Eles têm pressa de desvencilhar-se uns dos outros.

Afastam-se.

Um pequeno e aconchegante café. Ninguém dentro, lâmpadas zunindo. O poeta começou, então, a escrever versos sobre um envelope de uma carta que recebera. E o escrito torna-se mais e mais rápido, cada vez menor; pois ele sente: vêm muitos, muitos.

Depois, cinco lances de escada, no ateliê do pintor, há preparativos para amanhã. Com uma canção, ele assoprou a poeira do cavalete, a antiga poeira. Surge ali uma nova tela, qual uma fronte nua. Dá vontade de coroá-la com grinaldas.

Apenas o barão ainda está a caminho. “Dez e meia, Teatro Olympia, porta lateral!”, confiou ele a um cocheiro e continuou seguindo calmamente. Tem-se ainda muito tempo para repousar e fazer a toalete. Ninguém pensa em Vladímir Lubóvski.

*

Vladímir chaveou sua porta e esperou até que escurecesse completamente. Então, ele se senta, pequeno, à beira da cama e chora na concha de suas mãos alvas e gélidas. Ela vinha-lhe fácil e silenciosamente, sem esforço e sem páthos. É a única coisa que ele ainda não revelou, a única coisa que pertence unicamente a ele. Sua solidão.

 
 
Nota

[1] A tradução foi feita a partir do texto original alemão. (1895) In: RILKE, Rainer Maria. Sämtliche Werke (5 Bde.). Frankfurt am Main: Insel, 1961, Band 4, p. 587 – 591.


Aluno do curso de Bacharelado em Letras da UFRGS. UFRGS, Instituto de Letras, Setor de Alemão. Avenida Bento Gonçalves, 9500, Cep: 91540-000, Porto Alegre, RS, Brasil. Tel: 55 51 3308-6696; Fax: 55 51 3308 7303. E-mail: filipe.kepler@gmail.com
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