Rilke

A caixa dourada - Rainer Maria Rilke

tradução de Filipe Kegles Kepler


 

Nota

 

 

 

Era primavera. Feliz, o sol sorria do céu límpido e de um azul profundo, porém raramente seus raios se perdiam até o mezanino daquela casa na viela estreita. Quando, por vezes, um brilho de luz transpassava, cintilante, os pequenos vidros da janela e lançava deslizantes círculos sobre a parede caiada posterior do modesto quarto, ele já vinha decerto de segunda mão: fora refletido de alguma janela do prédio alto que ficava em frente. Tanto mais se alegrava o pequenino que brincava dia após dia, junto à janela do mezanino, com o alegre correr das manchas claras e trêmulas na parede, pulando para o alto e tentando agarrá-las, e rindo com toda alma, de tal modo, que um reflexo desse riso esgueirava-se mesmo para o rosto triste de sua mãezinha.

Há pouco menos de um ano, ela ficara viúva. Com a morte do amado marido, veio abaixo também a módica prosperidade que este estabelecera mediante seu trabalho. Ela teve de trocar o espaçoso apartamento por este quarto e, pelos próprios esforços, aumentar os poucos trocados poupados anteriormente, a fim de não se privar – e sobretudo ao filho, o pequeno Willy, de cinco anos – daquilo que era mais necessário. Não é de admirar se essa criança fosse agora todo seu consolo!

No entanto, hoje não era o jogo do sol, do qual ele se ocupava tanto que até não prestava atenção ao seu cavalinho, jogado sobre o peitoril da janela. Hoje ocorria algo incomum lá fora. No prédio do outro lado, esvaziara-se, há pouco, um andar. Um comerciante de tecidos transferira sua loja para uma outra rua; desde então, lá limpavam, esfregavam e, para grande deleite do menino, as tábuas que deviam cobrir à noite e aos domingos as duas vitrines foram primeiro aplainadas, depois, pintadas com cor de amarelo sujo e, por fim, com uma bela cor preta. Se, antes, isso já havia despertado o interesse de Willy, então hoje seu contentamento já não conhecia limites, quando atrás das brilhantes vidraças lá do outro lado surgiram caixinhas e caixas – todas com seis cantos, não muito altas e ora mais compridas, ora mais curtas. E agora, quando os homens levantaram para dentro de uma das vitrines uma caixa pequena e toda coberta de ouro, sobre a qual se ajoelhavam dois lindos, magníficos anjos – ele, então, não pôde deixar de bater palmas.

– Mãe, mãe, olha lá, olha! O que é aquilo? Aquela caixinha bonita e pequena, com dois anjinhos em cima?

Não, até uma lágrima surgiu-lhe no canto das pálpebras.

– O que é aquilo? – repetiu a criança medrosamente, a voz acanhada.

– Sabes, Willy – disse a mãe, séria, passando o lenço levemente sobre os olhos –, lá dentro, naquelas arcas, as pessoas colocam aquelas que Deus, nosso Senhor, leva da Terra novamente para junto de Si: adultos e crianças.

– Lá dentro? – sussurrou o menino, enquanto seu olhar repousava, ainda com agrado, sobre a vitrine.

– Mas – interrompeu-a o pequeno, cujos pensamentos ainda se demoravam na primeira explicação –, por que o Senhor Deus leva também as crianças? Elas devem ser muito obedientes, se elas já podem entrar tão rápido nessas caixas bonitas e, depois, virar anjinhos no céu. Não é mesmo?

A mãe abraçou o filho afetuosamente.

Ela ajoelhou-se e, com um longo beijo, selou os lábios jovens. O pequenino não perguntou mais. Voltou-se rapidamente para a janela e olhou para as grandes vidraças da vitrine. Um sorriso alegre e satisfeito reluzia em seu rostinho.

A mãe, no entanto, encontrava-se novamente sentada, curvada sobre seu trabalho. De súbito, porém, ela levantou os olhos.

Lágrimas escorriam sobre suas faces descoradas.

Ela deixou o tecido cair, cruzou as mãos e disse baixinho, com a voz embargada:

– Senhor Deus, conserva-o comigo!

*

Uma noite de setembro escura e sem estrelas. Fazia silêncio nos quartos do mezanino. Ouvia-se somente o tiquetaquear do relógio de parede e os gemidos da criança, que, sacudida pela febre, contorcia-se na caminha. A mãe curvou-se sobre o pobre Willy. O brilho avermelhado da mortiça lamparina deslizava sobre o rosto fatigado da viúva.

– Willy! Meu filho, meu coração, queres alguma coisa? – Somente sons desconexos, incompreensíveis. – Sentes dor? – Nenhuma resposta.

Vesti-me depressa, pedi dispensa do trabalho por algumas horas e corri para a casa da minha noiva. Encontrei o portão fechado e, quando ninguém apareceu para atender a campainha, que eu tocava repetidamente, pensei que eles tivessem saído. O caseiro poderia decerto estar ocupado no pátio, onde não a ouviria tocar. Resolvi voltar à tarde, no horário habitual.

– Deus, meu Deus, como pôde acontecer uma coisa dessas!? – Tudo corria depressa e confusamente pela memória da atormentada mulher. “Sim, aquela noite. Depois do jogo. Mal faz uma semana. Como ele estava quente – ‘e a neblina do outono’, diz o doutor. E agora, agora... ele não dá mais esperanças. Se a mãe natureza não...” Ela não conseguia compreender. “Ele não chamou?”

Então, novamente, bem baixinho:

– Mãe!

– O que foi, meu filho?

– Foi... foi bonito – balbuciou o menino, enquanto se endireitava com dificuldade, apoiando o rostinho vermelho de febre sobre o braço da mãe.

– O Papai do Céu me disse que eu tenho que ir até Ele. Eu posso, não é, mamãe? Deixa... por favor – e cruzou as mãozinhas quentes.

Em seguida, ele foi acometido novamente pela febre. Deitou-se. A pobre mãe estendeu cuidadosamente o cobertor sobre ele. Então, subjugada pela dor, caiu lentamente de joelhos e, ambas as mãos agarradas com força à beira da caminha de ferro, orou baixinho... confusa, desordenadamente.

O relógio bateu oito vezes. Pela janela, entrava esparsamente a luz pálida do dia outonal. As tábuas do soalho pareciam cinzentas e os objetos lançavam sombras graves, negras. A mulher ergueu-se de cima dos joelhos, sentou-se novamente ao lado da caminha e, com os olhos ardentes, sem lágrimas, ficou a fitar o vazio. O pequenino dormia agora um pouco mais tranqüilo. Sua respiração, porém, era rápida, a fronte estava quente e as faces, avermelhadas. A mãe pousou silenciosamente a mão sobre os cachos louros e desgrenhados e permaneceu sentada, imóvel. Somente quando vozes muito altas ressoavam na escada ou uma porta da casa batia bruscamente – aí então, ela se sobressaltava.

– Papai, papai! – gritou o menino de súbito e jogou-se para o outro lado. A viúva apavorou-se. Willy, porém, jazia novamente tranqüilo. Na rua, uma carruagem passou por perto. O rangido foi-se perdendo pouco a pouco. O ramalhar das vassouras soou sobre a calçada.

– Senhor Deus, Senhor Deus, por favor! – gemeu o pequenino. – Eu... eu... fui bonzinho... Podes perguntar para minha mãe!

A mãe, tremendo, cruzou as mãos. Em seguida, Willy abriu os olhos lentamente. Admirado, olhou ao redor.

– Eu estava no céu, mãe – sussurrou a criança –, no céu... Mas tu vais... não é... – disse a criança, animada – tu também vais me colocar na caixa de ouro bonita, mamãe, sabes, aquela lá do outro lado da rua.

Ele sorriu feliz:

– Naquela, com os dois anjinhos em cima

A mãe soluçava alto.

– Naquela, me promete... – Tomada de terrível pavor, a viúva segurou as duas mãozinhas de seu amado filho.

– Deus, Deus! – rogava ela. Mais do que isso não conseguia dizer. Então, ela sentiu como um arrepio frio passou pelas mãos da criança – um tremor. Ela soltou um grito.

Todo rubor desaparecera das faces da criança. Os lábios ainda se mexiam. Depois – nenhum movimento.

Ela tinha os olhos cravados no corpinho.

Um frio glacial parecia emanar dali.

Ela abraçou os pequenos membros e apertou-os contra si. Em vão!

Somente o sorriso permaneceu nos lábios imóveis do pequeno corpo – aquele sorriso feliz!

...E o sol sem cor de outono cintilava do outro lado sobre os caixões e também sobre o pequeno e belo caixão de ouro. A ampla vidraça refletia os raios no quarto do mezanino, e o brilho descorado deslizava receosamente sobre o rostinho pálido do pobre Willy, perdendo-se pouco a pouco na superfície branca da parede...

 
 
Nota

[1] A tradução foi feita a partir do texto original alemão. (1895) In: RILKE, Rainer Maria. Sämtliche Werke (5 Bde.). Frankfurt am Main: Insel, 1961, Band 4, p. 426 – 432.



Aluno do curso de Bacharelado em Letras da UFRGS. UFRGS, Instituto de Letras, Setor de Alemão. Avenida Bento Gonçalves, 9500, Cep: 91540-000, Porto Alegre, RS, Brasil. Tel: 55 51 3308-6696; Fax: 55 51 3308 7303. E-mail: filipe.kepler@gmail.com
Curriculo Lattes


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