Rilke

A Costureira - Rainer Maria Rilke

tradução de Filipe Kegles Kepler

 

Nota

 

 

 

 

 

...Foi em abril do ano de 188... Eu fora forçado a trocar de apartamento. Meu senhorio vendera a casa, e o novo proprietário estava decidido a alugar o andar inteiro no qual se encontrava meu modesto quarto. Por muito tempo, procurei sem êxito por outro. Por fim, cansado da procura, escolhi, praticamente sem olhar, um quartinho no terceiro andar de um edifício cujo lado longitudinal abrangia uma parte considerável da estreita viela.

Meu quarto pareceu-me, logo nos primeiros dias, bastante aconchegante. Através das duas pequenas janelas, cujas vidraças multiplamente dividas permitiam adivinhar a idade da casa, eu mirava, para além de telhados cinzas e vermelhos e de fuliginosas chaminés, as montanhas azuis; podia contemplar o sol nascente que, como uma bola ardente, apoiava-se sobre o cume esfumado da colina. Meus móveis, que mandara trazer, tornavam o espaço apertado mais agradável do que eu a princípio esperava, e os serviços que a governanta prestara não deixavam nada a desejar. A escada não era muito íngreme e podia ser subida sem esforço – com efeito, quando eu a subia imerso em pensamentos, sentia-me mesmo induzido a escalar até o sótão. Em suma, eu estava satisfeito, ainda mais porque, no pátio escuro, nem crianças brincavam, nem realejos tocavam.

Anos se passaram desde então. O tempo de que falo jaz, para mim, no crepúsculo do passado e as cores garridas dos acontecimentos estão desbotadas e borradas. Para mim, é como se eu falasse de um acontecimento que tivesse acontecido não a mim, mas sim a um outro, um bom amigo talvez. Por essa razão, não devo temer que o amor-próprio me induza a mentir: escrevo clara e abertamente, de acordo com a verdade.

Naquela época, eu não permanecia muito em casa. Cedo, às sete e meia, eu ia à repartição, almoçava, ao meio-dia, em um restaurante barato e passava, sempre que possível, a tarde na casa da minha noiva. Sim, eu estava noivo naquela época. Hedwig – assim hei de chamá-la – era jovem, amável, instruída e, o que tinha mais importância aos olhos de meus companheiros, era rica. Ela descendia de uma antiga família de comerciantes que, por meio da parcimônia e da dedicação, conseguiram por fim gerenciar uma casa a qual também visitavam os jovens cavalheiros, pois lá reinava, com toda distinção, uma desembaraçada jovialidade, que não deixava o tédio sair das xícaras de chá. A filha caçula da casa, Hedwig, era, aliás, querida por todos, porque aliava, a sua erudição, uma certa leveza adorável, que tornava interessante e encantadora a mais casual das conversas. Ela possuía mais coração e ânimo do que ambas as irmãs mais velhas, era sincera, alegre e... – sem dúvida, eu a amava.

Eu posso falar abertamente. Mais tarde, um ano após o rompimento do noivado, ela casou-se com um jovem e nobre oficial, porém morreu, após presenteá-lo com a primeira filha, uma menininha de cachinhos dourados.

Na casa de seus pais, onde se reunia diariamente um círculo considerável de pessoas, eu permanecia normalmente até as seis horas da tarde, dava então meu passeio, ia ao teatro e voltava por volta das dez horas para casa, a fim de prosseguir com a mesma rotina no dia seguinte.

Cedo pela manhã, quando descia vagarosamente meus três lances de escada, encontrava-me no vestíbulo do primeiro andar sempre com o caseiro, que limpava os azulejos brancos. Ele cumprimentava e entabulava conversa. Todo o dia a mesma. Primeiro, do tempo, depois, se eu estava satisfeito com o apartamento, e assim por diante. Como a ladainha do velho não parecia ter fim, eu sempre lhe perguntava pelos filhos – ele então suspirava e prorrompia, com os dentes cerrados: “É uma cruz! Eles nos deixam preocupados, senhor!” E, com isso, tudo terminava. Certa vez, numa terça-feira, perguntei, apenas para dizer alguma coisa, quem morava ao meu lado. A pergunta foi respondida justamente como fora formulada, assim, casualmente. “Uma costureira, uma pobrezinha, feinha...”, resmungava ele, sem tirar os olhos do chão. Isso foi tudo.

Eu havia há muito me esquecido desta informação ao encontrá-la – a costureira, como eu então presumi com acerto – no corredor escuro da casa. Era uma manhã de domingo. Eu dormira um pouco mais e estava recém saindo, enquanto ela, um livrinho na mão, voltava provavelmente da igreja. Uma figura miserável: entre os ombros pontiagudos, cobertos por um capote puído, verde, que se estendia quase até o chão, balançava-se a cabeça, na qual sobressaíam-se primeiramente o nariz longo e magro e as faces encovadas. Os lábios magros, levemente abertos, revelavam dentes sujos; o queixo era angulado e projetava-se para frente. Neste rosto, somente os olhos pareciam dignos de nota: não que fossem belos, mas eram grandes e muito pretos, ainda que sem brilho. Tão pretos que seus cabelos escuros quase pareciam grisalhos. Só sei que a impressão que essa criatura causou em mim não foi nada agradável. Acredito que ela não olhou para mim. No entanto, eu não tinha tempo para refletir sobre esse encontro fortuito, porquanto deparei-me, perto do portão, com um amigo em cuja companhia passara toda a manhã. Depois, eu esqueci por completo que tinha uma vizinha, até porque, apesar de morarmos porta a porta, esta permanecia dia e noite no mais absoluto silêncio. Tudo provavelmente continuaria assim, não tivesse acontecido certa noite, por acidente – ou como devo chamá-lo? –, algo inesperado, nunca imaginado.

Na casa da minha noiva, ofereceu-se, nos últimos dias de abril, um sarau, que, longamente discutido e preparado, transcorria maravilhosamente bem, estendendo-se até tarde da noite. Pois, justo nesta noite, Hedwig me pareceu encantadora. Conversei longamente com ela na pequena sala verde e ouvi com alegria como ela, um tanto irônica, mas com uma profunda ingenuidade infantil, delineava o quadro do nosso futuro lar; como pintava todas as pequenas alegrias e dores com as mais garridas cores, alegrando-se com a nossa futura felicidade, como uma criança com a árvore de natal. Um agradável sentimento de satisfação iluminou-me o peito, como uma benfazeja onda de calor, e Hedwig confessou-me, também, naquela vez, que jamais me tinha visto tão alegre. Por sinal, a mesma atmosfera dominava todo o grupo: era um brinde após do outro, tanto que eram já três horas da manhã quando, a contragosto, nos despedimos. Lá embaixo, carros e mais carros paravam à porta da casa. Os poucos transeuntes dispersaram-se rapidamente para todos os lados. Eu tinha mais de meia hora de caminhada pela frente, portanto acelerei meus passos, ainda mais porque a noite de abril estava fria e sombria em razão da neblina. Envolto em meus pensamentos, não me pareceu ter demorado tanto assim, quando já me encontrava em frente à porta de casa. Lentamente, destranquei o portão e fechei-o com cuidado, após entrar. Acendi, então, um fósforo, que haveria de iluminar-me o caminho pelo vestíbulo até a escada. Aliás, era o último que eu tinha. Apagou-se logo. Tateei até a escada, pensando ainda nas maravilhosas horas da noite passada. Agora eu estava no andar de cima. Coloquei a chave na fechadura, girei uma vez, abri lentamente...

Lá estava ela diante de mim. Uma vela débil, quase toda derretida, alumiava de maneira escassa o aposento, do qual emanava um desagradável eflúvio de suor e gordura. Ela estava de pé, à beira da cama, vestindo uma camisola suja e aberta e uma saia de baixo escura; não parecia nem um pouco surpresa e tinha os olhos cravados em mim.

Aparentemente, eu acabara entrando no quarto dela por engano. Porém, estava tão perturbado, como que pregado ao chão, que não disse sequer uma palavra de desculpa, mas também não fui embora; sabia que me enojava, mas fiquei. Vi como ela caminhou até a mesa, empurrou para o lado o prato com as sobras de uma refeição duvidosa, tirou da poltrona as roupas que despira e convidou-me a sentar. Com uma voz baixa, dizia: “Venha”.

O próprio som daquela voz era-me repugnante. Porém, como que movido por uma força desconhecida, eu obedeci. Ela falou. Não sei sobre o quê. Todo esse tempo, ela esteve sentada na beira da cama. Completamente no escuro. Eu via apenas o contorno ovalar, pálido daquele rosto e, aqui e ali, quando a luz mortiça da vela bruxuleava, os olhos grandes. Então, eu me levantei. Queria ir embora. A maçaneta ofereceu resistência. Ela veio em meu auxílio. Neste instante, ela escorregou perto de mim, e eu tive de segurá-la. Ela aconchegou-se a meu peito, e pude sentir-lhe bem de perto o hálito ardente. Era-me desagradável. Queria desvencilhar-me. Contudo, seus olhos descansavam tão fixamente nos meus, como se tecessem estes olhares um fio invisível ao meu redor. Ela puxava-me cada vez mais para perto de si, cada vez mais. Imprimia quentes e longos beijos sobre meus lábios... E então a vela apagou-se.

Na manhã seguinte, acordei-me com a cabeça pesada, dores nas costas e um gosto amargo na boca. Ao meu lado, ela dormia sobre os travesseiros da cama. O rosto pálido e encovado, o pescoço magro, aquele busto exposto, reto, metia-me medo. Levantei-me vagarosamente. O ar bafiento pesava sobre mim. Olhei ao redor: a mesa suja, a poltrona gasta de pernas finas, a flor morta sobre o peitoril da janela – tudo dava a impressão de miséria, definhamento. Neste momento, ela se mexeu; pousou, como se sonhasse, a mão sobre meu ombro. Eu observei essa mão: os dedos longos e de juntas grossas, com as unhas sujas, curtas e largas, a pele, nas pontas, marrom e cheia de picadas... Uma sensação de repulsa por essa criatura tomou conta de mim. Levantei-me num salto, escancarei a porta e corri para o meu quarto. Senti-me melhor lá. Eu ainda sei que fechei o trinco da minha porta – até onde foi possível.

*

Os dias transcorriam normalmente, como se nada tivesse acontecido. Certa vez, talvez uma semana depois, quando já me tinha deitado, bati acidentalmente com o cotovelo na parede. Eu ouvi que essa batida involuntária obteve imediatamente uma resposta. Permaneci imóvel. Depois, adormeci. Na modorra, pareceu-me que alguém tivesse aberto a minha porta. Em seguida, senti um corpo que se aconchegava a mim. Ela estava comigo. Passou a noite em meus braços. Repetidas vezes quis mandá-la embora; mas ela me olhava com seus olhos grandes, e a palavra, já nos lábios, sucumbia. Oh, era abominável sentir os membros quentes dessa criatura ao meu lado, dessa moça feia, precocemente envelhecida! E, no entanto, eu não tive forças para...

Às vezes, eu a encontrava na escada. Ela passava por mim como da primeira vez: não nos conhecíamos. Ela vinha até mim com freqüência. Silenciosamente, sem pronunciar palavra, entrava e mantinha-me preso pelo olhar – eu não tinha forças para reagir.

Por fim, decidi que aquilo tinha de terminar. Era um ultraje à minha noiva dividir a cama com esta mulher, que, com tamanho atrevimento, aconchegava-se a mim e, no entanto, sequer possuía o direito do amor!

Voltei mais cedo para casa e tranquei imediatamente minhas portas. Por volta das nove horas da noite, ela veio. Ao encontrar a porta fechada, foi-se embora – deve ter pensado que eu não estivesse em casa. No entanto, eu fui descuidado: empurrei a pesada poltrona para trás de maneira um tanto brusca. Ela deve ter ouvido. Logo em seguida, bateram na parede. Permaneci imóvel. Mais uma vez. Depois, impacientemente, sem cessar. Agora, eu podia ouvi-la soluçar – longamente, longamente... Ela deve ter passado metade da noite à minha porta. Porém, eu me mantive firme; senti que essa perseverança quebrara o feitiço.

No dia seguinte, encontrei-a na escada. Ela caminhava bem devagar. Quando já estava bastante próximo dela, ela abriu os olhos. Fiquei apavorado: havia naqueles olhos um lampejo sinistro e ameaçador... Ri-me de mim mesmo; eu era mesmo um tolo! Aquela moça! E a acompanhei com os olhos, como pousava desajeitadamente os pés sobre os degraus de pedra e mancava ao descer...

À tarde, meu chefe requisitou minha presença, de modo que não pude fazer a costumeira visita a Hedwig. À noite, quando cheguei ao meu quarto, encontrei uma carta do pai da minha noiva que me causou o maior espanto. Esta dizia:

“...Sob as presentes circunstâncias, o senhor há de compreender que, para minha maior tristeza, vejo-me obrigado a romper o noivado com a minha filha. Eu acreditei confiar Hedwig a um homem que não estivesse preso a nenhum outro comprometimento. É dever de um pai poupar, sempre que possível, sua filha de experiências dessa sorte. O senhor entenderá meu proceder, prezado Senhor de B..., assim como também estou convencido de que o senhor certamente me teria informado a tempo da situação. Meus mais sinceros votos de estima e consideração, cordialmente...”

É difícil descrever como me senti. Eu amava Hedwig. Já me via como parte do futuro que ela mesma esboçara com tamanho entusiasmo. Não podia imaginar meu destino sem ela. Sei que primeiro uma dor intensa tomou conta de mim, uma dor que me trouxe lágrimas aos olhos, antes mesmo que eu tivesse tempo para pensar a que motivo devia essa estranha recusa. Pois, estranha, ela o era definitivamente. Eu conhecia o pai de Hedwig, que era a diligência e justiça em pessoa, e sabia que somente um acontecimento importante poderia levá-lo a agir dessa forma. Pois, ele me respeitava e era comedido demais para cometer qualquer injustiça contra mim. Não dormi a noite inteira. Milhares de pensamentos passavam pela minha cabeça. Finalmente, pela manhã, adormeci de cansaço. Ao acordar, percebi que esquecera de chavear a porta. No entanto, ela não estivera comigo. Respirei aliviado.

Vesti-me depressa, pedi dispensa do trabalho por algumas horas e corri para a casa da minha noiva. Encontrei o portão fechado e, quando ninguém apareceu para atender a campainha, que eu tocava repetidamente, pensei que eles tivessem saído. O caseiro poderia decerto estar ocupado no pátio, onde não a ouviria tocar. Resolvi voltar à tarde, no horário habitual.

Assim o fiz. O caseiro abriu, arregalou os olhos e disse que eu deveria saber que os senhores tinham viajado. Fiquei apavorado, mas agi como se estivesse informado de tudo e pedi apenas para falar com Franz, o velho criado. Este me contou detalhadamente que todos – todos – tinham viajado, após a curiosa cena que sucedera ontem à tarde.

– Eu estava parado – assim contava ele – aqui, no vestíbulo, limpando os faqueiros, quando uma mulherzinha degenerada e miserável entrou e solicitou-me que a levasse até a senhorita Hedwig. Naturalmente, eu não cedi, nós temos que conhecer as pessoas primeiro... – Assenti sofregamente com a cabeça. Ocorreu-me um pensamento... – Pois bem – continuou o velho linguarudo –, em poucas palavras: por causa da minha recusa, ela começou a fazer uma gritaria e uma choradeira, até que o senhor saiu. Ela, então, passou a pedir a ele, jurando que trazia notícias importantes. Ele a levou ao seu gabinete. Ela permaneceu lá dentro por uma hora. Uma hora, meu senhor! Depois, ela saiu, beijou a mão do senhor...

– Como ela era? – interrompi-o.

– Pálida, magra, feia.

– Alta?

– Bem alta.

– Olhos?

– Pretos; os cabelos, também. – O velho continuou a tagarelar. Eu sabia o suficiente. Todas as terríveis palavras da carta tornavam-se claras para mim: comprometimento! Um rancor amargo tomou conta de mim. Deixei o criado falando sozinho e precipitei-me porta afora. Corri pelas ruas até a minha casa. Diante do portão, encontravam-se reunidas algumas pessoas. Homens e mulheres. Falavam em voz baixa e com ardor. Empurrei-as rudemente. Depois, três lances de escada sem tomar fôlego. Eu só precisava ir até ela, dizer-lhe... Eu não sabia o que diria, mas sentia que o momento certo me conferiria as palavras certas...

Encontrei homens também na escada. Não prestei atenção a eles. Em cima. Escancarei a porta. Um forte cheiro de fenol veio ao meu encontro. Uma palavra dura morreu nos meus lábios: lá jazia ela sobre o linho cinza da cama, somente de camisola. A cabeça voltada para trás, os olhos fechados. As mãos pendiam, lassas. Cheguei mais perto. Não ousei tocá-la. Com os lábios abertos e as pálpebras escurecidas, ela dava a perfeita impressão de uma afogada. Arrepiei-me. Eu estava sozinho no quarto. O sol poente, frio, iluminava a mesa suja, a beira da cama... Curvei-me sobre a mulher. Sim, estava morta. A cor do rosto era azulada. Um mau cheiro emanava dela. E o nojo agarrou-me, uma repulsa...

 
 
Nota

[1] A tradução foi feita a partir do texto original alemão. (1894) In: RILKE, Rainer Maria. Sämtliche Werke (5 Bde.). Frankfurt am Main: Insel, 1961, Band 4, p. 414 – 426.


Aluno do curso de Bacharelado em Letras da UFRGS. UFRGS, Instituto de Letras, Setor de Alemão. Avenida Bento Gonçalves, 9500, Cep: 91540-000, Porto Alegre, RS, Brasil. Tel: 55 51 3308-6696; Fax: 55 51 3308 7303. E-mail: filipe.kepler@gmail.com
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