Damulakis

Contribuições da Fonologia para a aula de alemão: revendo conceitos

Gean Nunes Damulakis



1 Introdução
2 A escrita e as dicas de pronúncia
3 Algumas diferenças entre Fonética e Fonologia
4 Discutindo as asserções
5 Discutindo as asserções
Notas

ABSTRACT

Many teachers of German as a second language make some statements regarding this language that mix concepts from three distinct fields: Orthography (letters), Phonetics (phones or speech sounds) and Phonology (phonemes). In this paper I attempt to shed some light on these concepts and fields. I also provide examples of such statements and make comments on them.

Keywords:German; fonology; fonetics


1 Introdução

As reflexões aqui apresentadas estão apoiadas nas experiências do autor como estudante na graduação de Letras (Português-Alemão), como professor de Alemão, além de como estudante de doutorado em Lingüística. Elas procuram dar contribuições, sobretudo no âmbito conceitual, da fonologia – e menos diretamente da fonética – à aula de Alemão como Língua Estrangeira. Para tanto, são analisadas algumas afirmações normalmente feitas por professores e aprendizes de alemão. Procuramos mostrar que conceitos referentes à escrita (letras), fonética (fones) e fonologia (fonemas), embora relacionáveis, costumam ser mesclados de tal forma que surgem equívocos.

2 A escrita e as dicas de pronúncia

Tradicionalmente, nosso ensino costuma misturar conceitos diferentes referentes à língua em pelo menos três áreas: ortografia, fonética e fonologia. Evidentemente, essas áreas são inter-relacionáveis, entrecruzando-se em vários momentos na língua; contudo, para nós, professores de língua estrangeira, esses conceitos, embora não tenhamos a obrigação de evidenciá-los para nossos alunos, devem estar bem claros, uma vez que constituem estâncias distintas.

Existem algumas asserções sobre o alemão que fazem parte de nossa prática docente que herdamos de nossa época como alunos. Essas asserções acabam por se perpetuar em nossa área e, muito embora elas não cheguem a constituir a priori um empecilho para o nosso trabalho, muitas vezes constituem equívocos conceituais. Lembremos que essas afirmações são, muitas vezes, eficazes, pois conseguem cumprir objetivo a que se propõem: a pronúncia correta do alemão padrão. Porém, insisto: é sempre possível mostrar fórmulas simples, mantendo a rigidez teórica. Essas asserções mesclam, sobretudo, os conceitos de letras ou grafemas (do âmbito da ortografia), sons da fala (do âmbito da fonética) e de fonemas (do âmbito da fonologia). Enumeramos em (1) algumas delas freqüentemente ouvidas em nossa vida acadêmica:

    (1) Algumas asserções sobre a língua alemã

    1) O (dígrafo) ch pode representar dois ‘fonemas’;

    2) O t nunca ‘vira’ t ;

    3) As consoantes b, d e g ‘tornam-se’ p, t e k, respectivamente, em final de palavra.

    4) No alemão não existe vogal nasalizada.

As quatro afirmações acima podem ajudar até certo ponto e dizem muito, intuitivamente, sobre a língua. Elas podem ser consideradas como dicas que poderiam compor uma chave de pronúncia do alemão escrito, mas trazem alguns equívocos sobre o sistema fonológico da língua alemã. Foneticamente, também dizem muito pouco, uma vez que esse tipo de afirmação privilegia a escrita.

Para clarificar: a escrita é sempre auxiliar em toda e qualquer língua, mesmo em uma língua como o alemão, conhecida por ser a língua de poetas e pensadores, que utilizaram sobremaneira a escrita. Nesse caso, convém lembrar a importância da literatura oral (sobretudo para comunidades ágrafas, mas não só). Entretanto, o objetivo deste artigo não é obviamente negar a importância da escrita para a humanidade; só queremos lembrar que a fala tem primazia em relação à escrita, até porque partimos da premissa de que a língua falada é um fato biológico para os seres humanos, ao passo que a escrita é um fato cultural, dependente, portanto, da sociedade.

O grande peso atribuído à escrita é inegável, mais especificamente em nossa atividade, uma vez que nosso público alvo é, de forma geral, alfabetizado. Entretanto, costumamos dar importância ainda maior à escrita, apoiados no consenso de que não “só se sabe uma língua, quando se sabe a escrita da língua”. Por outro lado, nossos alunos estão muito acostumados com a equação língua = escrita, equação essa muito cara no ambiente escolar. “Wie schreibt man das?” é uma pergunta muito freqüente, quando lhes apresentamos, oralmente, uma palavra que eles desconhecem. Além do mais, dependendo do grupo e de seu objetivo, podemos ter a desculpa de que a escrita é um instrumento muito mais útil, se pensarmos, por exemplo, no meio acadêmico. Por isso, costuma-se dar nas aulas de alemão, de modo geral, mais importância à escrita do que à fala.

Embora não o faça de maneira plenamente satisfatória, a escrita tenta reproduzir a língua falada. Para isso conta com um sistema convencional de regras, de quando em quando modificado, muitas vezes através de lei: a ortografia. Existem vários elementos da oralidade que não podem ser transpostos para a escrita, nem é mesmo esse o objetivo desta. Podemos pensar, por exemplo, nos efeitos discursivos decorrentes da mudança de tom, [2] muitos dos quais não encontram amparo no sistema ortográfico.

Obviamente, o ensino pode estar orientado para a escrita a depender dos objetivos de quem quer aprender a língua. Um aprendiz que queira ter acesso a textos originais, seja porque ainda não estejam traduzidos, seja simplesmente por serem originais, por exemplo, não precisa necessariamente falar a língua, mas apenas decodificar textos escritos na língua. Para esse aprendiz, as dicas de pronúncia são dispensáveis.

Gostaria de deixar claro neste artigo que aquilo a que chamo de “dicas de pronúncia”, muitas vezes citadas pelos professores, envolvem muitas vezes problemas conceituais para os quais os profissionais que ensinam devem estar atentos. Mais adiante, elas serão analisadas uma a uma. Após essas considerações sobre a escrita, passemos a esclarecer o que ela não é: sistemas fonético e fonológico da língua.

3 Algumas diferenças entre Fonética e Fonologia

Nos estudos em lingüística, sobretudo a partir do final da década de 1920, tem sido comum a divisão do sistema sonoro da língua em duas esferas: uma esfera física, articulatória, auditiva, e uma esfera mais sistêmica, funcional e abstrata[3] . A primeira se dedica ao estudo da produção, propagação e percepção dos sons; a segunda se dedica a forma pela qual os sons funcionam, se distinguem e podem ser representados mentalmente.[4] À primeira chamamos de fonética (Phonetik, Lautlehre); à segunda, fonologia (Phonologie).

Como exemplo prático, podemos citar o caso dos sons [ç] e [x],[5] ambos representados na escrita pelo dígrafo ch. Esses sons são produzidos de maneira diferente (fonética), mas devem ser vistos como o mesmo fonema (fonologia). Nesse caso, são realizações distintas de uma mesma entidade mental. Trocando em miúdos, poderíamos dizer que um falante nativo de alemão tem uma única representação mental para a qual ele produz diferentes sons, a partir de condicionamentos contextuais. É o que se chama, numa visão estruturalista, de distribuição complementar, ou seja, onde um som aparece, o outro não ocorre e vice-versa. Obviamente não se pode negar, neste caso, a força da comodidade articulatória, uma vez que o [x], o Ach-Laut, que é dorsal, ou seja, é produzido com o levantamento do dorso da língua, surge diante de vogais também dorsais, produzidas com a elevação da mesma parte da língua. Já o [ç], o Ich-Laut, é coronal, produzido com o levantamento da lâmina da língua, ou coroa (daí, coronal), surge diante de vogais coronais, produzidas com o mesmo levantamento.

Podemos citar, como exemplo da distribuição acima, a palavra Buch [bu:x]. No Alemão, a metafonia (Umlaut) é um fenômeno muito freqüente, sobretudo na flexão. A metafonia faz com que as vogais dorsais se tornem coronais, em geral com a mesma altura das vogais originais. Em termos fonéticos, as vogais posteriores se tornam anteriores, mantendo a mesma altura da língua.[6] É o que ocorre com Buch ‘livro’ > Bücher[7] ‘livros’. A vogal que antecede o fonema /x/[8] é alta dorsal arredondada e, com a metafonia, passa a ser alta acoronal arredondada (cf. em (2)).

    (2) Distribuição complementar entre [x] e [ç].

    Buch [bux] ‘livro’

    x - Fricativa dorsal

    u- Vogal dorsal

    Bücher [byç] ‘livros’

    ç - Fricativa coronal

    y- Vogal Coronal

O caso de distribuição complementar acima, tão comum no alemão, mostra o seguinte: o mesmo fonema (entidade fonológica) possui duas possibilidades de realização fonética, dependendo do contexto em que o fonema surge.

4 Discutindo as asserções

Tendo discutido esses conceitos, tentemos verificar os problemas encontrados nas afirmações 1), 2), 3) e 4), estampadas na seção 1. Revejamo-las:

1) O (dígrafo) ch pode representar dois ‘fonemas’.

De fato o ch é um dígrafo, conceito do âmbito da ortografia, mas ele representa apenas um fonema na língua alemã: /x/. Esse fonema é que pode ter duas realizações fonéticas (ou dois fones ou sons, [x] ou [ç]), dependendo do contexto em que ele aparece, como exemplificado na seção 3, acima.[9]

2) O t nunca ‘vira’ t.

Esse tipo de dica mostra a preocupação com a realização de um fonema /t/ como [t], muito comum a falantes do português brasileiro de algumas regiões do país. O problema de uma afirmação como essa é que não nos diz o que é o t e o que é o t. Se a referência é feita à letra , então a afirmação evidencia o equívoco de dizer que uma letra vira um som. No caso do português do Brasil, o que se tem é a realização de um fonema /t/, ora como [t], ora como [t], dependendo do contexto, ou seja, é um caso de distribuição complementar, a exemplo do que ocorre com o fonema [x], do alemão, como visto acima.

Em sendo uma dica de pronúncia, poderíamos dizer que a letra , no alemão, sempre representa graficamente um som [t] (ou como [t(h)], com aspiração), nunca um , a exemplo do que pode acontecer com o < t > da palavra ‘tia’, como no Rio de Janeiro e em outras regiões do Brasil.

3) As consoantes b, d e g ‘tornam-se’ p, t e k, respectivamente, em final de palavra.

Em sendo puramente uma dica de pronúncia, poderíamos dizer que, no alemão, essas três primeiras letras, representam, em início de sílaba, os mesmos valores fonéticos que apresentam no português em palavras como ‘[b]ola’, ‘[d]ado’ e ‘[g]ato’; em final de palavra, no entanto, as mesmas letras devem ser pronunciadas como suas contrapartes sem vozeamento (sem vibrar as cordas ou pregas vocais), como nas palavras do português ‘[p]ato’, ‘[t]oco’ e ‘[k]asa’. O mesmo serviria para a letra , que deve ser pronunciada como [v], sonora, ou como [f], surdo, nos respectivos contextos. Vale lembrar que o caso do grafema é menos simples, uma vez que ele representa, no início de palavras (e morfemas) de origem germânica, o fonema /f/, ao passo que o fonema /v/, nesse contexto, é representado pelo grafema . Já em final de palavras (sobretudo de origem latina), o representa o fonema /v/, com realização surda: naiv ‘ingênuo’. Note que no comparativo desse adjetivo, em que o fonema passa a figurar no início da sílaba seguinte, sua realização é sonora .

Foneticamente, podemos dizer que as consoantes oclusivas e fricativas do alemão, em final de palavra, são sempre surdas, não tem vozeamento, ou seja, são sempre produzidas sem vibração das pregas vocais. É o que chamamos, em outras palavras, de ensurdecimento (Auslautverhärtung) de obstruintes (vozeadas), ocorrente em contexto final de palavra.

Fonologicamente, podemos dizer que em final de palavra ocorre a neutralização da oposição entre surdas e sonoras, ocorrendo apenas aquelas. Pensemos, por exemplo, em Bund ‘federação’ e bunt ‘colorido’, ambas com a mesma pronúncia, [bunt]. Na primeira, apesar de ser [t] a pronúncia da consoante final, no plural o fonema volta a ter a realização sonora, pois o contexto em que ele tem realização surda (final de palavra) se desfaz: Bün[d]e. Já para o adjetivo, a oclusiva permanece surda, mesmo que o contexto seguinte seja uma vogal, como no comparativo bun[t]er. Isso nos sugere que, em itens como Bun[t] ‘federação’, o fonema em questão é /d/, com realização fonética surda [t].

Essa afirmação parece mirar no que vê (no caso, ouve) e acertar no que não vê. Ela tem muito mais a ver com a interpretação de empréstimos em uma língua que com a relação grafia – som. Esse tipo de dica mostra a preocupação com a realização do falante do português brasileiro. Se na maior parte do Brasil uma palavra como ‘dama’, o primeiro [a] tem uma realização fonética nasalizada, por estar diante de uma consoante nasal, o mesmo não ocorre no alemão. Na palavra Dame, não vemos a nasalização do [a], como ocorreria se a palavra fosse do português brasileiro. Com relação a esse tipo de vogal, exista ainda a discussão se o português tem vogais nasais (fonológicas), a exemplo do francês, ou apenas vogais (foneticamente) nasalizadas, devido à proximidade de uma consoante nasal. Essa discussão não tangencia o alemão.

A asserção acima só estará parcialmente certa se não considerarmos palavras emprestadas de outras línguas como integrantes do léxico do alemão. A palavra Orange, por exemplo, é uma das primeiras palavras do alemão que os alunos aprendem e apresenta vogal nasal. De qualquer forma, em termos quantitativos, são muito poucas as palavras em que ocorre esse tipo de realização vocálica. Experimentemos, então, dizer o seguinte: “No alemão não existe vogal nasalizada, salvo em algumas palavras de origem estrangeira, mormente francesa”.

Ainda assim, algo soa fora do lugar. Seria mais rígido se disséssemos que essas são vogais ‘lexicalmente’ nasais, e não nasalizadas. A palavra Orange, assim como outras com esse tipo de vogal, poderia figurar no léxico marcada, com uma vogal nasal, o que lhe asseguraria uma coloração estrangeira. Esse, porém, poderia ser um mote para outro artigo.

5 Conclusão

As dicas que são dadas em sala de aula não devem depor contra o sistema da língua alemã. Mais especificamente em relação ao sistema sonoro da língua, os conceitos entre letras (grafemas), fones (ou sons da fala) e fonemas devem ser vistos como entidades distintas, embora relacionáveis.

Ao nos referirmos ao sistema sonoro do alemão e à relação desse sistema com a ortografia, devemos considerar a existência, portanto, de três níveis diferentes: um nível mais abstrato, mental (do âmbito da fonologia), em que aparecem os fonemas (como, por exemplo, o fonema /d/ em /bund/ ‘federação’); um nível mais concreto, físico, em que surgem os sons da fale, que estão atrelados aos fonemas (podendo, neste caso, os sons ser considerados manifestações físicas dos fonemas); finalmente, as letras ou grafemas, que são representações gráficas, nas escritas alfabéticas, dos fones e/ou dos fonemas.

Notas

[1] “Como se escreve isso?” Em verdade, é uma das perguntas que lhes ensinamos para que procurem usar a língua-alvo o maior número de vezes possível.

[2] Referimo-nos aqui ao tom expressivo, não ao fonológico de línguas tonais, como o chinês, o ioruba e tikuna.

[3] Essa divisão remonta a 1928, com os trabalhos de Trubetzkoy, Jakobson e colegas do Círculo Lingüístico de Praga, no famoso 1º. Congresso Internacional de Lingüística, ocorrido em Haia. (Cf. CALLOU & LEITE, Iniciação à fonética e à fonologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, também para mais detalhes sobre essa diferença).

[4] Não é relevante para este artigo as diferenças entre as diversas escolas em fonologia, no que diz respeito à concepção de ‘fonema’.

[5] Usando notação bastante difundida, usamos colchetes ([]) para nos referirmos a fones, barras inclinadas (//) para nos referirmos a fonemas, e colchetes angulados (<>) para referência a grafemas/letras.

[6] Quando o [a] sofre metafonia, surge o , que no alemão é a anterior de altura mais próxima de [a], sem ser arredondada.

[7] O trema é um recurso ortográfico para representar a vogal de mesmo nível de altura e valor de arredondamento, mas que é coronal.

[8] A depender a análise, o símbolo para representar o fonema poderá ser /x/ ou /ç/.

[9] Para mais exemplos e mais detalhes dessa distribuição, ver RAMERS K. H. “Phonologie” In: MEIBAUER, J. et alii. Einführung in die germanistische Linguistik. Stuttgart e Weimar: Editora J. B. Metzler, 2002; e DAMULAKIS, G.N. “Dicas de pronúncia do alemão: Fonética e Fonologia” In: Revista Projekt. Rio de Janeiro, no. 46, p. 61-66, 2008.

[10] Para mais detalhes sobre neutralização no alemão, ver indicações da nota anterior.


Doutorando em Lingüística/ UFRJ. Trabalho realizado com o apoio do CNPq-Brasil. Endereço profissional: Museu Nacional/UFRJ. Depto. de Antropologia. Setor de Lingüística. Quinta da Boa Vista, s/n – São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ, Cep 20940-040. E-mail: damulakis@gmail.com.


Curriculo Lattes


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ISSN:1980-7589