Kaiser

     

    Da aurora à meia-noite

     

    Georg Kaiser

     

    recebido em 19/09/10 e aceito em 21/09/10


     

    Personagens

    CAIXA
    MÃE
    ESPOSA
    PRIMEIRA E SEGUNDA FILHA
    GERENTE
    AUXILIAR
    PORTEIRO
    PRIMEIRO E SEGUNDO CAVALHEIRO
    CONTÍNUO
    EMPREGADA
    DAMA
    FILHO
    ATENDENTE DO HOTEL
    CAVALHEIROS JUDEUS no papel de árbitros
    PRIMEIRA, SEGUNDA, TERCEIRA E QUARTA MÁSCARA FEMININA
    CAVALHEIROS DE CASACA
    GARÇOM
    MOÇA DO EXÉRCITO DA SALVAÇÃO
    OFICIAIS E MILITANTES DO EXÉRCITO DA SALVAÇÃO
    PÚBLICO DE UM ENCONTRO DO EXÉRCITO DA SALVAÇÃO: FUNCIONÁRIOS ADMINISTRATIVOS, COCOTAS, OPERÁRIOS, etc.
    POLICIAL
    A PEQUENA CIDADE W. E A GRANDE CIDADE B.

     

    Parte 1

    Interior de um banco pequeno. À esquerda, guichê  e porta com a inscrição: GERENTE. No meio, porta com placa: ACESSO À CAIXA-FORTE. Porta de saída à direita, atrás da barra de segurança. Ao lado, sofá de bambu e mesa com garrafa d’água e copo. No guichê, o caixa. Na mesa de controle, o auxiliar, escrevendo. No sofá de bambu está sentado o cavalheiro gordo, bufando. Alguém sai pela direita. O contínuo, em frente ao guichê,  acompanha a pessoa com os olhos.


    CAIXA (tamborila com os dedos no balcão).
    CONTÍNUO (solta rápido seu bilhete na mão aberta do Caixa).

    CAIXA (escreve, apanha dinheiro da gaveta do guichê; conta nas mãos, depois coloca na tábua de contagem do guichê).
    CONTÍNUO (apanha uma quantia da tábua de contagem e guarda em uma carteira de linho).
    CAVALHEIRO (levanta-se) Agora chegou a nossa vez, a vez dos gordos. (Ele retira do sobretudo uma rechonchuda carteira de couro.)

    (Entra a dama. Roupa de pele cara, ruído de seda.)

    CAVALHEIRO (estupefato.)
    DAMA (contorna a barra de segurança com dificuldade, sorri fácil para o cavalheiro). Finalmente.
    CAVALHEIRO (torce os lábios).
    CAIXA (tamborila impaciente com os dedos).
    DAMA (gesticula pedindo permissão ao cavalheiro).
    CAVALHEIRO (volta ao seu lugar.) Os gordos sempre por último!
    DAMA (inclina-se para mais perto do guichê).
    CAIXA (faz sinal).
    DAMA (abre sua bolsa, retira um envelope e entrega nas mãos do caixa). Solicito três mil.
    CAIXA (vira e desvira o envelope, devolve).
    DAMA (atina). Perdão (retira a carta do invólucro e alcança ao caixa.)
    CAIXA (repete o gesto anterior).                             
    DAMA (desdobra o papel). Três mil, por favor.
    CAIXA (passa os olhos no papel e entrega ao auxiliar.)
    AUXILIAR  (levanta e vai até a porta com a placa: GERENTE.)
    CAVALHEIRO (novamente acomodado no sofá). Comigo demora mais. Com os gordos sempre demora mais.
    CAIXA (ocupa-se contando o dinheiro).
    DAMA. Em cédulas, por favor.
    CAIXA (permanece curvado).

    GERENTE (jovem gorducho – sai com o papel pela direita). Quem é – (cala-se diante da dama.)
    AUXILIAR (em sua mesa, volta a escrever).
    CAVALHEIRO (alto). Bom dia, senhor gerente.
    GERENTE (com pressa) Tudo bem?
    CAVALHEIRO (acariciando a barriga) Tudo redondinho, senhor gerente.
    GERENTE (sorri de leve. Volta-se para a dama). Quanto a senhora gostaria de sacar?
    DAMA. Três mil.
    GERENTE. Bem, três – três mil eu concederia com satisfação –
    DAMA. Concederia? A carta não está em ordem?
    GERENTE (meloso, com ares de importância). A carta está em ordem. Limite de doze mil – (Devagar.) Banco –

    DAMA. Meu banco em Florença garantiu –
    GERENTE. O banco em Florença emitiu a carta nos conformes para a senhora.
    DAMA. Então não compreendo –
    GERENTE. A senhora requisitou a emissão da carta em Florença –
    DAMA. Sim.
    GERENTE. Limite de doze mil – a serem pagos nos locais aqui especificados –
    DAMA. Nos locais por onde passo.
    GERENTE. A senhora deve ter assinado muitos documentos no seu banco em Florença –
    DAMA. Que foram enviados para que me legitimassem, aos bancos especificados na carta.
    GERENTE.  Não recebemos a carta de aviso com a sua assinatura.
    CAVALHEIRO (tosse; pisca para o gerente).
    DAMA. Então preciso esperar até  –
    GERENTE. A confirmação de alguns detalhes, para darmos continuidade.

    UM CAVALHEIRO (em trajes de inverno; gorro de pele e xale de lã – entra e se posiciona diante do guichê. Lança um olhar zangado em direção à dama).
    DAMA. Não estou preparada para esta situação –
    GERENTE (rindo sem jeito). Nós estamos menos ainda... Na verdade, nadinha!
    DAMA. Preciso tanto do dinheiro!
    CAVALHEIRO (ri alto no sofá.)
    GERENTE. E quem não precisa?
    CAVALHEIRO (ri espalhafatoso no sofá.)
    GERENTE (olhando em volta, fazendo um público para si). Eu, por exemplo... – (dirigindo-se ao senhor que está parado no guichê). Este senhor dispõe de muito mais tempo do que eu! Não está vendo que estou ocupado com a dama? – Então, como a prezada dama poderia ter imaginado tal coisa? O que posso fazer? Devo pagar para a senhora  – no -
    CAVALHEIRO (dá uma risadinha).
    DAMA (rápida). Estou hospedada no Elephant.
    CAVALHEIRO (bufa no sofá).
    GERENTE. Que satisfação saber de sua atual residência, caríssima dama! Eu e meus amigos costumamos confraternizar na taverna do Elephant.
    DAMA. O dono da taverna não pode me legitimar?
    GERENTE. A senhora conhece tão bem o taverneiro?
    CAVALHEIRO (diverte-se fazendo estardalhaço no sofá)
    DAMA. Deixei minha bagagem no hotel.
    GERENTE. Devo examinar o conteúdo das malas e frasqueiras?
    DAMA. Estou na mais fatídica das situações!
    GERENTE. Então, vamos dar as mãos. Estamos juntos em tal circunstância: a senhora não pode fazer nada e eu não posso fazer nada... Esta é a circunstância. (ele devolve a ela o papel.)
    DAMA. O que o senhor me aconselha?
    GERENTE. Bem, nossa cidadezinha é hospitaleira... Elephant é um local de renome e dotado de arredores simpáticos. A senhora faz uma amizade aqui, outra ali... E o tempo vai passando... Um dia depois do outro... Vai se levando...
    DAMA. Não me importo de passar alguns dias aqui.
    GERENTE. O pessoal de Elephant ficaria feliz em ajudar de alguma forma.
    DAMA. Só que eu preciso de três mil... Hoje!

    GERENTE (para o senhor no sofá) Alguém aqui afiançaria três mil para uma senhora de fora?
    DAMA. Céus! Não. Isso eu não aceitaria de jeito nenhum. Peço a gentileza de que me comuniquem por telefone o recebimento da confirmação de Florença. Permaneço em meus aposentos, no Elephant.
    GERENTE. Podemos também comunicar pessoalmente – como a caríssima senhora desejar!
    DAMA. O que for mais rápido! (Ela coloca o papel no envelope e o enfia na bolsa.) De qualquer forma, entro em contato no fim da tarde.
    GERENTE. Estou ao seu dispor!
    DAMA (despede-se rápido, sai.)

    CAVALHEIRO (avança em direção ao guichê e põe uma nota amassada em cima do balcão, com ímpeto.)
    GERENTE (sem tomar conhecimento, diverte-se com o senhor sentado no sofá).
    CAVALHEIRO (no sofá, aspira o ar profundamente).
    GERENTE (ri). Todos os aromas da Itália – direto do frasco de perfume.
    CAVALHEIRO (no sofá, abana-se com as mãos espalmadas).
    GERENTE. Quente, não é mesmo?
    CAVALHEIRO (no sofá, serve-se de um copo d água) Três mil é um exagero. (Bebe.) Trezentos já cairiam bem.
    GERENTE. Quem sabe ela não faz ofertas melhores em seu quarto no Elephant?
    CAVALHEIRO (no sofá) Isso não é para nós gordos...
    GERENTE. Estamos protegidos pela nossa barriga moral!
    CAVALHEIRO (no guichê, bate com ímpeto no balcão pela segunda vez).
    GERENTE (indiferente). O que é que há com o senhor? (ele apanha a nota, alisa e alcança ao caixa.)

    CONTÍNUO (primeiro olhou fixamente para a dama, depois fitou embasbacado os que conversavam – tropeça na barra de segurança e cai sobre o cavalheiro no sofá).
    CAVALHEIRO (no sofá, rouba-lhe a carteira). Pois é, meu jovem, isto tem lá seu preço - o flerte com as belas moças –  você ficou sem a carteira.
    CONTÍNUO (ri constrangido)
    CAVALHEIRO. O que fará ao voltar para casa?
    CONTÍNUO (ri).
    CAVALHEIRO (devolve-lhe a carteira). Tome isto para a sua vida.  Não é o primeiro dos homens que vejo perder os olhos e ter que sair rolando atrás deles.
    CONTÍNUO (sai.)

    CAIXA (estava contando algumas moedas)
    GERENTE. E confiam dinheiro a um jovem tolo desses!
    CAVALHEIRO (no sofá) A tolice castiga a si mesma!
    GERENTE. Como pode um chefe não ter faro para isso? Um tipo assim se escafede na primeira oportunidade! Um defraudador de nascença! (para o senhor no guichê.) Algum problema?
    CAVALHEIRO (confere cada moedinha)
    GERENTE. Aqui estão vinte e cinto centavos de marco. No total, quarenta e cinco pfennigs. É tudo que há para o senhor.
    CAVALHEIRO. (guarda o dinheiro com grande cerimônia).

    CAVALHEIRO (no sofá). Coloque seu dinheiro logo na caixa-forte! Os gordinhos aqui gostariam de depositar!
    CAVALHEIRO (abandona o guichê, sai pela direita).

    GERENTE O que traz o senhor até aqui?
    CAVALHEIRO (deixa a carteira de couro sobre o balcão e apanha uma pasta). Como não ter confiança no senhor, com toda sua fina clientela... (ele estende a mão ao outro.)
    GERENTE. Nos negócios somos insensíveis aos belos olhos.
    CAVALHEIRO.(contando o dinheiro) Que idade acha que ela tem? Uma estimativa.
    GERENTE. Não sei, ainda não a vi sem maquiagem.
    CAVALHEIRO. E o que ela quer aqui?
    GERENTE. Saberemos hoje no Elephant.
    CAVALHEIRO. Quem poderia saber de algo?
    GERENTE. Bem, qualquer um de nós poderia saber!
    CAVALHEIRO. O que ela vai fazer com três mil, aqui?
    GERENTE. É claro que ela vai saber usá-los.
    CAVALHEIRO. Sendo assim, desejo a ela a melhor sorte.
    GERENTE. Para que?
    CAVALHEIRO. Para que consiga os três mil marcos...
    GERENTE. De mim?
    CAVALHEIRO. De quem quer que seja!
    GERENTE. Estou curioso com a chegada da confirmação do banco de Florença...
    CAVALHEIRO. Se chegar!
    GERENTE. Se chegar!– Por isso, estou ainda mais ansioso.
    CAVALHEIRO. Nós poderíamos juntar dinheiro e dar a ela, para ela resolver a situação.
    GERENTE. Ela deve ter algo nesse sentido em mente!
    CAVALHEIRO. Disso eu já sabia!
    GERENTE (ri). O senhor ganhou na loteria?!
    CAVALHEIRO (para o caixa) Fique com isso (para o gerente.). Se guardarmos o dinheiro lá fora ou ganhamos juros aqui com os senhores... – Por obséquio, abra uma conta para a Cooperativa Habitacional.
    GERENTE (impetuoso, para o auxiliar.) Conta para a Cooperativa Habitacional.
    CAVALHEIRO. Ainda há mais.
    GERENTE. Pode mandar, meu senhor. O que vier, vem bem.
    CAVALHEIRO. Sessenta mil; cinquenta em papel e dez em barras de ouro.
    CAIXA (conta).
    GERENTE (após uma pausa). E no mais, tudo em ordem?
    CAVALHEIRO. Com certeza... - A cédula está remendada.
    GERENTE. Ficaremos com a cédula, naturalmente. Logo estaremos livres dela. Vou guardá-la para nossa cliente de Florença. Ela mesma usa remendos estéticos...
    CAVALHEIRO. Atrás deles escondem-se mil marcos...
    GERENTE. Valor de estimação.
    CAVALHEIRO (ri, agitado). Valor de estimação – isso é demais!
    GERENTE (entre lágrimas). Valor de estimação! – (dá a ele o recibo do Caixa.) Seu recibo. (engasgado) Sessenta MI-MI...
    CAVALHEIRO (apanha o recibo e lê). Sessenta MI...
    GERENTE. Valor de estimação.
    CAVALHEIRO. Valor...  (eles se dão as mãos)
    GERENTE. Nos vemos à noite.

    CAVALHEIRO. Valor de estimação! (abotoa o sobretudo, sai balançando a cabeça.)

    GERENTE (continua ali parado, enxuga as lágrimas acumuladas debaixo das lentes. Depois, entra à esquerda).
    CAIXA (amarra as últimas cédulas recebidas e guarda as moedas).

    GERENTE (retorna). Esta senhora de Florença – que diz que veio de Florença – Bem, me diga, o senhor já presenciou aparição semelhante diante deste guichê? Pele – perfumada. O cheiro é impregnante. Respira-se um aroma de aventura! – Esta é a sua magnífica chegada. Itália, isso nos surpreende – Quase um conto de fadas! Riviera – Mentone – Bordighera – Nizza – Monte Carlo! Lá, onde florescem as laranjeiras, floresce também a fraude! Lá não há sequer meio metro quadrado de chão livre da fraude. É onde começa a pilhagem... A camarilha se espalha por todos os lados. De preferência vão para lugares menores – distantes da estrada principal – Então aparecem as peles e as sedas. Mulheres! Sereias da modernidade! Ladainhas do ensolarado sul – Oh, bela Napoli! Olhares sedutores! E o homem acaba só de cuecas – Contando apenas com sua pele nua! A pele nuazinha, nuazinha! (Ele cutuca as costas do caixa com um lápis.) Tanto quanto o Papa morou na Lua – sabe tal banco de Florença sobre a carta lá emitida. Disso não duvido por um só momento! Tudo é fraude, e bem preparada há muito tempo. E mais: seu mandante não está em Florença, mas em Monte Carlo! Pode apostar. Testemunhamos aqui uma daquelas existências criadas dentro das casas de jogos. Dou minha palavra que jamais voltaremos a vê-la. Se a primeira tentativa fracassa, evitam a segunda! Eu brinco, mas tenho bom olho para o charlatanismo. Nós, banqueiros! – Eu deveria ter avisado o delegado Werde! – Bem, isso não cabe a mim. Além do mais, banqueiros devem ser discretos. (Diante da porta.) Acompanhe os jornais de fora. Quando ler sobre alguma vigarista que foi colocada atrás das grades, então voltamos a falar sobre isso. Aí o senhor me dará razão. Mais vamos ouvir falar sobre nossa amiga de Florença do que ver suas peles e sedas.

    CAIXA (sela um maço de dinheiros).
    PORTEIRO (vem da direita trazendo algumas cartas que alcança para o auxiliar). Preciso do recibo da carta registrada.
    AUXILIAR (carimba a nota, alcança ao porteiro).
    PORTEIRO (ajeita o copo e a garrafa d água na mesa. Sai.)

    AUXILIAR (leva a carta até à gerência, volta.)

    DAMA (entra novamente, vai apressada até o guichê). Com licença.
    CAIXA (estende a mão vazia para ela).
    DAMA (mais alto). Com licença.
    CAIXA (bate).
    DAMA. Não gostaria de perturbar o senhor gerente de novo.
    CAIXA (bate).
    DAMA (rindo em desespero). Escute-me, por favor. Não é possível que eu deixe ao banco uma carta de crédito de toda a quantia e receba um adiantamento de três mil?
    CAIXA (bate impaciente).
    DAMA. Qualquer problema, estou preparada para deixar meus brilhantes como penhor. As pedras podem ser avaliadas por qualquer joalheiro. (Ela retira uma luva e desata o bracelete.)

    EMPREGADA (entra ligeiro pela direita, senta-se no sofá e procura algo revirando a sacola de compras).
    DAMA (olha em volta um pouco assustada; curva-se e coloca sua mão sobre a mão do caixa).
    CAIXA (volta-se para a mão sobre a sua. Agora seus óculos vão subindo pelo braço da dama).
    EMPREGADA (sem fôlego, encontra a nota).
    DAMA (faz para ela um sinal positivo com a cabeça).
    EMPREGADA (arruma a sacola).

    DAMA (volta-se novamente para o caixa. Olha-o nos olhos).
    CAIXA (sorri para ela).
    DAMA (retira sua mão da dele). Não quero incomodar o banco com transações que não lhe cabem. (Coloca o bracelete de volta, passa por dificuldades com a presilha. Estende a mão ao caixa.) O senhor poderia me fazer a gentileza? Não sou habilidosa o bastante com uma mão só.
    CAIXA (o tufo da barba se agita. Óculos afundam nas órbitas fosforescentes de olhos que vão se abrindo.)
    DAMA (para a empregada). Ajude-me, senhorita.
    EMPREGADA (faz isso).
    DAMA. Agora a presilha de segurança. (dá um gritinho) A senhorita está espetando meu braço! Agora sim. Muito obrigada, senhorita. (despede-se do caixa. Sai.)

    EMPREGADA (no guichê, alcança sua nota).
    CAIXA (apanha a nota com as mãos dançando no ar. Deixa cair e procura por muito tempo embaixo do guichê. Depois paga.)
    EMPREGADA (olha para o dinheiro, depois para o caixa)
    Isso tudo não é meu.
    CAIXA (escreve).
    AUXILIAR (começa a observar).
    EMPREGADA (para o auxiliar). Mas é muito dinheiro.
    AUXILIAR (olha para o caixa).
    CAIXA (toma de volta parte do dinheiro).
    EMPREGADA. Ainda é muito.
    CAIXA (escreve).
    EMPREGADA (enfia o dinheiro na sacola, balançando a cabeça. Sai)

    CAIXA (levanta a voz com rouquidão). Traga-me – um copo d’água!
    AUXILIAR (vai do guichê até a mesa).
    CAIXA. Isto é insípido! Quero água fresca.
    AUXILIAR (vai com o copo até a caixa-forte).

    CAIXA (apressa-se até a campainha – pressiona).

    PORTEIRO (vai até ele).
    CAIXA. Traga-me água fresca.
    PORTEIRO. Não tenho permissão para sair daqui.
    CAIXA. Sou eu quem está pedindo! Isso é esgoto. Quero água fresca.
    PORTEIRO. (com a garrafa d’água entra na caixa-forte).

    CAIXA (com movimentos rápidos enfia o último montante de cédulas e moedas nos bolsos. Depois apanha o sobretudo do cabide e joga-o sobre o ombro. Coloca o chapéu. Abandona o guichê – sai pela direita).

    GERENTE (entra pela esquerda, concentrado em uma carta). Chegou mesmo a confirmação de Florença!

    AUXILIAR (vem da caixa-forte com o copo d’água).

    PORTEIRO (vem da caixa-forte com a garrafa d’água).

    GERENTE (olhando para eles) Raios me partam! O que significa isso?

     

    Escritório para hóspedes do  hotel. Aos fundos, porta de vidro. À esquerda, escrivaninha com aparelho de telefone. À direita; sofá, poltrona e mesa com revistas, jornais, papéis, etc.

    DAMA (escreve).

    FILHO (chega de sobretudo e chapéu – embaixo do braço traz um objeto grande e  plano, envolto por um pano).
    DAMA (surpresa). Você está com ele?
    FILHO. O comerciante de vinhos está sentado lá embaixo. O velho paspalho acha que eu vou fugir com ele.
    DAMA.  Pela manhã ele estava feliz em ver-se livre.
    FILHO. Agora ele está em alvoroço.
    DAMA. Você deve ter demonstrado muito interesse.
    FILHO. Confesso que me entusiasmei um pouco.
    DAMA. Isso faria até os cegos enxergarem!
    FILHO. Eles também podem abrir os olhos, mamãe! Mas, tenha calma, o preço é o mesmo de hoje de manhã.
    DAMA. E o homem está esperando?
    FILHO. Deixemos que espere.
    DAMA. Infelizmente, preciso te dizer...
    FILHO (beija-a). Agora silêncio. Silêncio de celebração. E não abra os olhos até que eu dê o sinal. (Ele retira o sobretudo e o chapéu, coloca o quadro em uma poltrona e ergue o pano.)
    DAMA. Ainda não?
    FILHO (bem baixinho). Mamãe...
    DAMA (vira-se na cadeira).
    FILHO (vai até ela, repousa a mão no seu ombro). E então?
    DAMA. Realmente, não parece apropriado para uma cantina!
    FILHO. Estava pendurado do avesso na parede. O homem colou sua fotografia na parte de trás.
    DAMA. E você a comprou junto?
    FILHO (ri). Que tal?
    DAMA. Achei – muito ingênuo.
    FILHO. Uma pérola, isso sim! Fantástico para um Cranach.
    DAMA. Acha mesmo tão valiosa como pintura?
    FILHO. Como pintura é evidente! Mas, além disso, há a peculiaridade da representação. Para um Cranach – e para o tratamento do tema em toda a história da Arte, sobretudo. Onde você encontra algo assim? No Palácio Pitti – na Galeria dos Ofícios – no Vaticano? Mesmo o Louvre não tem nada igual. Temos aqui, sem dúvida, a primeira e única figuração erótica do primeiro casal humano. Aqui a maçã ainda jaz na grama – atrás do indescritível verde a serpente observa maliciosa – o acontecimento concebe-se no próprio paraíso e não após a expulsão. Este é o pecado original! – Único. Cranach pintou dúzias de Adãos e Evas – duros – e com o ramo no meio, separando-os. O que significa que eles meramente se conheciam. Aqui, celebra-se pela primeira vez a anunciação humana: eles se amam! Aqui, um pintor alemão revela-se um mestre erótico do enfatismo mais mediterrâneo! (diante da pintura.) Nesta pintura o comedimento persiste mesmo no êxtase. Veja a linha do braço masculino que envolve a cintura feminina. A linha horizontal da coxa que repousa embaixo e a obliqüidade do outro par de coxas. Isso não cansa os olhos em momento algum! Gera amor na contemplação! – O tom da pele com certeza colabora muito. Você não sente o mesmo?
    DAMA. Você é como sua pintura, meu jovem. Ingênuo.
    FILHO. O que você quer dizer?
    DAMA. Peço que esconda a pintura em seu quarto, no hotel.
    FILHO. Não vou mesmo senti-la por inteiro antes de chegar em casa. Florença e este Cranach! A conclusão de meu livro naturalmente será adiada. Tal coisa precisa ser digerida. A um historiador da Arte é essencial que deixe a obra correr por suas veias antes de escrever sobre ela. No momento, sinto-me exausto. – E pensar que encontrei essa pintura aqui, na primeira parada de nossa viagem!
    DAMA. Mas bem que você já tinha previsto.
    FILHO. Ainda assim, fica-se deslumbrado diante de tal fenômeno! Não é enlouquecedor? Mamãe, eu sou um homem de sorte!
    DAMA. Você está apenas testemunhando o resultado de seus estudos.
    FILHO. Não seriam eficazes sem sua ajuda e sua bondade!
    DAMA. Sua felicidade é a minha.
    FILHO. Você tem uma paciência sem limites comigo, mãe. Arranquei você do seio da linda e calma vida de Fiésole. Apressei uma italiana para uma viagem pela Alemanha em pleno inverno! Você foi obrigada a dormir em vagões-dormitórios – hotéis de segunda e terceira categoria – teve que topar com todo o tipo de gente –
    DAMA. E já chega!
    FILHO. Prometo me apressar. Eu mesmo estou impaciente para guardar o tesouro em local seguro. Viajaremos às três. Pode me dar os três mil?
    DAMA. Não tenho.
    FILHO. O dono do quadro está no hotel.
    DAMA. O banco não pôde me pagar. A notificação de Florença deve ter atrasado por algum motivo.
    FILHO. Eu prometi o pagamento.
    DAMA. Então é preciso devolver-lhe o quadro, até que o banco seja notificado.
    FILHO. Não há como apressar as coisas?
    DAMA. Acabei de escrever um telegrama, vou enviar. Viajamos tão às pressas –

    GARÇOM (bate à porta).
    DAMA. Por favor.

    GARÇOM. Um senhor do banco deseja ver vossa senhoria.
    DAMA (para o filho). Provavelmente enviaram o dinheiro direto ao hotel. (para o garçom.) Faça-o entrar, por favor.
    GARÇOM (sai).

    FILHO. Entre em contato quando tiver o dinheiro. Não quero deixar que o homem vá embora.
    DAMA. Eu telefono.
    FILHO. Estarei sentado lá embaixo. (Sai.)

    DAMA (fecha a pasta).

    (Garçom e caixa aparecem por trás da porta de vidro. O caixa ultrapassa o garçom e abre a porta; o garçom dá meia-volta, sai.)

    CAIXA (ainda com o sobretudo sobre o braço – entra).
    DAMA (aparece por detrás de uma poltrona e senta-se no sofá).
    CAIXA (com o sobretudo ao seu lado, na poltrona).
    DAMA. Espero que o banco...
    CAIXA (olha o quadro).
    DAMA. Este quadro possui relação direta com minha visita ao banco.
    CAIXA. É a senhora?
    DAMA. O senhor vê semelhanças?
    CAIXA. No pulso!
    DAMA. O senhor é conhecedor?
    CAIXA. Eu gostaria – de conhecer mais!
    DAMA. Este tipo de quadro interessa ao senhor?
    CAIXA. Estou ao par deste quadro!
    DAMA. Acham-se mais obras como esta entre os moradores da cidade? O senhor me faria um grande favor em indicá-los. A questão é para mim tão ou mais importante do que o dinheiro.
    CAIXA. Dinheiro eu tenho.
    DAMA. Infelizmente, a quantia solicitada na carta não me será suficiente.
    CAIXA. (desempacota o dinheiro). Isto é o suficiente!
    DAMA. Eu posso sacar apenas doze mil.
    CAIXA. Sessenta mil!
    DAMA. De que maneira?
    CAIXA. Assunto meu.
    DAMA. Como posso -
    CAIXA. Vamos viajar.
    DAMA. Para onde?
    CAIXA. Para além da fronteira. Arrume sua mala – caso haja alguma.  A senhora parte da estação ferroviária – eu corro até a outra estação a pé e embarco. A primeira providência será arranjar uma hospedaria. – Há aqui o livro de horários da estrada de ferro? (Ele encontra em cima da mesa.)
    DAMA. Então o senhor me traz três mil do banco?
    CAIXA (ocupado). Eu surrupiei sessenta mil. Cinquenta mil em notas e dez mil em ouro.
    DAMA. Dos quais me pertencem - ?
    CAIXA (Desenlaça um rolo. Conta as moedas na mão. Coloca na mesa). Fique com elas. Esconda. Podemos estar sendo vigiados. A porta é de vidro.  Quinhentos em ouro.
    DAMA. Quinhentos?
    CAIXA. Em breve haverá mais. Quando estivermos seguros. Não podemos ser vistos aqui. Vamos lá. Pegue. Este momento não é apropriado para ternuras. Os ponteiros estão girando. Cada braço que tentar interrompê-los será esmagado! (ele levanta com um pulo).
    DAMA. Eu preciso de três mil.
    CAIXA. Ah, sim... E quando os policiais encontrarem isso na sua bolsa, a senhora vai para o xadrez!
    DAMA. O que têm os policiais com isso?
    CAIXA. Ora, sua presença causou frenesi no Banco. A senhora levanta suspeita, e nossa ligação ficará clara como a luz do dia.
    DAMA. Mas eu fui ao banco...
    CAIXA. Destemida.
    DAMA. Eu solicitei...
    CAIXA. A senhora tentou.
    DAMA. Eu queria...
    CAIXA. Enganar o banco, com sua carta falsificada.
    DAMA. (tirando a carta da bolsa). Esta carta não é legítima?
    CAIXA. É tão falsa quanto seus brilhantes.
    DAMA. Eu ofereci minhas jóias como penhor. Por que diz que são falsas?
    CAIXA. Senhora, o brilho de pessoas do seu tipo apenas ofusca.
    DAMA. E de que tipo o senhor me julga? Tenho cabelos pretos – minha pele é escura, sou do tipo mediterrâneo. De Toscana?
    CAIXA. Monte Carlo!
    DAMA (ri). Não, Florença!
    CAIXA (seu olhar perscruta o chapéu e o sobretudo do filho). Cheguei tarde demais?
    DAMA. Tarde demais?
    CAIXA. Onde está ele? Vamos negociar. Ele certamente vai querer fazer negócio comigo. Eu tenho meios. Quanto devo oferecer a ele? Em quanto a senhora avalia a indenização? Quanto preciso meter no bolso dele?Eu ofereço até quinze mil! – Ele está dormindo? Se espreguiçando na cama? Onde é o quarto de vocês? Dou vinte mil, e mais cinco para uma troca imediata! (ele apanha o chapéu e o sobretudo da poltrona) Levo para ele suas roupas.
    DAMA (surpresa). O cavalheiro está sentado no saguão.
    CAIXA. Muito perigoso. É movimentado lá embaixo. Vamos chamá-lo, vou derrotá-lo aqui em cima. Vamos, chame o garçom! Ele vai ter que voar! Vinte mil, em notas! (Ele conta.)
    DAMA. E meu filho pode me legitimar?
    CAIXA (recua). Seu... filho?!
    DAMA. Estou viajando com ele, financiando uma viagem de estudos. Foi o que nos trouxe de Florença até a Alemanha. Meu filho está em busca de material para seu livro sobre a História da Arte.
    CAIXA (fita a dama) – – Filho?!
    DAMA. É assim tão espantoso?
    CAIXA. (confuso) Esta – – esta pintura?!
    DAMA. Esta pintura é a grande descoberta de meu filho. É para comprá-la que quero tanto os três mil. Pertence a um comerciante de vinhos – cujo nome o senhor certamente já ouviu falar – foi ele quem colocou o preço.

    CAIXA. – – Peles, sedas – – brilhava, tirlintava – – Seu  perfume pairava no ar!
    DAMA. É inverno, não julgo que esteja usando nada especial.
    CAIXA. E a carta falsificada?!
    DAMA. Eu estava justamente escrevendo um telegrama para o meu banco.
    CAIXA. E aquele pulso nu?! E a corrente do bracelete que me pediu para desatar?!
    DAMA. A mão esquerda sozinha não funciona.
    CAIXA (aborrecido). E eu – –  Roubei o dinheiro! – – – –
    DAMA (contente). O senhor e a polícia estão satisfeitos agora? Meu filho não é nada desconhecido no meio científico.
    CAIXA. Agora – – Neste momento devem estar dando por minha falta. Eu pedi que me trouxessem água, para despistá-los. Pedi águas duas vezes – primeiro ao auxiliar, depois ao porteiro. Todo o dinheiro sumiu. Sou um defraudador! – – Não posso sequer ser visto nas ruas – ou na feira. Não posso dar as caras na estação. A polícia está no meu encalço. Sessenta mil!  – – Preciso fugir para o campo – me esconder no meio da neve  – antes que a polícia seja chamada!
    DAMA (abismada). Cale-se, já chega!
    CAIXA. Eu peguei todo o dinheiro. – – A senhora tomou o banco com a sua presença – brilhava e farfalhava – –  pousou sua mão despida na minha! –  – senti seu hálito quente – – sua boca fervorosa – –
    DAMA. Eu sou uma dama!
    CAIXA (obsessivo). Agora a senhora tem que – – !!
    DAMA (contém-se). O senhor é casado? (ele se agita) Sim? Acho que isto é um tanto relevante. Se não devo tomar tudo isso como uma brincadeira, o senhor se deixou levar por um impulso tolo. Repare seu erro. Volte para o seu caixa e simule um mal-estar momentâneo. O senhor tem ainda toda a quantia em mãos?
    CAIXA. Eu limpei o caixa. –
    DAMA (abruptamente).Chega. Não estou mais interessada.
    CAIXA. Eu saqueei o banco. –
    DAMA. O senhor está me importunando.
    CAIXA. Agora a senhora tem que – –
    DAMA. O que eu “tenho que” – –
    CAIXA. Depois disso, a senhora tem que!!
    DAMA. Ridículo!
    CAIXA.  Eu roubei, furtei. Cavei minha ruína – Destruí minha existência. – Todas as pontes foram partidas ao meio. – Eu sou um ladrão – bandido. – – (joga-se sobre a mesa.) Agora a senhora tem que – – agora a senhora tem que!!!
    DAMA. Vou chamar meu filho agora, talvez – –
    CAIXA (diferente, ágil) Chamar alguém? Chamar qualquer um? Disparar os alarmes? Maravilha! – Tolo. Estúpido. Eles não vão me pegar. Nessa eu não caio. Tenho minhas táticas, meus senhores. Sua esperteza nunca me alcançará – estou sempre dez quilômetros na frente. Não se mexam. Fiquem sentados, até que eu – (Ele guarda o dinheiro, abaixa a aba do chapéu até os olhos, fecha o sobretudo pressionando o peito.) Até que eu... (sai lépido e sem fazer barulho pela porta de vidro.)
    DAMA (fica confusa).

    FILHO (chega). O homem do banco acaba de sair do hotel. A senhora está preocupada, mamãe? O dinheiro está  –
    DAMA. A conversa toda me esgotou. Assuntos financeiros. Você sabe como isso sempre me incomoda.
    FILHO. Apareceram mais dificuldades que vão atrasar o pagamento?
    DAMA. Bem, talvez eu deva te dizer –
    FILHO. Preciso devolver o quadro?
    DAMA. Nem estou pensando no quadro.
    FILHO. Mas é o que mais nos interessa!
    DAMA. Acho que preciso fazer uma denúncia.
    FILHO. Que tipo de denúncia?
    DAMA. Resolver a questão do telegrama. Preciso antes ter urgentemente uma confirmação do banco em mãos.
    FILHO. O que consta na carta do banco não é suficiente?
    DAMA. Não, não é. Vá até o correio para mim. Não quero que o porteiro leia.
    FILHO. E quando chega o dinheiro?

    (O telefone toca.)

    DAMA. Já estão me telefonando. (ao telefone) Chegou! Eu mesma devo retirar no caixa. Sem problemas. Com certeza, senhor gerente.  Não estou nada revoltada. Florença é longe. Sim, o correio da Itália. Como? Por quê? Ah, sim... Mas, por qual motivo? Ah, claro – Veio por Berlim, um longo desvio – Isso explica tudo. Sem problemas. Obrigada, senhor gerente. Em dez minutos. Que bom! Adeus. (para o filho.) Tudo em ordem. Meu telegrama não será mais necessário. (rasga o formulário) O quadro é seu. O comerciante de vinhos nos acompanha. Assim ele recebe o valor direto do banco. Embrulhe seu tesouro. Do banco iremos direto para a estação. (telefona, enquanto o filho guarda o quadro). A conta, por favor. Quartos 14 e 16. Temos pressa. Obrigada.

     

    Campo coberto de neve, uma árvore de galhos baixos e emaranhados. Sol que traz sombras azuladas.

    CAIXA (chega, caminhando de costas. Remexe a neve, apaga com as mãos suas pegadas. Levanta). Que maravilha é o homem! Seu mecanismo se evidencia nas dobradiças – silencioso. De repente as capacidades são estimuladas e o impulso é ativado. Quando que minhas mãos se comportaram assim? Quanto antes elas cavaram na neve? E agora, quem diria,  acumulam de volta o que os flocos espalharam! Meus rastros desaparecem. Alcancei o completo anonimato! (ele retira os punhos falsos molhados.) Gelo e umidade favorecem um resfriado forte. De repente aparece a febre e influencia as decisões. Perde-se o controle das próprias ações quando se está na cama enfermo. (ele arranca os botões e atira longe os punhos falsos.) Missão cumprida. Fiquem lá! Sentirão falta de vocês na lavagem de roupas. O lamento percorre a cozinha: estão faltando dois punhos falsos! Catástrofe na bacia de roupas! Fim do mundo! (Ele recolhe os pulsos do chão e guarda no bolso do sobretudo.) Maravilha: minha esperteza já voltou a funcionar, de maneira infalível. Estou me debatendo com esta neve pisoteada e me denuncio com dois trapos gastos e sujos jogados no chão. É sempre uma ninharia, um engano, um descuido que denuncia o criminoso. Upa! (Ele procura um galho confortável para sentar.) Mas estou curioso. Minha tensão inflou violentamente. É compreensível que eu me prepare para descobertas importantes. As experiências adquiridas no vôo lépido das últimas horas estão ao meu lado. De manhã, ainda um experiente funcionário. Foram-me confiadas fortunas inteiras, a Cooperativa Habitacional deposita quantias enormes. Ao meio-dia, um astuto patife. Dotado de todas as táticas. Treinado na técnica da fuga em todos os detalhes. Agora é hora passar à ação e dar no pé. Que desempenho! E recém chegamos à metade do dia. (Ele segura o queixo com as costas do punho) Enfrentarei qualquer dificuldade de peito aberto. Possuo artimanhas infalíveis, não preciso temer o fracasso. Estou em marcha – não há como voltar atrás. Marcharei sem dar atenção exagerada aos trunfos. Eu joguei com sessenta mil – e espero o trunfo. Apostei muito alto para fracassar. Agora é para valer. As cartas estão na mesa! Entendido? (ele solta uma gargalhada metálica e rasgada) Agora, a senhora, minha bela e sedosa dama, tem que me dar a deixa. Dê-me o sinal, radiante senhora, ou a intensidade da cena fenecerá. Que vagabunda estúpida! E ainda acha que sabe fazer comédia! Deixe seus talentos naturais fluírem,  reproduza-se – e não incomode o ajudante de palco! – Oh, me desculpe. A senhora tem um filho. A senhora está totalmente legitimada. Eu liquido com minhas suspeitas. Seja feliz e mande lembranças ao senhor gerente. A senhora provocará uma gosma repugnante nos seus olhos animalescos, mas não se incomode com isso. O homem foi caloteado em sessenta mil, A Cooperativa Habitacional vai fazer o teto dele desmoronar. Isso é terrível. Eu libero a senhora de qualquer obrigação em relação a mim. Está despedida. Pode ir. – Espere! Leve meu agradecimento com a senhora – no trem - Como? Não há por quê? – Creio que há motivos notórios! Não foi nada? Está brincando! Seus devedores! Como assim? – Eu lhe devo a vida! – Pelo amor de Deus! – Eu exagero? A senhora sacudiu-me, revolveu-me. Mais um passo em sua direção e estarei à beira de acontecimentos nunca antes relatados! E com esse peso no bolso do peito pago todos os favores em dinheiro vivo! (com um gesto despachado). Agora, suma! A senhora já foi  passada adiante e não pode esperar, com seus meios financeiros limitados, ganhar a adjudicação. – aconselhe-se com o seu filho (ele retira o maço de dinheiros da pasta e estala nas mãos.) Eu pago à vista, em dinheiro! A quantia foi disponibilizada. O pagamento vem antes da oferta. Adiante. O que está em oferta? (Ele senta no campo.) Neve. Sol. Silêncio. (Ele balança a cabeça e guarda o dinheiro.) Daria um prejuízo escandaloso pagar essa quantia pela neve azulada. Recuso a oferta. Recuo na minha decisão. Não é um negócio justo! (jogando os braços para cima.) Preciso pagar!! – – Tenho dinheiro vivo!!  – – Onde está a mercadoria que vale todo esse dinheiro?! Sessenta mil –  e o comprador inteiro em pele e ossos?! – – (aos berros) Mas vocês precisam me fornecer –  – vocês precisam adequar o valor à mercadoria! (O sol desaparece atrás das nuvens. Ele desce do tronco da árvore) A terra germina. – Tempestades de primavera! Está melhorando! Está melhorando! Sabia que meus gritos não eram em vão. O apelo foi urgente. O caos se sente insultado e não deseja fazer má figura diante das minhas atitudes de hoje cedo. Eu já sabia que não se pode facilitar em tais situações. É preciso ficar sempre em cima da coisa! – E tirar o casaquinho da coisa, aí aparece alguma coisa! –  Diante de quem retiro tão cordialmente meu chapéu? (seu chapéu lhe é retirado. O furacão chicoteou a neve nos galhos: restos se juntam na coroa da árvore e formam um esqueleto humano com expressão de troça no maxilar. Uma mão feita só de ossos segura o chapéu.) Você estava o tempo todo aí sentado me espreitando? Você está a mando da polícia? Não no sentido limitado, ridículo, do termo. Mais amplo: Polícia da Existência? – Você é a resposta exaurida do meu questionamento insistente? Você quer com sua um tanto quanto esburacada existência insinuar: o resultado final – o esgotamento total? – Isto é medíocre. Bem medíocre. Na verdade é absolutamente nada! Eu recuso esta informação toda esburacada. Agradeço o serviço. Vá fechar sua loja cheia de ossos velhos. Não sou exatamente o mais fácil de ser persuadido! Este processo seria bem simples, é verdade, – o senhor me suspende de futuros problemas – no entanto, considero as complicações mais atraentes. Cuide-se – se for possível na sua situação! - Eu ainda tenho outras coisas para fazer. Quando se está em trânsito não se pode parar em todas as casas do caminho. Nem mesmo diante do convite mais amável. Tenho muitos compromissos até o romper da noite. É impossível que você seja o primeiro. Talvez o último. Mas se for, apenas por obrigação. Não é nenhum prazer. Mas, como eu disse, é por obrigação – sobre isso podemos conversar. O senhor me telefone novamente por volta da meia-noite. Informe-se na central telefônica sobre a troca do número! Perdão, o estou tratando por senhor! Ficamos bem no você para cá e você para lá. As relações se confirmam afetuosamente. Acredito, inclusive, que você está dentro de mim. Portanto, saia deste emaranhado de galhos que te perfura por todos os lados e resvale para dentro de mim. Na minha situação duvidosa, não posso deixar pistas. Mas, antes, devolva meu chapéu! (Ele apanha o chapéu do galho, que se curva em direção a ele com o ventaval. Faz uma reverência.) Percebo que alcançamos um grau aceitável de compreensão. Isso é um começo, que inspira confiança e oferece o apoio necessário no turbilhão dos grandiosos futuros acontecimentos! Aprecio do fundo do coração. Com meus sinceros cumprimentos! –  – (Troveja. Uma última rajada de vento desmancha a figura na árvore. O sol aparece novamente. Fica claro como no início.) Eu bem falei que a aparição era passageira! (Ele pressiona o chapéu na testa, levanta a gola do sobretudo e vai embora trotando pela neve.)

     

    Segunda Parte

    Sala de visitas da casa do caixa. Janela com gerânios murchos. Duas portas atrás, uma porta à direita. Mesa e cadeiras. Piano. A mãe está sentada diante da janela. A primeira filha borda na mesa. A segunda filha pratica a abertura da ópera de Tannhäuser. A esposa entra e sai pela  porta à direita, atrás.

    MÃE. O que você está tocando?
    PRIMEIRA FILHA. É a abertura de Tannhäuser.
    MÃE. A Dama Branca é também belíssima.
    PRIMEIRA FILHA. A Dama Branca ela não encomendou essa semana.

    ESPOSA (chega). Já é hora de fritar as costelas.
    PRIMEIRA FILHA. Ainda não, mamãe.
    ESPOSA. É, ainda não é hora de fritar as costelas. (Sai.)

    MÃE. O que você está bordando?
    PRIMEIRA FILHA. Estou arrematando.

    ESPOSA (vai até a mãe). Hoje teremos costelas.
    MÃE. Você vai fritar agora?
    ESPOSA. Ainda tem tempo. Ainda não é meio-dia.
    PRIMEIRA FILHA. Nem perto do meio-dia, mamãe.
    ESPOSA. Não, não é nem perto do meio-dia.
    MÃE. Quando ele chegar será meio-dia.
    ESPOSA. Ele não chega.
    PRIMEIRA FILHA. Quando papai chegar, será meio-dia.
    ESPOSA. Sim. (Sai.)

    SEGUNDA FILHA (pára de tocar, escuta com atenção). Pai?
    PRIMEIRA FILHA (faz o mesmo). Pai?
    ESPOSA (chega). Meu marido?
    MÃE. Meu filho?
    SEGUNDA FILHA (abre a porta da direita). Pai!
    PRIMEIRA FILHA (de pé). Pai!
    ESPOSA. Marido!
    MÃE. Filho!

    CAIXA (entra pela direita, pendura o chapéu e o sobretudo).
    ESPOSA. Da onde você vem?
    CAIXA. Do cemitério.
    MÃE. Alguém morreu de repente?
    CAIXA (bate nas costas dela). Pode-se morrer de repente, mas não se pode ser enterrado de repente.
    ESPOSA. Da onde você vem?
    CAIXA. Da cova. Cavei a terra com a testa. Ainda há gelo aqui. Foi preciso um esforço singular para subir. Muito esforço. Sujei um pouco os dedos. É preciso sujar as mãos para poder sair. Está-se deitado bem no fundo. Uma vida assim te encobre com força. Montanhas são empilhadas em cima de você. Escombros, lixo – é um grande local de descarrego. Os mortos permanecem sempre há seus tradicionais três metros da superfície terrestre – os vivos os soterram cada vez mais.
    ESPOSA. Você está congelado – dos pés á cabeça.
    CAIXA. Descongelado! – Chacoalhado  – pelas tempestades -  primaveris.  Chicoteava e trovejava. – Vou te dizer: deixou-me nu até os ossos. E minha ossada estava sentada nua.  Ossos –  esbranquiçados em minutos. Um local de caveira! Até que o sol me re-derreteu novamente. Assim, por completo, aconteceu a renovação. Aqui vocês me têm.
    MÃE. Você estava ao ar livre?
    CAIXA. Em um terrível calabouço, mamãe! Preso, sem fundo, embaixo de torres abismáticas. Correntes tilintantes entorpeceram meus ouvidos. Meus olhos, expulsos pela escuridão.
    ESPOSA. O banco está fechado. Você esteve bebendo com o gerente. Há alguma comemoração na família dele?
    CAIXA. Ele tem uma nova amante em vista. Italiana – Pele – Seda – Onde florescem as laranjeiras! Pulsos como que esculpidos. Cabelos pretos – a pele é escura. Brilhante. Genuína – tudo genuíno. Tos – Tos – o final soa como Canaã. Apanhe um atlas. Tos -Canaã. Existe isso? É uma ilha? Uma montanha? Um pântano? A geografia pode nos informar sobre tudo. Mas ele vai se cortar e ferir. Desabar  – varrido como um punhado de sujeira. Ali está ele deitado – sacolejando-se sobre o tapete – pernas para o ar – o gerentinho gorduchinho.
    ESPOSA. O banco não fechou?
    CAIXA. Nunca, querida esposa. A prisão nunca fecha. O fluxo não tem fim. A peregrinação é eterna. Como um rebanho que pula para dentro do açougue – o banco de carne.  O tumulto é grande. Não há escapatória – a não ser com um pulo audacioso pelas costas!
    MÃE. O seu sobretudo está rasgado nas costas.
    CAIXA. E veja meu chapéu! Cai bem para um vagabundo!
    SEGUNDA FILHA. O forro está aos pedaços.
    CAIXA.  Vasculhe os meus bolsos – o da direita – e o da esquerda!

    PRIMEIRA FILHA (tira um punho falso).
    SEGUNDA FILHA (faz o mesmo)
    CAIXA. O que encontraram?
    AS DUAS FILHAS. Seus punhos falsos.
    CAIXA. Sem os botões. Os botões estão aqui. Um triunfo do sangue frio! – – Paletó – Chapéu – quem se arrisca não sai ileso quando pula pelas costas! Eles  agarram - cravam suas unhas! Obstáculos e barreiras – Deve haver ordem. Igualdade para todos! Mas um salto considerável – sem hesitar – e você está fora do curral – desencarrilhado. Apenas um ato radical e cá estou eu! Atrás de mim, nada.  E diante de mim? (Ele passa os olhos pela sala.)
    ESPOSA (olha fixamente para ele).
    MÃE (baixinho) Ele está doente.
    ESPOSA (decidida até a porta da direita).
    CAIXA (abre a porta. Dirige-se a uma das filhas). Apanhe meu casaco. (Filha sai por trás, pela esquerda, e volta com uma jaqueta de veludo abotoada. Ele veste.) Minhas pantufas. (A outra filha traz as pantufas.) Meu gorrinho. (Filha volta com gorro bordado.) Meu cachimbo.
    MÃE. Não deves fumar, já que –
    ESPOSA (acalma a mãe às pressas). – Quer que eu acenda?
    CAIXA (já todo vestido com as roupas de ficar em casa – acomoda-se confortavelmente em seu lugar na mesa). Acenda.
    ESPOSA (sempre zelosa, totalmente dedicada a ele). Está obstruído?
    CAIXA (ocupado com o cachimbo). Preciso levá-lo para uma limpeza de rotina. É provável que haja restos de tabaco acumulados no tubo. O fluxo nunca está livre de resistências internas! Preciso mesmo dar um jeito nisso.
    ESPOSA. Levo embora o cachimbo?
    CAIXA. Não, fica. (Solta volumosas nuvens de fumaça). Aceitável.  (Para a segunda filha). Toque.
    SEGUNDA FILHA (obedecendo ao sinal da esposa, senta-se ao piano e toca.)
    CAIXA. Que composição é essa?
    SEGUNDA FILHA (sem fôlego). Wagner.
    CAIXA (faz um sinal afirmativo com a cabeça. Dirige-se à primeira filha). Você está costurando – remendando – cerzindo?
    PRIMEIRA FILHA (senta-se rapidamente). Estou arrematando.
    CAIXA. Prática. – E você, mamãe?
    MÃE (tomada pela angústia geral). Estava cochilando um pouco.
    CAIXA. Tranqüila.
    MÃE. É, minha vida tornou-se tranqüila.
    CAIXA (para a esposa). E você?
    MULHER. Eu vou assar as costelas.
    CAIXA (faz que sim com a cabeça). A cozinha!
    ESPOSA. Vou assar a sua agora.
    CAIXA (como antes). A cozinha!
    ESPOSA (sai).

    CAIXA (para a primeira filha). Escancare as portas.
    PRIMEIRA FILHA. (empurra as portas para trás: à direita, está a esposa na cozinha, ocupada com o fogão; à esquerda, quarto de dormir com ambas as camas.)

    ESPOSA (na porta). Você está com calor? (Volta para o fogão.)

    CAIXA (olhando ao redor). Velha mãe na janela. Filhas bordando na mesa – tocando Wagner. Esposa cuidando da cozinha. Cercada por quatro paredes – a vida em família. Belo aconchego da vida social. Mãe – filho – criança. Reunidos. A magia familiar tece sua teia. Sala com mesa e luminária de teto. Piano à direita. Fogão de azulejos. Cozinha, o alimento de todos os dias. Pela manhã, café, ao meio-dia, costelas. Dormitório – Camas, deita e levanta. Magia familiar. Por fim – de costas – duro e branco. A mesa será empurrada para a parede – um caixão amarelo estende-se enviesado, com acessórios acopláveis – na lâmpada, algum papel crepom de luto - Piano em desuso durante um ano. – – –
    SEGUNDA FILHA (pára e sai correndo para a cozinha, soluçante).

    ESPOSA (na soleira da porta.). Ela ainda está praticando a nova composição.
    MÃE. Por que ela não toca a Dama Branca?
    CAIXA. (apaga o cachimbo. Começa a trocar de roupa novamente).
    ESPOSA. Você vai ao banco? Assuntos de negócio?
    CAIXA. No banco – assuntos de negócio - não.
    ESPOSA. Para onde você vai agora?
    CAIXA. Pergunta difícil, mulher. Eu desci de árvores destroçadas pelo vento para buscar uma resposta. Aqui, me apresentei primeiro. Era evidente! Tudo aqui é uma maravilha – não subestimo suas incontestáveis vantagens, mas nada resiste à prova definitiva. A resposta não está aqui. E com isso o caminho é indicado. Recebo uma clara negativa. (Ele acaba de colocar o traje do início).
    ESPOSA (aturdida). Homem, como você está desfigurado!
    CAIXA. Um vagabundo. Eu já disse antes. Não ralhe comigo! Antes um andarilho aos trapos na rua, do que uma rua sem andarilhos.
    ESPOSA. Vamos almoçar.
    CAIXA. Estou sentindo o cheiro das costelas.
    MÃE. Antes do almoço você quer – ?
    CAIXA. Um estômago cheio dá sono.
    MÃE (repentinamente agita os braços no ar, cai para trás).
    PRIMEIRA FILHA. A vovó...

    SEGUNDA FILHA (da cozinha). Vovó – (ambas caem de joelhos.)
    ESPOSA (fica rígida).
    CAIXA (aproxima-se da poltrona). E morre porque uma única vez alguém vai embora antes do almoço! (Ele observa a morta.) Dor? Aflição? Choradeira? Desvanecimento? Serão os laços amarrados de forma tão estreita  –  que quando se partem, transformam-se em um sofrimento insuportável? Mãe –  filho? (Ele retira as notas dos bolsos e pesa nas mãos, balança a cabeça e as guarda de volta.) Nenhuma paralisia total em meio à dor – nenhuma comoção nos olhos. Olhos secos  – pensamentos que continuam trabalhando. Não há tempo a perder se quero atingir resultados legítimos! (Ele deixa sua carteira desbotada em cima da mesa.) Use. É um dinheiro ganho de forma honesta. É importante que você lembre. (Ele sai pela direita.)

    ESPOSA (continua sem se mexer).

    GERENTE (vem pela porta da direita). Seu marido está em casa? Ele veio para cá? Infelizmente, preciso dar à senhora a triste notícia de que seu marido provocou um rombo de caixa. Descobrimos seu delito há poucas horas. Trata-se de uma quantia de sessenta mil marcos, depositados pela Cooperativa Habitacional. Ainda não fiz queixa porque tinha esperanças que ele se arrependesse e voltasse atrás. – Esta é minha última tentativa. Vim pessoalmente. – Seu marido não esteve aqui? (Ele olha em volta e nota o casaco guardado, gorro, cachimbo, etc. Todas as portas abertas.) Ao que tudo indica – (seu olhar se fixa no grupo que está na janela, acena para eles com a cabeça.) Vejo que as coisas já estão bem adiantadas. Nesse caso... (Ele dá de ombros, coloca o chapéu.) Só me resta deixar um pesar sincero e pessoal – fora isso, as conseqüências. (Sai.)

    AMBAS AS FILHAS (aproximam-se da esposa). Mãe –
    ESPOSA (afasta-se). Não gritem nos meus ouvidos! Tirem os olhos de mim! O que querem de mim? Quem são vocês? Essas caretas – essas caras de macaco – o que eu tenho a ver com vocês? (Joga-se sobre a mesa) Meu marido me abandonou!!
    AMBAS AS FILHAS (dão as mãos, assustadas).

     

    Palácio dos Esportes. Corrida dos Seis Dias. Luz de holofote. Em meio ao vapor, rudimentar ponte de madeira suspensa. Os senhores judeus no papel de árbitros vêm e vão. Não há como distinguir nenhum deles; pequenas figuras semelhantes em movimento, vestindo smokings, com desbotados chapéus de seda na cabeça e binóculos pendurados no cinto. Ruído de rodas sobre um tabuão. Assobios, ganidos, resmungos concentrados da aglomeração de espectadores, vindos do alto e do fundo. Banda de música.

    UM CAVALHEIRO (chegando). Está tudo pronto?
    UM CAVALHEIRO. Veja você mesmo.
    UM CAVALHEIRO (pela vidraça). As plantas –
    UM CAVALHEIRO. O que têm as plantas?
    UM CAVALHEIRO.  Sem dúvida.
    UM CAVALHEIRO. Qual o problema com as plantas?
    UM CAVALHEIRO.  Quem as arrumou assim?
    UM CAVALHEIRO. O senhor tem razão.
    UM CAVALHEIRO. Loucura!
    UM CAVALHEIRO. Ninguém ficou responsável pelo arranjo das plantas?
    UM CAVALHEIRO. Simplesmente ridículo.
    UM CAVALHEIRO. O responsável deve estar cego.
    UM CAVALHEIRO. Ou dormindo.
    UM CAVALHEIRO. Esta é a única explicação possível.
    UM CAVALHEIRO. Dormindo? Do que vocês estão falando? Estamos recém entrando na quarta noite.
    UM CAVALHEIRO. Os vasos devem ser arrastados mais para o lado.
    UM CAVALHEIRO. O senhor pode cuidar disso?
    UM CAVALHEIRO. Para bem perto da parede.
    UM CAVALHEIRO. A visão deve ficar livre para a pista.
    UM CAVALHEIRO. Do camarote também.
    UM CAVALHEIRO. Eu te acompanho. (Todos saem.)

    UM CAVALHEIRO. (chega. Dispara um tiro de pistola. Sai).

    DOIS CAVALHEIROS (chegam com dois megafones pintados de vermelho).
    UM DOS CAVALHEIROS. De quanto é o prêmio?
    O OUTRO CAVALHEIRO. Oitenta marcos. O primeiro prêmio é de cinquenta marcos, e o segundo, de trinta.
    UM DOS CAVALHEIROS. Três voltas. Mais que isso, não.  Se não esgotamos os ciclistas.
    O OUTRO CAVALHEIRO (fala no megafone). Oferecido do bar prêmio de oitenta marcos, ao final de três voltas. Primeiro prêmio: cinquenta marcos. Segundo prêmio: trinta marcos.

    (Aplausos.)

    MAIS CAVALHEIROS (chegam, um com uma bandeira vermelha).
    UM CAVALHEIRO. Dê a largada.
    UM CAVALHEIRO. Ainda não. O número 7 está trocando a equipe.
    UM CAVALHEIRO. Agora!
    UM CAVALHEIRO (acena com a bandeira vermelha).

    (O barulho aumenta. Aplausos e assobios.)

    UM CAVALHEIRO. Os mais fracos deveriam ganhar de vez em quando.
    UM CAVALHEIRO. É bom que os grandes poupem energia.
    UM CAVALHEIRO. A noite será longa para eles.
    UM CAVALHEIRO. O alvoroço entre os competidores é monstruoso.
    UM CAVALHEIRO. Dá para imaginar.
    UM CAVALHEIRO. Fique atento, esta noite é decisiva.
    UM CAVALHEIRO (dando de ombros). Os americanos ainda estão em forma.
    UM CAVALHEIRO. Nossos alemães vão cansá-los.
    UM CAVALHEIRO. Daí valeria a pena ter vindo.
    UM CAVALHEIRO (pela vidraça). Agora está nítido do camarote. (todos saem, menos o cavalheiro com o megafone.)

    UM CAVALHEIRO (com uma nota). O resultado.
    O CAVALHEIRO (no megafone). Prêmio do bar: cinquenta marcos para o número onze, trinta marcos para o número quatro.

    (Fanfarra.
    Assobios e burburinho.
    A ponte está vazia).

    (Um cavalheiro chega com o caixa. Caixa de casaca, capote, cartola, pelicas; barba aparada, cabelo arrumado.)

    CAIXA. Explique-me o sentido de tudo isso –
    O CAVALHEIRO. Eu apresento o senhor para eles.
    CAIXA. Meu nome não vem ao caso.
    O CAVALHEIRO. Mas o senhor tem o direito de ser apresentado à Direção.
    CAIXA. Prefiro permanecer incógnito.
    O CAVALHEIRO. Mas o senhor é um apreciador do nosso esporte.
    CAIXA. Eu não entendo nada desse esporte. O que eles fazem lá embaixo? Eu vejo um círculo e uma linha colorida que se move como uma cobra. Às vezes outra linha se mistura a essa e uma outra pára de se mover. Por quê?
    O CAVALHEIRO. Os corredores competem aos pares. Enquanto um anda –
    CAIXA. O outro dorme?
    O CAVALHEIRO. Ele é massageado.
    CAIXA. E é isso que se chama Corrida de Seis Dias?
    O CAVALHEIRO. Como?
    CAIXA. Poderia se chamar também Sono de Seis Dias. Uma das partes dorme o tempo todo.
    O CAVALHEIRO (chega). O acesso à ponte só é permitido aos administradores da corrida.
    O CAVALHEIRO. Este cavalheiro oferece um prêmio de mil marcos.
    O OUTRO CAVALHEIRO. Permita que eu me apresente.
    CAIXA. De modo algum.
    O PRIMEIRO CAVALHEIRO. O cavalheiro quer permanecer anônimo.
    CAIXA. Indefinido.
    O PRIMEIRO CAVALHEIRO. Eu estava explicando a ele o esporte.
    CAIXA. Pois é. O senhor não acha engraçado?
    O SEGUNDO CAVALHEIRO.  Como assim?
    CAIXA. Esse Sono de Seis Dias.
    O SEGUNDO CAVALHEIRO. Bem, são mil marcos por quantas voltas?
    CAIXA. A seu critério.
    O SEGUNDO CAVALHEIRO. Quanto pela primeira?
    CAIXA. A seu critério.
    O SEGUNDO CAVALHEIRO. Oitocentos e duzentos. (No megafone.) Um cavalheiro que deseja permanecer anônimo oferece prêmio por dez voltas a serem corridas a partir de agora. Oitocentos pelo primeiro lugar, duzentos pelo segundo. Mil marcos ao todo.

    (Muito barulho.)

    O PRIMEIRO CAVALHEIRO. Pois bem, me diga uma coisa... Se a competição é para o senhor apenas objeto de ironia, por que oferecer um prêmio de mil marcos?
    CAIXA. Porque o efeito é fantástico.
    O PRIMERO CAVALHEIRO. O efeito sobre a velocidade dos ciclistas?
    CAIXA. Tolice.

    O CAVALHEIRO (chegando). O senhor é o cavalheiro que ofereceu o prêmio de mil marcos?
    CAIXA. Em ouro.
    O CAVALHEIRO. Isso causaria muito transtorno.
    CAIXA. O pagamento? Então dê só uma olhada. (Ele tira um rolo para fora, desata com violência, despeja o conteúdo em uma das mãos, confere o invólucro vazio, joga fora, conta com habilidade as moedas de ouro na palma da mão.) Além do mais, assim alivio meus bolsos.
    O CAVALHEIRO. Caro cavalheiro, o senhor é um especialista no ramo!
    CAIXA. Apenas um detalhe, caro senhor. (ele alcança a quantia)
    Fique com isso.
    O CAVALHEIRO. Aceito com sinceros agradecimentos.
    CAIXA. Apenas o que lhe é devido.

    UM CAVALHEIRO (chegando). Onde está o cavalheiro? Apresente-se –
    CAIXA. Jamais.
    UM CAVALHEIRO (com a bandeira vermelha). Vou dar a largada.
    UM CAVALHEIRO. Agora os grandes vão dar no couro!
    UM CAVALHEIRO. Todos os bons vão participar!
    O CAVALHEIRO (acenando com a bandeira). Foi dada a largada. (Ele abaixa a bandeira.)

    (Bastante gritaria)

    CAIXA (pegando a nuca de dois cavalheiros e inclinando suas cabeças para trás). Agora vocês terão a resposta! Olhem para cima!
    UM CAVALHEIRO. Acompanhe as viravoltas da disputa lá embaixo.
    CAIXA. Que infantilidade! Um será o primeiro, porque o outro dirigiu pior. – Lá em cima é que se dá a magia! Em três fileiras de platéia – uma em cima da outra, lotadas – Lá se dá o efeito, aos gritos! Na primeira fileira – o público mais sofisticado, aparentemente eles ainda se contém. Apenas olhares. Mas que olhares! Longos – circulares – fixos. Subindo um pouco, os corpos já se movimentam. Já se escutam os gritos – A fileira do meio! – Lá de cima caem as últimas máscaras. Berros fanatizados. Nudez esganiçada.  A galeria da paixão! – Observe: o grupo. Cinco vezes enlaçados. Cinco cabeças sobre um ombro. Acoplados a um único peito choroso movimentam-se cinco pares de braços. Um único homem é o núcleo. Ele é esmagado – empurrado para fora –  lá cai seu chapéu engomado – descendo devagar na névoa – em direção à fileira do meio, sobre o busto de uma senhora. Ela não entende. O chapéu repousa deliciosamente. Deliciosamente. Ela nunca notará o chapéu... Irá com ele para cama! Durante toda sua vida, carregará o chapéu sobre o busto!
    O CAVALHEIRO. O belga está acelerando.
    CAIXA. A fileira do meio uiva. O chapéu selou a ligação. A senhora o esmagou contra o parapeito. Seu busto desenvolve grandes calos. Bela senhora! Você tem que ir ao parapeito e marcar seu busto. Não há remédio. Aceite! Não adianta resistir. Em meio á aglomeração você será pressionada contra a parede e precisará dar o que é. O que realmente é – sem choramingo!
    O CAVALHEIRO. Ela é conhecida do senhor?
    CAIXA. Veja: os cinco lá de cima empurram seu núcleo para além da barreira – ele está suspenso – cai – ali está ele – desliza para a primeira fila. Onde ele está? Onde foi sufocado? Apagado – absorvido sem deixar rastros. Sem interesse. –  Um espectador – um acidentado –  um acidente que não significa nada entre milhares de outros!
    UM CAVALHEIRO. O alemão está avançando.
    CAIXA. A primeira fileira está em alvoroço. O sujeito o alcançou. O controle que vá para o inferno! Os fraques se agitam. As camisas arrebentam. Botões crepitam por todos os lados. Barbas se descolam de lábios partidos, dentaduras se chocam.  Em cima, no meio, embaixo; todos se misturam. Um só uivo que vem de todas as fileiras – indistinguível. Indistinguível. Isso é o que se alcança!
    O CAVALHEIRO (virando-se). O alemão conseguiu. O que o senhor me diz?
    CAIXA. Bobagem.

    (Barulho terrível. Palmas.)

    UM CAVALHEIRO. Que avanço fabuloso.
    CAIXA. Que idiotice fabulosa!
    UM CAVALHEIRO. Vamos confirmar o resultado no escritório. (Todos saem).

    CAIXA (detendo o cavalheiro). O senhor ainda tem alguma dúvida?
    O CAVALHEIRO. Os alemães estão na frente...
    CAIXA. Isto fica em segundo plano, se o senhor não se importa. (Apontando para cima.) Este aqui sim é um fato esmagador. É a condensação última das factibilidades. Isto aqui avança para um vertiginoso resultado. Uma fusão desde a primeira fila até a galeria. Como resposta, em ebulição, o núcleo: Paixão! Dominação – diferenças se esvaem. Disfarces com toque de nudez: Paixão! – Chegar aqui é vivência pura.  Portas – Portões desaparecem como vapor. Soam os trombones e desmoronam-se as muralhas. Nenhuma resistência – nenhuma castidade – nenhuma maternidade – nenhuma infantilidade: Paixão! É isso. É isso. Vale a pena. Vale a pena ter pego. –  Isso traz de badeja as diversas camadas do lucro!

    UM CAVALHEIRO (chegando). O serviço ambulatorial está funcionando perfeitamente.
    CAIXA.  O sujeito caído foi triturado?
    UM CAVALHEIRO. Pisoteado.
    CAIXA. Há sempre morte onde a vida é febril.
    UM CAVALHEIRO (no megafone). Resultado do prêmio oferecido pelo desconhecido: oitocentos marcos para o número dois e duzentos marcos para o número um.

    (Aplausos enlouquecidos. Fanfarra.)

    UM CAVALHEIRO. As equipes estão exaustas.
    UM CAVALHEIRO. Nota-se que o ritmo decaiu.
    UM CAVALHEIRO. Devemos pedir à administração que  acalme as coisas na pista.
    CAIXA. Ofereço um novo prêmio!
    UM CAVALHEIRO. Mais tarde, meu senhor.
    CAIXA. Não quero que o momento seja interrompido!
    UM CAVALHEIRO. Mas o momento é perigoso para os ciclistas.
    CAIXA. Não me perturbe com essa molecada. O público está delirando. Deve-se tirar proveito disso, provocar ainda mais os ânimos. Cinquenta mil marcos!
    UM CAVALHEIRO. Isso é sério?
    UM CAVALHEIRO. Quanto?
    CAIXA. Dou tudo que tenho.
    UM CAVALHEIRO. Este é um valor de premiação inédito!
    CAIXA. Inédito será o efeito. Alerte os serviços ambulatoriais de todas as fileiras.
    UM CAVALHEIRO. Aceitamos o prêmio. A disputa deve começar quando o camarote for ocupado.
    UM CAVALHEIRO. Uma beleza!
    UM CAVALHEIRO. Uma maravilha!
    UM CAVALHEIRO. Esta sim é uma visita que se faz valer.
    CAIXA. O que quer dizer isso? Camarote ocupado?
    UM CAVALHEIRO. Estamos preparando as condições no escritório. Pensamos em trinta mil para o primeiro, quinze mil para o segundo e cinco mil para o terceiro.
    UM CAVALHEIRO. Isso vai acabar com os times!
    UM CAVALHEIRO. Desse jeito a corrida está praticamente encerrada.
    UM CAVALHEIRO. Em todo caso: depois que os camarotes estiverem ocupados. (Todos saem.)

    (Moça do Exército da Salvação chega. Risadas dos espectadores. Apitos. Gritos.)

    MOÇA (oferecendo a revista). O Grito de Guerra. Dez pfennigs, meu senhor.
    CAIXA. Outra hora.
    MOÇA. O Grito de Guerra, meu senhor.
    CAIXA. Quem você quer convencer com esse jornaleco?
    MOÇA. O Grito de Guerra, meu senhor.
    CAIXA. Você chegou tarde demais, aqui a batalha já está em pleno andamento.
    MOÇA (com a latinha). Dez pfennigs, meu senhor.
    CAIXA. Queres atiçar a guerra com dez pfennigs?
    MOÇA. Dez pfennigs, meu senhor.
    CAIXA. Eu pago aqui as despesas da guerra com cinquenta mil.
    MOÇA. Dez pfennigs.
    CAIXA. Que mixaria! Eu subvenciono apenas grandes causas.
    MOÇA. Dez pfennigs.
    CAIXA. Só tenho ouro comigo.
    MOÇA. Dez pfennigs.
    CAIXA. Ouro -
    MOÇA. Dez -
    CAIXA. (berra para ela no megafone). Ouro – Ouro – Ouro!
    MOÇA (sai).

    (Gargalhadas dos espectadores. Aplausos. Muitos cavalheiros chegam.)

    UM CAVALHEIRO. Quer o senhor mesmo anunciar seu prêmio?
    CAIXA. Não, permaneço no fundo, indefinido. (dá a ele o megafone). Agora fale o senhor. Comunique o senhor a surpresa final.
    UM CAVALHEIRO (pelo megafone). Um novo prêmio foi oferecido pelo mesmo cavalheiro anônimo. (Gritos de “bravo”.) Ao todo, cinquenta mil marcos. (Gritos atordoados.) Cinco mil para o terceiro (Gritos.). Quinze mil marcos para o segundo (Aumentam os gritos.). Para o primeiro, trinta mil marcos (Êxtase.)
    CAIXA (parado no canto, balançando afirmativamente a cabeça). Estamos chegando lá. Está emergindo! São realizações. O uivo choroso do furacão de primavera.  Fluxo ondulante de humanidade. Desacorrentados – livres. Cortinas para cima –  pretextos  para baixo. Humanidade. Humanidade livre. Alto e baixo – homem. Sem corrente – sem camadas – sem classe. A interminável e errante libertação da dominação e  do assalariamento na paixão. Puro não – mas livre! – Esta será a redenção da minha audácia! (Ele tira o maço de dinheiros para fora) Dado com prazer – quitado sem demora!

    (De repente, silêncio.
    Hino nacional. Os cavalheiros tiram seus chapéus de seda e baixam a cabeça.)

    UM CAVALHEIRO (para o caixa). O senhor poderia me dar o dinheiro, para eu sinalizar o início da corrida?
    CAIXA. O que significa isso?
    O CAVALHEIRO. O que, meu senhor?
    CAIXA. Este silêncio súbito, de repente, em cima e embaixo.
    O CAVALHEIRO. Nem tão súbito. Vossa alteza chegou ao camarote!
    CAIXA. Vossa alteza – no camarote – –
    O CAVALHEIRO. O prêmio chegou em boa hora!
    CAIXA. Obrigado, mas não quero desperdiçar meu dinheiro!
    O CAVALHEIRO. O que isso quer dizer?
    CAIXA. Que é muito dinheiro para alimentar essa molecada corcunda.
    O CAVALHEIRO. O senhor poderia me explicar –
    CAIXA. Os ânimos em chamas, agora apagados pela pisada da bota de verniz  na perna de vossa alteza! O senhor pensa que eu sou tão maluco para atirar dez pfennigs aos cães? Mesmo dez pfennigs seria demais! Um pontapé contra o rabo entre as pernas, isso seria o prêmio adequado agora!
    O CAVALHEIRO. O prêmio foi anunciado.  Vossa alteza aguarda no camarote. O público aguarda solene! O que o senhor quer dizer?
    CAIXA. Se o senhor não entende minhas palavras – então, compreenderá imediatamente com este golpe esclarecedor! (Dá um tapa com força no chapéu de seda, que cai nos ombros do cavalheiro. Sai.)

    (Hino. Silêncio. Todos inclinados em posição de respeito na ponte)

     

    Casa de Baile. Quarto reservado.
    Ainda escuro.
    Volume baixo: orquestra tocando ritmos dançantes.

    GARÇOM (abre a porta, acende a luz vermelha).
    CAIXA (Fraque, capa, cachecol, bengala de bambu com braço de ouro.)
    GARÇOM. Está bom aqui?
    CAIXA. Muito.
    GARÇOM (apanha a capa).
    CAIXA (diante do espelho).
    GARÇOM. Talheres para quantas pessoas?
    CAIXA. Vinte e quatro. Estou esperando minha avó, minha mãe, minha esposa e mais algumas tias. Estou celebrando a Confirmação de minha filha.
    GARÇOM (espantado).
    CAIXA (para ele, no espelho). Asno. Dois! Se não por que eu escolheria esta mesa discreta e com luz fraca?
    GARÇOM. Que marcas o senhor prefere?
    CAIXA. Deixe isso comigo, bendito cafetão. Eu mesmo escolho as flores que cato do chão, botão ou rosa – curta ou delgada. Não vou precisar dos seus impagáveis serviços. São mesmo impagáveis – ou o senhor cobra alguma tarifa?
    GARÇOM. A marca de champanha preferida do senhor é...
    CAIXA (pigarreia). Grand Marnier.
    GARÇOM. Este é o conhaque que vem depois do champanha, senhor.

    CAIXA. Fica ao seu critério.
    GARÇOM. Duas garrafas de Pommery. Dry?
    CAIXA. Sim, duas, como o senhor disse.
    GARÇOM. Extra-Dry?
    CAIXA. Dois bastam para começar... Ou três garrafas extras pela sua discrição? Pode anotar.
    GARÇOM (com o cardápio). E o menu?
    CAIXA. Esplêndido! Esplêndido!
    GARÇOM. Poulet grillé? Steak de veau truffé? Parfait de foie gras en croûte? Salade coeur de laitue?
    CAIXA. Esplêndido! Do início ao fim. Simplesmente esplêndido!
    GARÇOM. Perdão?
    CAIXA (pegando na ponta do nariz dele). O esplêndido é o ápice de todas as coisas. Também das suas panelas e frigideiras. A mais delicada das delicadezas. O cardápiodos cardápios. Como guarnição, fatos marcantes. Isso é assunto seu, meu amigo, eu não sou o cozinheiro.
    GARÇOM (coloca um cardápio enorme sobre a mesa). Em vinte minutos será servido. (Ele ordena os copos e talheres.)

    (Pela fenda da porta, cabeças com máscaras de seda.)

    CAIXA (no espelho, ameaçando com o dedo). Só esperem, mariposas, vou pegá-las bem embaixo da luz incandescente. Aí vamos discutir esse ponto. Quando estivermos lado a lado. (Balança a cabeça afirmativamente.)

    (Máscaras saem, às risadinhas.)

    GARÇOM (Pendura um cartaz escrito “reservado” na porta. Sai).

    CAIXA (tira a cartola, apanha um cigarro de um estojo dourado, acende.). À luta,  toureiro. Toureiro –  O que não passa pela nossa cabeça –  O homem está carregado de tudo isso. Tudo – simplesmente tudo. Toureiro – Carmen. Caruso. Lê-se uma bobagem em algum lugar, e ela permanece. É acumulada. Eu poderia neste momento até falar sobre as negociações da estrada de ferro de Bagdá. O príncipe da Romênia casa com a segunda filha do Czar. Tatiana. Vamos. Podem casar. Agradável cama com dossel. O povo precisa de príncipes. Tat – tat – tiana. (Sai, balançando a bengala de bambu.)

    GARÇOM (com garrafas e balde de gelo; desarrolha e serve. Sai.)

    CAIXA (perseguindo uma máscara feminina; arlequim com losangos em amarelo e vermelho em um macacão de menino, apertado e aberto em cima.) Mariposa!
    MÁSCARA (correndo ao redor da mesa). Champanha! (ela empina as duas taças de champanha e cai no sofá.) Champanha!
    CAIXA (enche a taça novamente). Pólvora líquida! Carregue seu corpo losangular!
    MÁSCARA (bebe). Champanha!
    CAIXA. Os canhões estão prontos e preparados para a descarga!
    MÁSCARA. Champanha!
    CAIXA (afastando as garrafas). Vazio.  (Vai até a poltrona onde está a máscara.) Prestes a explodir!
    MÁSCARA (cai de costas, alcoolizada)
    CAIXA (sacode seus braços adormecidos). Anime-se, mariposa.
    MÁSCARA (desfaz-se).
    CAIXA. Levante-se, borboleta colorida.  Você lambeu o borbulhante mel amarelo. Abra suas asas! Envolva-me com elas. Enterre-me, cubra-me. Eu me meti em umas coisas que me afastaram da segurança – meta-se comigo.
    MÁSCARA (balbucia). Champanha.
    CAIXA. Não, meu pássaro do paraíso! Você já está carregada. Você está cheia.
    MÁSCARA. Champanha.
    CAIXA. Nada de bebidas. Mais uma e você fica inconsciente. E acaba com as belas possibilidades.
    MÁSCARA. Champanha.
    CAIXA. Ou não há nenhuma possibilidade? Então – vamos nos aprofundar; o que você tem?
    MÁSCARA. Champanha.
    CAIXA. Este sem dúvida você tem. Quer dizer: de mim. E eu, o que tenho de ti?
    MÁSCARA (adormece).
    CAIXA. Você vai dormir aqui? Ah, pequena diabinha! Para este tipo de gracejo me falta tempo. (Ele se levanta, enche um copo e atira no rosto dela.) De manhã cedo, quando o galo canta!
    MÁSCARA (dá um pulo). Porco!
    CAIXA. Um nome sugestivo! Infelizmente, não posso revidar. Então, máscara da grande família trombuda, saia do sofá!
    MÁSCARA. Você vai pagar por isso!
    CAIXA. Já paguei o bastante.
    MÁSCARA (sai).
    CAIXA (bebe champanha; sai).

    GARÇOM (chega, traz o caviar,  leva embora as garrafas vazias).

    CAIXA (chega com duas máscaras negras).
    PRIMEIRA MÁSCARA (batendo a porta). Reservada!
    SEGUNDA MÁSCARA (na mesa). Caviar!
    PRIMEIRA MÁSCARA (correndo para lá). Caviar!
    CAIXA. Negro como vocês. Comam. Enfiem goela abaixo. (Ele se senta entre as duas no sofá). Digam: caviar. Assobiem: champanha. Renuncio aos gracejos de vocês. (Ele serve, enche os pratos.) Vocês não precisam pronunciar uma única palavra. Nenhuma sílaba, nenhuma exclamação. Mudas como os peixes que desovaram este caviar negro no Mar Negro! Riam, resmunguem, mas não conversem. Não sai nada que presta de vocês. No máximo, saem do sofá. Já o esvaziei antes.
    MÁSCARAS (se olham, às risadinhas).
    CAIXA (agarrando a primeira). De que cor são estes olhos? Verdes – amarelos? (Para a outra.) Os teus azuis – vermelhos? Um jogo encantador de esferas nas fendas de seus olhos. Isso promete. Vamos lá. Eu ofereço um prêmio para a mais bela.
    MÁSCARAS (riem).
    CAIXA (para a primeira). Você é a mais bela. Resiste com veemência, mas espere só, logo vou arrancar tuas cortinas e aproveitar o espetáculo!
    MÁSCARA (desvencilha-se dele).
    CAIXA (para a outra). Você tem algo a esconder? Está dominada pela vergonha. Perdeu o prumo nesse salão de baile. Vagueia em busca de aventura. Pois encontrou a aventura que busca. Tire a máscara de seu leite e sangue!
    MÁSCARA (afasta-se dele).
    CAIXA. Alcancei a meta. Estou aqui sentado, tremendo – com o sangue revolvido, agora sim! - Agora vou pagar. (ele tira o pacote de notas para fora e reparte.) Bela máscara, porque você é bonita.  Bela máscara, porque você é bonita. (Ele cobre os olhos com as mãos.) Um – dois – três!
    MÁSCARAS (tiram as máscaras).
    CAIXA (olha – ri) Cubram-se  –  Cubram-se  – Cubram-se! (Ele corre ao redor da mesa) Criaturas monstruosas – Monstruosas – Monstruosas! Sumam daqui, agora – imediatamente – (Ele balança a bengala de bambu.)
    PRIMEIRA MÁSCARA. Mas você quer nos –
    SEGUNDA MÁSCARA. Quer nos –
    CAIXA. Quero vocês!
    MÁSCARAS (saem).

    CAIXA (abana-se, toma champanha).  Rameiras horrorosas! (Sai.)

    GARÇOM (com garrafas novas. Sai).

    CAIXA (escancara a porta, dançando com uma Pierrette de saias até os pés. Deixa-a no meio da sala e se joga no sofá). Dance!
    MÁSCARA (permanece parada).
    CAIXA. Dance. Faça suas piruetas. Dance, dance! Gracejo não vale. Boniteza não conta. Dança é isso,  virar – girar. Dança. Dança. Dança!
    MÁSCARA (vai até a mesa).
    CAIXA (rechaçando) Sem pausa. Sem interrupção. Dance!
    MÁSCARA (permanece parada).
    CAIXA. Por que não pula? Sabe o que são dervixes? Humanos dançantes. Humanos na dança – Cadáveres sem dança.  Morte e dança – nos dois extremos da vida. No meio –

    (Entra a moça do Exército da Salvação.)

    CAIXA. Aleluia!
    MOÇA. O Grito de Guerra.
    CAIXA. Dez pfennigs.
    MOÇA (estende a latinha).
    CAIXA. Quando você acha que eu vou cair na sua latinha?!
    MOÇA. O Grito de Guerra.
    CAIXA.  Realmente espera isso de mim?!
    MOÇA. Dez pfennigs.
    CAIXA. Quando?
    MOÇA. Dez pfennigs.
    CAIXA. Você vai se dependurar no regaço da minha casaca?
    MOÇA (sacode a latinha).
    CAIXA. E eu te sacudo para longe!
    MOÇA (sacode).
    CAIXA. Então – (para a máscara) Dance!
    MOÇA (sai).

    MÁSCARA (chega no sofá).
    CAIXA. Por que você está sentada no canto do salão e não dança no meio? Você me chamou a atenção. Todas dançam e você continua aí quieta. Por que está usando saias enquanto todas as outras se vestem como rapazinhos franzinos?
    MÁSCARA. Eu não danço.
    CAIXA. Não dança como as outras?
    MÁSCARA. Não sei dançar.
    CAIXA. Ah, não no ritmo da música – compassadamente. Isso é uma tolice. Você conhece outras danças. Você esconde algo embaixo da roupa – teus saltos peculiares que não podem ser encaixados em passos e compassos. Giros rápidos. Esta é a sua especialidade! (empurrando tudo que está na mesa para o tapete.) Aqui está seu palco. Pule. No estreito limite desta mesa, tumultos sem limites! Pule. Salte do tapete. Sem esforço. Erguida pelos espirais que amortecem teus ossos. Pule. Mova os calcanhares! Arqueie as coxas. Faça sua saia flutuar e mostre suas pernas bailairinas!
    MÁSCARA. (aninha-se junto a ele, no sofá). Não sei dançar.
    CAIXA. Você açoita minha excitação! Não sabe do que se trata. Saberás agora. (ele mostra as notas para ela) Trata-se de tudo ou nada!
    MÁSCARA (baixa as mãos até à perna). Não posso.
    CAIXA (pula). Uma perna de pau! (Ele apanha o balde de gelo e vira sobre ela). Deve dar brotos! Estou regando!
    MÁSCARA.  Agora o senhor vai ver uma coisa!
    CAIXA. Eu quero ver uma coisa!
    MÁSCARA. Espere bem aqui! (Sai.)

    CAIXA (deixa uma nota de dinheiro em cima da mesa, apanha a capa e a bengala, sai apressado).

    (Cavalheiros de casaca chegam.)

    UM CAVALHEIRO. Onde está o tipo?
    UM CAVALHEIRO. Queremos examinar o companheiro mais de perto.
    UM CAVALHEIRO. Primeiro nos levou as garotas –
    UM CAVALHEIRO. Quis impor-se com champanha e caviar –
    UM CAVALHEIRO. Depois ofender –
    UM CAVALHEIRO. Vamos dar um jeito nele.
    UM CAVALHEIRO. Onde ele se esconde?
    UM CAVALHEIRO. Fugiu!
    UM CAVALHEIRO. Deu no pé!
    UM CAVALHEIRO. O cavalheiro pressentiu.
    UM CAVALHEIRO (encontra a nota). Nota de mil.
    UM CAVALHEIRO. Céus!
    UM CAVALHEIRO. Cacife ele deve ter.
    UM CAVALHEIRO. Isto é para a conta?
    UM CAVALHEIRO. Ora, que nada, ele se mandou. Vamos sumir com essa nota de mil. (Guarda a nota.)
    UM CAVALHEIRO. Essa é a indenização.
    UM CAVALHEIRO. Ele nos tirou as garotas.

    UM CAVALHEIRO. Esquece as mulheres.
    UM CAVALHEIRO. Já estão bem bêbadas.
    UM CAVALHEIRO. Só vão é sujar nossas casacas.
    UM CAVALHEIRO. Vamos para um bordel e alugamos o inferninho por três dias. 
    VÁRIOS CAVALHEIROS. Bravo! Vamos dar o fora. Cuidado! O garçom está vindo.

    GARÇOM (com a bandeja cheia; consternado diante da mesa.)
    UM CAVALHEIRO. O senhor está procurando alguém?
    UM CAVALHEIRO. Continue seu serviço embaixo da mesa. (Risadas.)
    GARÇOM (surtando) O champanha – o jantar – o quarto reservado – nada foi pago. Quatro garrafas de Pommery – duas porções de caviar – dois acompanhamentos extras. – terei de arcar com tudo. Tenho mulher e filho. Fiquei quatro meses desempregado. Preciso cuidar de um pulmão fraco. Os senhores não podem me deixar nessa situação terrível!
    UM CAVALHEIRO. O que temos a ver com o seu pulmão? Mulher e filho todos nós temos. O que o senhor quer? Por acaso fomos nós que fugimos com o seu dinheiro?
    UM CAVALHEIRO. Que tipo de lugar é esse? Onde fomos nos meter?! Isto é uma biboca para cães caloteiros, isso sim! É para esse tipo de lugar que vocês atraem seus clientes? Somos clientes honestos, que pagam pelo que bebem! Ora, o que é isso!
    UM CAVALHEIRO (depois de ter virado a chave na porta). Procure mais uma vez em volta. Aqui também vai nosso pagamento! (Dá um empurrão nas costas do garçom, que havia se virado.)
    GARÇOM. (tonteia, cai no tapete).
    CAVALHEIROS (saem).

    GARÇOM (se levanta, corre até a porta, encontra-a trancada. Golpeia a madeira com os punhos.) Deixem-me sair - não precisam pagar - vou me atirar na água!

     

    Sede do Exército da Salvação – estendida até o fundo, começando pela cortina amarela com cruz costurada (preta, grande, do tamanho de um homem.) No palco, à direita, o banco da penitência – à esquerda, trombones e tímpanos. Fileiras de banco totalmente ocupadas. Por todo lado, lustres com emaranhados fios elétricos que prendem as lâmpadas. Na frente, a porta do salão. Música dos trombones e tímpanos. Aplausos e risos vindos do canto.

    SOLDADO (Moça – senta-se perto do baderneiro – um funcionário administrativo – pega a mão dele e cochicha algo).
    ALGUÉM (do outro canto). Chegue mais perto!
    SOLDADO (Moça – vai até ele; um jovem operário).
    OPERÁRIO. O que você quer?
    SOLDADO (olha para ela, sério, balançando a cabeça).

    (Risadas.)

    OFICIAL (mulher – surgindo no palco). Eu tenho uma pergunta para vocês.

    (Alguns pedem silêncio.)

    OUTROS (se divertindo).  Falem mais alto. Não falem.  Música. Tambor. Anjos trombonistas.
    UM HOMEM. Comecem.
    OUTRO.  Parem.
    OFICIAL. Por que todos se sentam no banco de baixo?
    UM HOMEM. Por que não?
    OFICIAL. Enchem o banco até o último assento. Um se esbarrando no outro.  No entanto, há um banco vazio sobrando.
    UM HOMEM. Não posso fazer nada.
    OFICIAL. Por que ficam aí embaixo, onde precisam se acotovelar e se espremer? Não é contraditório, se meter num empurra-empurra desses? Quem conhece seu vizinho? Você roça o joelho nele – e talvez ele esteja doente. Ele te olha nos olhos – e talvez esteja maquinando idéias assassinas. Sei disso, há muitos doentes e criminosos nesse salão. Doentes e criminosos entram e sentam perto de todos. Estou alertando vocês.  Protejam-se dos seus vizinhos. O banco de baixo está cheio de doentes e criminosos.
    UM HOMEM. A senhora por acaso se refere a mim?
    OFICIAL. Eu sei e aconselho: separem-se dos seus vizinhos, estou avisando. Doença e crimes também habitam esta cidade asfaltada. Quem de vocês não tem lepra? Suas peles podem ser brancas e lisas, mas seus olhares os denunciam. Vocês não têm olhos para ver – seus olhos estão abertos para traí-los. Vocês traem a si mesmos. Não estão mais livres da grande epidemia. O contágio é intenso. Vocês sentaram por tempo demais na pior das vizinhanças. Por isso, se não querem ser como seus vizinhos desta cidade asfaltada, saiam do banco. É o último aviso. Façam penitência! Façam penitência! Subam! Subam no banco de penitência! Subam no banco de penitência! Subam no banco de penitência!

    (Os trombones e tímpanos se posicionam.)

    MOÇA (conduz o caixa para dentro)
    CAIXA (em trajes de baile, chama certa atenção).
    MOÇA (indica ao caixa o lugar, senta-se junto a ele e lhe dá explicações).
    CAIXA (olha em volta achando graça).

    (A música pára. Zombeteiros e altos aplausos de bravo.)

    OFICIAL (subindo de novo) Deixem nosso camarada contar como veio parar no banco de penitência!
    SOLDADO (um homem mais jovem – sobe no palco).
    UM HOMEM. Até parece!

    (Risadas)

    SOLDADO. Quero contar a vocês sobre o meu pecado... Eu levei uma vida sem pensar na alma. Eu pensava apenas no corpo. Eu colocava meu corpo como que antes da alma e fazia ele ficar cada vez mais forte e largo. A alma estava encoberta atrás disso. Busquei com meu corpo atingir a fama e não sabia que assim estendia cada vez mais as sombras sob as quais murchava minha alma. Meu pecado foi o esporte. Eu o pratiquei sem sequer um momento de reflexão. Era vaidoso em relação à velocidade dos meus pés nos pedais, à força de meus braços no guidão. Esquecia tudo quando os espectadores faziam festa para mim. Redobrei meus esforços e fui o primeiro lugar em todas as batalhas travadas com o corpo. Meu nome foi estampado em todos os placares e tapumes.  Em milhões de folhetos coloridos. Fui campeão do mundo. Finalmente minha alma se dirigiu a mim. Ela perdeu a paciência. Fui derrubado em uma competição. Sofri apenas ferimentos leves. A alma queria me dar um tempo para que eu me convertesse.  A alma ainda me deixou forças para achar uma alternativa. Eu vim do banco lá de baixo até o banco de penitência. Lá minha alma teve sossego para falar comigo. E o que ela me contou, isso não posso dizer aqui. É lindo demais e minhas palavras são muito fracas para descrever. Vocês precisam vir até aqui e ouvir dentro de vocês mesmos. (sai pelo lado.)
    UM HOMEM (ri obsceno).
    VÁRIOS (pedem silêncio).
    MOÇA (baixinho, para o caixa). Você ouviu?
    CAIXA. Não me perturbe.
    OFICIAL. Vocês ouviram a história do nosso amigo. Não lhes parece sedutora? Pode-se ganhar algo mais valioso que a sua alma? E é muito fácil ganhá-la, já que ela está em vocês! É preciso apenar dar sossego a ela. Aí ela vai querer sentar serena ao lado de vocês. Neste banco, é onde ela mais gosta de se sentar.  Com certeza há entre nós alguém que pecou como nosso amigo. A esta pessoa, nosso amigo quis ajudar. Para ela, nosso amigo abriu os caminhos. Venha para o banco de penitência. Venha para o banco de penitência. Venha para o banco de penitência!

    (O silêncio predomina.)

    UM HOMEM. (forte, jovem, com um braço enfaixado, levanta de um canto do salão, atravessa o salão rindo, constrangido, e sobe no palco.)
    UM HOMEM (piada obscena).
    OUTRO (indignado). Quem é o mal-criado?
    O PIADISTA (levanta e procura a porta, envergonhado).
    UM HOMEM. Aí está o patife!
    SOLDADO (Moça – apressa-se até ele e o conduz de volta ao seu lugar).
    UM HOMEM. Não toque com tanta delicadeza!
    VÁRIOS. Bravo!
    AQUELE (no palco, começa desajeitado). A cidade asfaltada inaugurou um pavilhão. Eu corri no pavilhão de esportes! Sou ciclista. Participo da Corrida de Seis Dias. Na segunda noite, fui atropelado por outro corredor. Quebrei o braço. Tive que ser eliminado. A corrida continua – eu fico sossegado. Posso refletir sobre tudo, sossegado. Corri minha vida inteira sem reflexão nenhuma. Quero refletir sobre tudo – tudo. (Alto.) Sobre meus pecados quero refletir no banco de penitência! (Conduzido pelo soldado, desce da plataforma. Soldado permanece junto a ele.)
    OFICIAL. Uma alma foi ganha!

    (Ressoam trombones e tambores. Mesmo os soldados espalhados pelo salão levantaram e agora festejam, de braços abertos. A música pára.)

    MOÇA (para o caixa). Você viu só?
    CAIXA. A Corrida de Seis Dias.
    MOÇA. O que você está murmurando?
    CAIXA. Assunto meu. Assunto meu.
    MOÇA. Está pronto?
    CAIXA. Cale-se.
    OFICIAL (surgindo). Agora quero apresentar a vocês este camarada.
    UM HOMEM (pede silêncio).
    MUITOS. Silêncio!
    SOLDADO (Moça – surgindo). Qual pecado é o meu pecado? Vou contar a vocês sobre  mim, sem vergonha nenhuma. Eu vivia na casa dos meus pais, onde tudo ia de mal a pior. O homem – ele não era meu pai – bebia. Minha mãe entregava-se a homens refinados.  Eu ganhava muito dinheiro de minha mãe, tanto quanto quisesse. Do homem eu ganhava pancada, tanto quanto não queria. (Risos.) Ninguém cuidava de mim e eu menos ainda. Então, tornei-me uma perdida. Naquele tempo eu não sabia que a situação caótica em casa só era assim para que eu prestasse mais atenção na minha alma e me voltasse completamente para ela. Descobri isso em uma noite. Tinha um cavalheiro comigo e ele exigiu que eu escurecesse o quarto. Apaguei a luz, embora não fosse muito acostumada. Mais tarde, quando estávamos juntos, entendi o seu pedido, pois senti apenas o tronco de um homem sobre mim, cujas pernas haviam sido amputadas. Ele não queria que eu visse antes. Ele tinha pernas de pau, que desatou às escondidas. O horror tomou conta de mim e nunca mais me abandonou. Odiei meu corpo – minha alma era a única que eu ainda podia amar. Agora amo apenas minha alma. Ela é tão perfeita, ela é a coisa mais linda que já vi. Eu sei demais sobre ela. Eu sei tanto sobre ela, que nem posso contar a vocês! Quando perguntarem às suas almas, então elas dirão tudo – tudo a vocês. (Ela sai pelo lado.)

    (Silêncio no salão.)

    OFICIAL (surgindo). Vocês ouviram a história desta camarada. Sua alma se ofereceu a ela. Ela não a rejeitou. Agora ela conta sobre sua alma de lábios satisfeitos. Nenhuma alma se oferece a vocês? Deixe que ela venha!  Deixe que ela fale por vocês! Deixe que ela converse e conte! Neste banco ela não será interrompida. Venha para o banco de penitência! Venha para o banco de penitência!

    (Movimento nos bancos, todos olham ao redor.)

    COCOTE (envelhecida, bem na frente, começa a falar já de baixo, no salão). O que vocês pensam de mim, senhoras e senhores? Apenas entrei aqui porque me cansei correndo pelas ruas de um lado para o outro. Eu não faço cerimônia –  Não conheço este lugar. É a primeira vez que estou aqui. Vim parar aqui por puro acaso. (agora em cima.)  Mas, vocês se enganam, senhoras e senhores, se acham que eu vou esperar uma segunda chance! Obrigada. Obrigada pela impertinência. Já que estou aqui –  por favor – podem olhar à vontade, de cima a baixo, como quiserem. –  Observem com toda a minúcia de seus olhares, eu não me escondo nadinha.  Eu não faço cerimônia. Deste espetáculo aqui vocês não desfrutarão uma segunda vez. E também vão se decepcionar amargamente se acham que posso vender minha alma. Essa eu nunca vendi. Poderiam ter me oferecido altas quantias, mas minha alma não estava à venda. Eu agradeço a vocês, estimados senhores, por todos os elogios. Vocês não vão mais topar comigo nas ruas. Não tenho nem mesmo um minutinho para vocês, minha alma não me deixa mais em paz. Eu agradeço ao extremo, meus senhores, eu não faço cerimônia, de jeito algum. (Ela tirou o chapéu. O Soldado a conduz até o banco de penitência.)
    OFICIAL. Uma alma foi ganha!

    (Tambores e Trombones. Aplauso dos soldados.)

    MOÇA (para o caixa). Você ouviu tudo?
    CAIXA. Assunto meu. Assunto meu.
    MOÇA. O que você está resmungando?
    CAIXA. A perna de pau.
    MOÇA. Está preparado?
    CAIXA. Ainda não. Ainda não.
    UM (parado no meio da sala). Qual é o meu pecado? Quero ouvir o meu pecado!
    OFICIAL (entrando). Nosso camarada quer contar.
    ALGUNS (excitados). Sentados. Silêncio. Contar.

    SOLDADO (homem mais velho). Permitam que eu conte minha história. Não passa de  uma história corriqueira. Nada mais. Por isso, ela se tornou meu pecado. Eu tinha um lar acolhedor, uma família que me apoiava, um bom trabalho – comigo ia tudo sempre de modo corriqueiro. Quando, no fim da tarde, eu sentava à mesa entre os meus embaixo da luminária e fumava meu cachimbo, essa era a minha satisfação.  Nunca desejei uma mudança na vida. Mesmo assim ela veio.  Como tudo começou já nem sei – ou nunca soube. A alma bate silenciosa à sua porta. Ela sabe a sua hora e aproveita bem. Em todo caso, não foi possível ignorar sua advertência. Minha inércia, no início, se voltou toda contra ela, mas ela foi mais forte. Isso eu fui sentindo mais e mais. A alma sozinha podia me oferecer uma satisfação constante. E era esta a satisfação que eu buscava no meu dia-a-dia. Agora não a encontro mais na mesa, embaixo da luminária e com o longo cachimbo na boca, mas somente no banco de penitência. Esta é a minha história. Muito corriqueira. (Ele sai pelo lado.)
    OFICIAL (entrando). Nosso camarada contou a vocês  – –
    UM (já se aproximando). Meu pecado! (Em cima.) Eu sou pai de família. Tenho duas filhas. Tenho minha mulher. Tenho também minha mãe. Moramos todos em três cômodos. Entre nós é tudo muito agradável. Minhas filhas – uma toca piano – uma borda. Minha mulher cozinha. Minha mãe rega as plantas da janela. É tudo extremamente agradável entre nós.  É a próprio aconchego! É tudo magnífico conosco – esplêndido –  exemplar – prático – perfeito – – (Mudado.) É repugnante – horrível – fede – é miserável – completamente miserável com aquelas músicas ao piano – com os bordados – com a cozinha – com o regar das plantas. – (num rompante) Eu tenho uma alma! Eu tenho uma alma! Eu tenho uma alma. Eu tenho uma alma! (ele cambaleia até o banco da penitência.)

    OFICIAL. Uma alma foi ganha!

    (Tambores e trombones.
    Grande tumulto no salão.)

    MUITOS (em pé, depois dos tambores e trombones, mesmo os do banco em pé). Qual é o meu pecado? Qual é o meu pecado? Quero saber o meu pecado! Quero saber o meu pecado!
    OFICIAL (entrando). Nosso camarada vai contar a vocês.

    (Silêncio profundo.)

    MOÇA. Está vendo o camarada?
    CAIXA. Minhas filhas. Minha esposa. Minha mãe.
    MOÇA. Que é isso que você vive murmurando e sussurrando?
    CAIXA. Assunto meu. Assunto meu. Assunto meu.
    MOÇA. Você está pronto?
    CAIXA. Ainda não. Ainda não. Ainda não.
    SOLDADO (De meia idade, entrando). Para a minha alma não foi fácil triunfar. Ela teve que me agarrar com força e sacudir. Finalmente, usou o pior meio: ela me mandou para a cadeia. Eu surrupiei o caixa que a mim foi confiado e defraudei uma grande quantia.  Fui apanhado e julgado. Então, na cela, tive descanso. Era isso que a alma esperava. E então ela pôde, enfim, falar comigo livremente. Eu tive que ouvi-la.  Foi a época mais feliz de minha vida, na cela solitária. E quando saí de lá, queria andar apenas com a minha alma. Eu procurei um lugar silencioso para ela.  Eu o encontrei no banco de penitência e o encontro todo dia, sempre que desejo desfrutar de um momento agradável! (Ele sai pelo lado.)
    OFICIAL (entrando). Nosso camarada contou sobre seus momentos agradáveis no banco de penitência. Quem de vocês aí não gostaria de se livrar desse pecado? Que pecado é esse, do qual ele aqui, em meio à alegria, descansa? Aqui está o descanso para ele. Venha para o banco da penitência!
    TODOS (gritando e acenando no salão). Este não é o pecado de ninguém aqui! Este não é o pecado de ninguém! Eu quero ouviu o meu pecado!! O meu pecado!! O meu pecado!! O meu pecado!!
    MOÇA (aguda).  O que você está gritando?
    CAIXA. A caixa.
    MOÇA (bastante insistente). Está pronto?
    CAIXA. Agora eu estou pronto!
    MOÇA (pendurando-se nele). Eu te conduzo.  Fico ao seu lado. Eu fico sempre ao seu lado. (em êxtase no meio do salão) Uma alma se pronunciará. Eu procurei por essa alma. Eu procurei por essa alma!

    (O barulho baixa. O silêncio vibra.)

    CAIXA (em cima, a moça ao seu lado). Eu estou desde esta manhã na busca. Eu fui empurrado para esta busca. Foi uma partida sem retorno possível – todas as pontes foram partidas ao meio. Por isso estou em marcha desde a aurora. Não vou deter-lhes em estações nas quais eu mesmo não me detive. Elas não justificavam a minha partida decisiva. Marchei adiante com vigor – com olhos que examinavam, dedos que tateavam, cabeça que escolhia. Passei por tudo. Uma estação depois da outra desaparecia atrás de mim. Não era essa, não era aquela, a próxima também não, nem a quarta - nem a quinta... O que é isso? Que coisa é essa que vale tanto empenho? – – Este salão! Arrebatado por sons – ocupado por bancos. Este salão! Destes bancos emerge – retumba a realização! Livre da escória minha alma louva a si mesma até as alturas – derretida nestas duas caçarolas em brasa: Confissão e penitência! Lá está ela como uma torre brilhante – firme e clara: Confissão e penitência! Vocês as gritam! A vocês contarei minha história.
    MOÇA. Fale. Eu fico ao seu lado. Eu fico sempre ao seu lado!
    CAIXA. Estou desde esta manhã em trânsito. Eu confesso: surrupiei o caixa que me foi confiado. Sou caixa de banco. Uma soma enorme: sessenta mil! Fugi para a cidade asfaltada. Agora serei perseguido – provavelmente uma recompensa será paga pela minha captura. Eu não me escondo mais, eu confesso. Nem com o dinheiro de todas as caixas de banco do mundo se pode comprar algo de valor. Compra-se sempre menos do que se paga. E quanto mais se paga, menos vale o produto. O dinheiro deteriora o valor. O dinheiro encobre o genuíno – o dinheiro é a fraude mais miserável entre todos os engodos! (ele tira o dinheiro do bolso do fraque.) Este salão é o forno em chamas que aquece o desdém de vocês por tudo que é miserável. Para vocês eu o atiro, que agora pisam sobre ele com suas solas de sapato. Com isso o mundo se torna menos fraudulento. Vou andar entre os seus bancos e me apresentar ao primeiro policial. Buscarei a penitência só após a confissão. Assim será completo! (atira, com uma luva de pelica, moedas e notas no meio do salão.)
    (As notas voam e caem sobre as cabeças dos boquiabertos, as moedas rolam sob seus pés. Começa uma luta acirrada pelo dinheiro. A reunião se torna uma aglomeração de lutadores. No palco, soldados largam seus instrumentos musicais e se jogam no salão. Os bancos são derrubados, gritos roucos ressoam, punhos se chocam contra corpos. Finalmente a multidão em luta dá a volta em direção à porta e sai.)

    MOÇA (que não participou da luta, fica parada entre os bancos derrubados.)
    CAIXA (olha para a moça sorridente). Você fica comigo! Você sempre fica comigo! (Ele percebe os tambores abandonados, apanha duas baquetas.) Adiante. (breve rufo) De estação à estação. (uma batida de tambor solitária após uma série.) A massa lá em baixo. Lamúria correndo. Vazio estendido. Espaço criado. Espaço. Espaço! (Rufo.) Uma moça fica ali. Diante da torrente em curso – ereta – persistente! (Rufo.) Moça e homem. Antigos jardins são reabertos. Céu sem nuvens. Voz do silêncio da copa de árvore. Contentamento. (Rufo.) Moça e homem – eterna continuidade. Completude no vazio. Moça e homem – dado o primeiro passo. Moça e homem - semente e flor. Moça e homem. – Sentido, mira e finalidade. (Uma batida de tambor após a outra; termina em um rufo sem fim.)
    MOÇA (volta para a porta, some).

    CAIXA (rufo se extinguindo).

    MOÇA (escancara a porta. Para o policial, apontando para o caixa). Aqui está ele. Eu mostrei a vocês. Mereço a recompensa.
    CAIXA (com as mãos para cima, deixa cair as baquetas). Aqui estou eu. Lá em cima estou eu. Dois é demais. O espaço só dá para um. Solidão é espaço. Espaço é solidão. Frio é sol. Sol é frio. Febril o corpo sangra. Febril o corpo congela. Campos desolados. Gelo em formação. Quem escapa? Onde está a saída?
    POLICIAL. O salão tem outras portas?
    MOÇA. Não.
    CAIXA (revira os bolsos).
    POLICIAL. Ele está mexendo nos bolsos. Desliguem as luzes! Estamos na mira dele.

    MOÇA (faz isso).

    (O lustre se apaga com exceção da lâmpada principal. A lâmpada ilumina agora a coroa do lustre de um jeito que parece formar um esqueleto humano.)

    CAIXA (Mão esquerda enterrada no bolso, segurando um trombone com a direita e soprando em direção ao lustre.). Descoberto! (Som de trombone.) Zombado pelos galhos carregados de neve – agora, bem recebido pelo emaranhado de fios do lustre. (sons de trombone.) Eu anuncio a você minha chegada! (Som de trombone.) Percorri o caminho. Por curvas íngremes subo ofegante. Usei minhas forças. Não poupei a mim mesmo! (Som de trombone.)  Dificultei as coisas, quando poderia ter facilitado tanto – lá em cima, na árvore de neve, quando nós estávamos sentados no galho. Você deveria ter me persuadido com mais insistência. Uma faísca de luz teria me aberto os olhos e me poupado esforços. Qualquer um teria se dado conta! (Som de trombone.) Por que eu desci? Porque peguei a estrada? Para onde vou agora? (Sons de trombone.) No início ele senta lá – nu até os ossos! Por último, ele senta lá – nu até os ossos! Da aurora à meia-noite eu andei em círculos – agora seu dedo em riste me aponta o caminho – – – para onde?!! (Ele dispara a resposta no peito da camisa. O som do trombone morre em sua boca ressoando um tom fraco que ia se formando.)
    POLICIAL. Liga as luzes de novo.
    MOÇA (faz isso. No mesmo instante explodem com violência todas as lâmpadas).
    CAIXA (está afundado de braços abertos na cruz costurada da cortina. Seus gemidos soam como um “Ecce” – seu suspiro como um “Homo”.)
    POLICIAL. Há um curto-circuito nos fios.

    (Escuridão total.)

     

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