Petry

     

    Undine parte: crítica da cultura, do poder e da linguagem

    recebido em 29/06/2009 e aceito em 12/10/2009


    1 Introdução
    2 A linguagem como forma de poder e dominação
    3 A crítica de Undine como utopia de uma vida sem repressão

    Notas


    ABSTRACT

    The paper aims to discuss the relations between culture, power and language in Bachmann’s story Undine geht. Undine is a water creature that lives among humans for a period of time and this fact allows her to criticize them, their way of life, of love and of relate to others. Undine’s critique is that the discourse or language shows the domination that is present in the human relations, for example, in the submission of the individual to a collectivity, as well as in the relations between men and women. She condemns this society which is regulated by money, social roles, which are false representations and generate a repression for social and individual life. This is why Undine denounces strongly the humans and their society. But she also invites the humans to know themselves and to search for the truth. Only this can liberate them from repression and give them the possibility to live a dignified life.

    Keywords:Undine; language; domination.

     

     

    1 Introdução

    O conto Undine parte (Undine geht) de Ingeborg Bachmann, publicado originalmente na coletânea Das dreißigste Jahr em 1961,[1]traz ao leitor a possibilidade de se deixar envolver por pensamentos que vêm seguidos uns aos outros, sem pausa, sem uma conexão evidente ou um encadeamento lógico, sem uma clareza absoluta, mas nem por isso sem deixar de causar naquele que o acompanha a sensação de ter sua própria vida colocada em questão. Não a vida que se pensa individual, enquanto experiência privada ou íntima, a qual talvez não passe de uma ilusão, mas aquela que se constitui na relação com os outros, que acontece intersubjetiva e socialmente, que mesmo quando, na tentativa de ser pensada isoladamente, exige sua integração em uma totalidade. Essa vida que é nossa, mas também dos outros, porque somente nessa relação ela se efetiva.

     

    2 A linguagem como forma de poder e dominação

    O texto de Bachmann não chega a ser uma narrativa, já que nenhuma história é contada, nem acontecimentos são descritos. Trata-se de um monólogo que soa, ao mesmo tempo, como crítica e desabafo. Undine, que na mitologia alemã é uma ninfa das águas,[2] dirige-se aos homens e sobre eles fala a partir de uma perspectiva diversa, justamente, não-humana. A sua história não é comentada em detalhes. É possível perceber, contudo, no decorrer do monólogo, que ela chegou a deixar as águas, habitar o mundo dos seres humanos, desenvolver relações com eles e nesse momento em que fala, que é o tempo da própria narrativa, está retornando ao seu ambiente. De acordo com Dorowin, Undine é “a ninfa d'água [Seefrau], que deixa seu elemento por amor a um humano, não encontra a felicidade na terra e, finalmente, precisa retornar às profundezas das águas.”[3]E é pela figura de Undine que Bachmann lança ao leitor um confronto consigo mesmo, uma provocação-convite a sair desse mundo em que está e a participar de um outro, no qual não há violência, nem dominação, nem poder, nem falta de liberdade, porque tampouco há linguagem, discurso ou mentiras.

    Undine inicia sua fala dizendo: “Oh, homens! Oh, monstros!”.[3] Nessas primeiras palavras já se pode encontrar uma certa ironia no uso da linguagem: Undine chama os seres humanos de “monstros”, quando é ela quem possui uma natureza distinta, é ela um ser não-humano, uma ninfa que habita as águas e, desse ponto de vista, talvez ela é quem devesse ser chamada de tal forma. Entretanto, são os homens que ela observa, os seres monstruosos, os quais ela não consegue entender, com os quais não pôde conviver e, por isso, deve retornar ao seu mundo. Ela continua: “Monstros chamados João! Esse nome que jamais poderei esquecer”.[5] “João” é quem ela primeiro encontra quando da sua saída das águas. O nome desse homem, porém, não é de um indivíduo, mas geral. Todos os homens são “João”, parecem diferentes uns dos outros, mas são iguais. Undine diz: “Conheci um homem que se chamava João, e ele era diferente de todos os outros. E conheci mais um, também este era diferente dos demais. E depois um, que era completamente diferente de todos os outros, e seu nome era João, e eu o amei”.[6] O texto, mais uma vez, traz um tom irônico expresso nessa contradição de afirmar a diferença, mas atribuir um mesmo nome àqueles que deveriam ser distintos uns dos outros. Cada homem que Undine encontra é diferente, mas, ao mesmo tempo, é igual àquele com que ela já se deparou em sua estadia nesse mundo humano. Todos então são “João”, seja porque se comportam de uma mesma forma, seja porque falam as mesmas coisas. De acordo com Smith, Undine estaria “subsumindo muitas pessoas sob um nome para enfatizar o sacrifício de sua identidade pessoal em relação a um papel social”.[7] Assim, a identidade acaba se dissolvendo em nome do coletivo, não havendo diferença entre os homens, porque todos agem de modo igual, seguem regras comuns e, apesar das possíveis divergências entre eles, compartilham uma mesma mentalidade. É esse encontro que faz Undine retornar às águas, pois ela não pode se adaptar a esse mundo, nem se comportar como os outros, uma vez que ela vive de modo completamente diferente.

    A contraposição entre Undine e o mundo dos homens é apresentada no conto justamente por ela pertencer a uma dimensão totalmente distinta: ela habita as águas, está ligada à natureza de uma forma pura. Assim, ela se opõe à cultura, à sociedade já organizada como dominação dessa natureza e afirmação do homem, que também significa dominação sobre outros seres humanos. E a água é, para ela, o símbolo da verdade, da transparência, de uma relação adequada seja com a natureza, seja com os demais. Diferentemente, portanto, desse mundo habitado por seres humanos, os quais são monstros, mentirosos, arrogantes e violentos. Tal contraposição fica expressa, por exemplo, nessa passagem em que Undine começa a expor o porquê de seu retorno às águas:

      Mas, oh monstros, deixai-me ser precisa, e pintar-vos desta vez tão desprezíveis quanto sois, pois não regressarei, não mais acederei aos vossos acenos, nem aceitarei convites para um copo de vinho, uma viagem, para uma ida ao teatro. Nunca mais voltarei, nunca mais direi Sim e Tu e Sim. Todas essas palavras deixarão de existir, e talvez eu vos diga a razão. Pois as perguntas, vós as conheceis, e todas começam com “Por quê?” Não há perguntas na minha vida. Amo a água, sua densa transparência, o verde que existe na água e as criaturas mudas (e em breve também ficarei tão calada quanto elas!), os meus cabelos a flutuarem entre elas, dentro das águas justiceiras, este espelho indiferente que me proíbe de ver-vos de outro modo. A fronteira molhada entre o meu eu e o meu outro eu... [8]

    Undine rejeita esse mundo em que se deve consentir, em que para satisfazer o desejo do outro ou mesmo para poder viver em comunidade, é necessário anular-se. Em que um “sim” é uma autocondenação, pois representa a perda da liberdade no cumprimento de normas que disfarçam a violência sobre o outro e não o interesse em que a vida seja preservada na sociedade. Ao dizer “sim”, ela deve concordar com o modo de viver dos homens e isso ela não é capaz de fazer, não deseja fazer, pois vê nas relações humanas os traços de dominação que lhe são estranhos e incompreensíveis, já que nas águas reina a liberdade. E tal é essa natureza diferente que Undine sequer é capaz de ver os homens como seres distintos, daí chamar a todos de “João”. Todos lhe parecem iguais porque carregam em si as marcas da constituição da vida em sociedade, da cultura que para se afirmar, exige a repressão. E isso não pertence ao mundo de Undine. Ainda que ela tenha percebido a diferença entre ela e os homens e as razões deles agirem de um tal modo, não é capaz de aceitar aquilo que está diante de seus olhos, pois como ela afirma: “Sim, aprendi essa lógica de que um de vós, necessariamente, se chama João, que vós todos vos chamais assim, tanto um como o outro, e, no entanto, um apenas.[9]”Ela entende a razão de todos serem iguais, mas isso não a torna condescendente, ao contrário, faz com que ela se revolte e recuse tais razões, uma vez que ela sabe da existência de uma outra vida, não sujeita à violência, à repressão e isenta dessa necessidade de subjugar os indivíduos à sociedade. Isso fica mais claro em outra passagem do texto em que se mesclam as críticas de Undine e sua natureza mítica:

      Não sou a mãe de vossos filhos, porque não conheci perguntas, nem exigências, nem precauções, intenção, nem futuro e porque não soube como tomar um lugar dentro de uma vida. Não necessitei ser sustentada, nem precisei de reiterações e promessas, só de ar, ar noturno, ar dos litorais, das fronteiras, para sempre poder voltar a tomar fôlego para novas palavras, novos beijos, para uma confissão incessante: Sim. Sim. Uma vez feita a confissão, estava fadada a amar; e se um dia conseguia libertar-me do amor, era preciso voltar para a água, para esse elemento onde ninguém constrói um ninho, onde ninguém ergue um telhado sobre vigas, onde ninguém se abriga com uma lona. Não estar em parte alguma, não fixar-se em parte alguma. Mergulhar, repousar, movimentar-se sem despender forças – e um belo dia voltar a si, emergir novamente, atravessar a clareira, vê-lo e dizer “João”. Recomeçar do princípio.
      _Boa noite.

      _Boa noite.

      _ A que distância estás?

      _ Longe, muito longe.

      _ E eu também estou muito longe.[10]

    Nessa passagem do conto está manifesta a recusa de Undine em viver junto aos homens. Daí ela não ter tido filhos durante sua passagem, para não dar continuidade a algo com o qual lhe era impossível conviver e para ser marcada por esse outro mundo, no qual não encontrou felicidade. Isso porque ao amar “João” ela se entregou, mas seu consentimento significaria, então, sua submissão a ele, aos padrões sociais, ao modelo de relacionamento existente que, na maioria das vezes, reprime o outro. Assim, aceitar esse amor pertencente à civilização implicaria a renúncia de si, assim como a impossibilidade de ser feliz nessa relação, uma vez que seus valores são diferentes. É como se os dois mundos fossem incompatíveis, pois nas águas, Undine encontra a verdade, mas na relação com os seres humanos vê apenas um discurso que esconde e traveste a realidade de dominação, violência e repressão existente. Contudo, se ela tivesse conseguido trazer “João” para junto de si, o amor entre eles talvez pudesse ter acontecido. Mas essa relação ainda permanecerá como uma utopia, pois seu chamado traz um encanto e desperta a atenção dos seres humanos e nisso reside a possibilidade de que, em algum momento, ele seja realmente entendido.

    Antes de voltar para as águas, Undine precisa dizer tudo aquilo que viu, sentiu e que a fez não querer ficar entre os homens, ainda que os amasse. Sim, porque ela os amou e ainda os ama. Não como um sentimento de admiração, ternura, amizade ou mesmo afeição. Esse amor que ela sente tem a forma e se conserva como esperança, como confiança de que os seres humanos, a despeito de seu caráter vil, desenvolvam-se e busquem uma forma diferente de viver. A esperança se funda sobre a existência de qualidades boas nos seres humanos, as quais, contudo, são eclipsadas pelas relações de poder que eles estabelecem entre si e que os colocam em uma situação indigna. A crítica que Undine faz a eles antes de seu retorno, então, é como um primeiro passo em direção a essa reflexão que deveria ser feita pelos homens. E ela o faz duramente, mostrando como as ações e relações humanas são mesquinhas, hipócritas e contaminadas por falsidades. Não somente as relações sociais, mas também aquelas entre homens e mulheres, localizadas dentro de uma sociedade patriarcal que se aproveita da dominação para se afirmar ainda mais fortemente. O predomínio de uma vontade masculina, contudo, só se faz porque existe, por outro lado, uma mulher que se submete e que possibilita a afirmação do poder do homem, assim como da realização de seus interesses. Undine critica ferozmente a atitude masculina em relação às mulheres, às esposas, àquelas com quem eles mantêm uma relação superficial, uma vez que nas condições em que essas relações ocorrem, não é possível haver um amor, se este requer para sua realização uma relação livre entre as pessoas. Undine vê claramente como as mulheres são manipuladas pelo discurso patriarcal, o qual, ao mesmo tempo que as subjuga, torna também os homens vítimas, porque eles também têm que sustentar essa farsa com sua subordinação a um papel por eles criado e que deve ser mantido para que as mulheres neles ainda depositem confiança, mesmo que esta seja ilusória, dado seu caráter parcial e alienado da verdade da própria relação que nesses termos é estabelecida. Undine denuncia tais rastros de dominação, os quais estão presentes em detalhes muitas vezes escondidos nas relações entre homens e mulheres, e frutos de uma atitude masculina arrogante e prepotente. Essas críticas aparecem na seguinte passagem:

      Oh vós, monstros, com as vossas mulheres!

      Por acaso não disseste: É um inferno, e ninguém compreenderá por que continuo vivendo com ela. E não disseste: Minha esposa, sim é uma criatura maravilhosa, sim, ela precisa de mim, não saberia como viver sem mim? Por acaso não o disseste? E não riste e disseste com arrogante petulância: Jamais tomar muito a sério, nunca tomar a sério uma coisa destas. E não disseste também: vai ser sempre assim, e não deve ser de outro modo, não seria válido! Oh vós, monstros, com o vosso linguajar, que procurais vos expressar no linguajar das mulheres, para que nada vos falte, para que o mundo seja perfeito e acabado. Que transformais as mulheres em amantes e esposas, mulheres para um dia, mulheres para um fim de semana, mulheres para a vida inteira, e que consentis em serdes transformados em seus maridos. (Isso talvez ainda mereça um despertar!) Vós, com o ciúme que tendes de vossas mulheres, com a vossa altiva condescendência e com a vossa tirania, com a vossa busca de aconchego junto às vossas mulheres, com o vosso dinheiro para a manutenção da casa e os vosso diálogos antes de adormecer, esses fortalecimentos, com essa maneira de aparentar estardes com a razão em relação aos outros, vós com os vossos abraços magistralmente desamparados e perdidamente destraídos.[11]

    Na citação acima fica explícita a indignação de Undine perante um modelo de relação que não é capaz de considerar seriamente a perspectiva do outro, pois este é tratado como objeto, o qual pode ser manipulado. A mulher é vista como uma marionete, que se movimenta em função do homem e que é para ele brincadeira, divertimento, pois serve tanto para proporcionar horas de prazer quanto para apoiá-lo durante toda uma vida. Na continuação da passagem acima, Undine ainda critica como a sociedade organizada em torno do dinheiro também faz de homens e mulheres mercadorias que podem ser vendidas. Ela se coloca contra uma relação que tenha por fundamento o interesse individual, em que uma parte tira proveito da outra e mascara essa falsidade sob o símbolo de uma união, que apenas é formal, pois não se constitui a partir de afeto e solidariedade, mas tão somente do uso do outro para seu próprio benefício. Assim ela diz:

      Deixou-me admirada o fato de dardes dinheiro a vossas mulheres para as compras, para os vestidos e convidá-las para a viagem de veraneio (vós as convidais, e, por conseguinte, pagais). Comprais e vos deixais comprar. Fazeis-me rir e me causais espanto, João, João, vós, os estudantezinhos e bons operários, que tomais as mulheres para que trabalhem convosco, então trabalhais ambos, cada um aprimorando seus conhecimentos numa outra faculdade, cada um progredindo numa fábrica diferente, e vos esforçais, juntais o dinheiro e vos atrelais diante do futuro. Sim, também tomais as mulheres para dar um sentido ao vosso futuro, para que elas tenham filhos, e quando elas passeiam temerosas e felizes os rebentos no ventre, vós vos tornais benevolentes. Ou então proibis vossas mulheres de terem filhos, não quereis ver perturbadas a vossa paz e vos precipitais para a velhice com a vossa juventude poupada. Oh, isto mereceria um grande despertar! Vós que enganais e que sois enganados. Mas não o tenteis comigo. Comigo, não! [12]

    A crítica aos homens não é feita apenas no sentido de que eles conscientemente usam seu poder, o que não os isenta de culpa, porque a alienação sobre o modo como agem e sobre as conseqüências que resultam dessa maneira como se relacionam com as mulheres é que deveria lhes ser evidente, mas não o é. E, assim, Undine critica a cegueira que os faz tanto carrascos quanto vítimas de uma sociedade que permite um relacionamento fundamentado em uma idéia de homens e mulheres como posses, como objetos, usados de acordo com a satisfação que proporcionam. Mesmo aquela relação em que ambos parecem compartilhar os mesmos valores e agir segundo um interesse comum é posta sob suspeita, pois ainda que a mulher trabalhe e possa buscar uma vida que não se realiza completamente na relação a dois, mas que é construída também a partir de outras formas, essa emancipação não ocorre, já que não surge para ela uma liberdade, apenas o trabalho para satisfazer o outro, para servi-lo. Ela continua sendo objeto e não domina sua própria vida. E, nesse sentido, a instituição “casamento” ganha sua legitimidade como união que traz benefícios materiais, mas que não precisa estar alicerçada sobre sentimentos de amor, afeto e respeito. O egoísmo predomina sobre a solidariedade, o interesse individual presente nas relações e capaz de fazer do outro instrumento para sua realização acaba então por trair a própria idéia de uma união verdadeiramente amorosa e recíproca. Undine, que vê todos esses disfarces, recusa-se a participar deles, rejeita esse tipo de relação e, nesse encontro negativo com os seres humanos, quer retornar ao seu ambiente de pureza.

     

    3 A crítica de Undine como utopia de uma vida sem repressão

    Outro aspecto para o qual Undine chama atenção é a falta de conhecimento que os seres humanos têm de si próprios, a ausência de uma reflexão e um contato mais íntimo consigo mesmos. Não que lhes falte a vontade, a disposição, pois isso eles têm, tanto que ameaçam atender ao chamado de Undine, aquela que representa para eles a verdade, a clareza. O que os seres humanos não têm é coragem de encarar a si próprios, o mundo e os outros. Eles não se entendem porque não sabem sobre si mesmos e suas ações acabam por não poder exibir algo de verdadeiro, já que são irrefletidas, resultado de sentimentos confusos, da ignorância decorrente de sua incapacidade e covardia para deliberar. É mais cômodo continuar vivendo sem se questionar, sem pensar, sem dizer o que deve ser dito. E, nesse sentido, o chamado de Undine, que é esse convite para sair de uma vida hipócrita e assumir as coisas como elas são verdadeiramente, é considerada uma ameaça ao conforto e segurança que os homens encontram quando enclausurados em suas casas, com suas famílias e distantes da realidade que os cerca. Contudo, o chamado de Undine é um perigo, sobretudo, porque incita ao conhecimento sobre si mesmo, o que não é algo fácil, nem agradável e, por isso também, recusado pelos seres humanos. É na seguinte passagem que tais considerações são melhor entendidas:

      (...) O meu gargalhar durante muito tempo agitou as águas, um gargalhar cavernoso que por vezes imitáveis, aterrorizados, à noite. Porque sempre soubestes que é ridículo e assustador, e vós vos bastais a vós mesmos, e que nucna estivestes de acordo. Por isso é melhor não levantar durante a noite, não descer a passagem, não ficar à espreita no pátio, nem no jardim, pois não passaria de uma confissão de que, mais do que por qualquer outra coisa, é-se seduzido por um queixume, pelo som, pela tentação e se anseia pela grande traição. Nunca estivestes de acordo com vós mesmos. (...) Quando eu chegava, quando uma brisa me anunciava, então vós vos erguíeis de um salto e sabíeis que estava próxima a hora, a vergonha, a expulsão, a desgraça, o incompreensível. O brado anunciando o fim. Anunciando o fim. Oh, monstros, amei-vos justamente para que soubésseis o que significa este brado: que acedíeis ao chamados, que nunca estivestes de acordo convosco mesmos. E eu, quando é que jamais estive de acordo? Quando vos encontráveis sós, bem sós, e quando os vossos pensamentos não se entretinham com nada de útil, de aproveitável, quando a lâmpada inundava de luz o quarto, quando se formava a clareira, e o ambiente se apresentava úmido e enfumaçado, e vós então vos víeis perdidos, para sempre perdidos, perdidos por terdes reconhecido a vossa situação, então era chegada a minha hora. Eu podia entrar com aquele olhar que incita: Pensa! Sê! Dize-o! [13]

    Quando Anna Seghers escreveu o seu ensaio sobre Tolstói, em 1954, Stalin já estava morto; o stalinismo, porém, ainda estava bem vivo. A autora relata sua visita ao museu Tolstói, em Iásnaia Poliana, além dos seus estudos no arquivo lá estabelecido, fala do assunto histórico em Guerra e Paz e dos problemas essenciais ao escrever um romance histórico. O ensaio se apresenta em forma de carta, começando com „Lieber Jorge“ (caro Jorge), usando o tratamento direto etc. Várias vezes, a autora se refere à discussão político-literária contemporânea, investindo contra o stalinismo literário prevalecente nas últimas duas décadas e conhecido sob o rótulo de “realismo socialista”. Com toda a devida cautela, Seghers argumenta contra o conceito de “formalismo”[15] ; naqueles dias usavam a palavra chave da ortodoxia stalinista, e em favor do amigo Ilya Ehrenburg, que tinha reclamado pela liberdade autoral.[16] A discussão dos conceitos tanto de missão social (“Auftrag”), quanto de intuição de um escritor, trata de um problema básico de todos os autores engajados, certamente também de Jorge Amado. Este havia acabado de publicar o ciclo Os subterrâneos da liberdade, uma obra sem nenhuma inspiração estética, mas bastante zelo missionário partidiário. Na verdade, depois de Subterrâneos, Amado enfrentaria uma crise de criatividade que consegue superar somente com Gabriela, cravo e canela.

      Pois é isto que, apesar de tudo, aproxima Undine de João no amor, e que ainda faz com que tenha a esperança de uma união com ele: que ele seja capaz de ouvir o chamado, que ele reconheça a voz distante, que ele responda a ela nos raros momentos felizes. (...) O que Ingeborg Bachamann evoca aqui é um momento de epifania, o encontro de um ser humano consigo mesmo em face do conhecimento da própria morte (“para sempre perdidos”), um momento de  liberdade radical, em que todas as pressões externas e motivações são liberadas e o tempo se torna imóvel. Em tal momento a verdade encontra a linguagem, o “indizível” pode ser dito (“Dize-o!”), a inspiração artistica é possível. [14]

    O encarar de si mesmo adquire, também, a significação de um olhar sobre o futuro, pois nele é possível se projetar para além da realidade presente. A morte torna-se, então, o limite que não se pode ultrapassar, mas até o qual ainda há tempo para agir e mudar. Assim, quando Undine diz “A Morte está em tudo isto. E: o Tempo está envolvido. E simultaneamente: Vai-te, Morte! E: Detém-te, Tempo!”,[15] seu aviso representa essa urgência para os homens em se reconhecer para não mais serem violentos consigo mesmos e com os demais, para passarem a agir de um modo livre e responsável, sem usar de artimanhas, de mentiras, mas tão somente se relacionar com a verdade. E é quando esta se faz presente que Undine se identifica com os homens, pois eles podem, então, trazê-la para junto de si, são capazes, por isso, de amá-la. Na continuação da citação acima, Undine prossegue:

      Foi isto o que eu vos disse. E tu falaste, meu amado, com voz pausada, absolutamente sincero e salvo, libertado de todo entremeio, revelaste teu gênio triste, teu triste, grande espírito, que é como o espírito de todos os homens e daquela espécie que não está destinada a ser utilizada e porque vós não sabíeis estar destinados a ter uma utilidade, tudo estava bem entre nós. Amávamos um ao outro. Éramos animados pelo mesmo espírito.[16]

    A necessidade do contato com a verdade é fundamental. É isso o que Undine representa com sua aparição e convivência junto aos seres humanos. Seu mundo de transparência não inclui a falsidade, porque nele não há discurso capaz de camuflar a realidade. Os seres humanos, contudo, fazem mau uso da linguagem, pois a transformam em instrumento de poder para dominar os outros e, nisso, se distanciam da verdade. Tudo deve ter para eles um uso. As coisas são vistas como meios para atingir determinados fins. Desse modo, eles perdem sua beleza, a qual pode ser entendida simplesmente como uma relação verdadeira consigo mesmo e com os outros. Undine não é entendida e não os entende porque seu modo de agir não contém essa lógica de dominação e manipulação. E é somente no momento em que os homens se renderem a ela, a seu convite que ela também poderá tocá-los e entendê-los. Como ela diz,

      Quando já nada mais te ocorria a respeito da tua vida, então falavas com toda sinceridade, mas também só então. Nesse momento todas as águas transbordavam, os rios intumesciam, os nenúfares floresciam e se afogavam logo às centenas e o mar transformava-se num poderoso suspiro, que fustigava, açoitava e corria e rolava em direção à terra, a branca espuma a escorrer-lhe pelos beiços. [17]

    A vontade de Undine de ainda chamar a atenção dos homens expressa a tentativa de fazer com que eles vejam uma outra realidade possível, transparente, livre, mas sem que haja essa mudança na forma de se relacionar com a natureza e com os outros, o mundo de Undine se torna inacessível, um lugar que a civilização não pode habitar. Desse modo, o seu chamado significa a esperança de que haja uma espécie de fusão entre os dois mundos, para que os seres humanos se relacionem mais verdadeiramente uns com os outros e sem a pretensão de tornar os demais objetos seus. Undine precisa do contato com os seres humanos, daí seu chamado, seu canto e o ecoar do nome “João” nas águas em que ela habita: “(...) o nome a propagar-se por baixo d’água, porque não posso cessar de chamá-lo, João, João...”.[18] Tal passagem aparece logo no início do conto, mas também no final ela se repete:

      (...) Estou debaixo d’água. Debaixo d’água.

      E agora passa alguém lá em cima e odeia a água e odeia o verde e não

      compreende, não compreenderá nunca. Assim como eu nunca compreendi.

      Quase emudecida,

      quase ainda

      escutando

      o chamado.

      Vem. Só uma vez.

      Vem. [19]

    Essa necessidade significa a utopia de uma relação diferente, a abertura dos homens para uma dimensão em que não haja opressão. Por isso, a tentativa de Undine de chamar os seres humanos para si, de se aproximar deles. Ao mesmo tempo em que retorna para seu lugar natural devido à frustração e incompreensão experienciadas na sua passagem pelo mundo “terreno”, a esperança ainda lhe resta, sobretudo porque ela visualiza neles certas maneiras de agir que são como resquícios de uma humanidade que ainda não se perdeu completamente. É justamente por não serem estáveis, por haver uma ambivalência nos sentimentos e ações humanas que existe uma possibilidade de melhorar e tornar mais digna a própria existência. Undine censura os homens, mas também reconhece neles algumas virtudes e nisso reside sua esperança de que um dia eles atendam a seu chamado. Essa confiança se manifesta na seguinte fala de Undine:

      Tão corajosos fostes e corajosos em relação aos outros – e covardes naturalmente também e frequentemente vos mostrastes corajosos, para não parecerdes covardes. E vendo iminente o infortúnio gerado pela disputa, continuáveis ainda assim a brigar e a persistir em vosso ponto de vista, embora sabendo que nenhuma vantagem vos adviria disso.
      (...) Digna de louvor é a delicadez de vossos corpos lerdos. Algo dessa particular delicadeza transparece quando prestais um favor, quando praticais um ato de bondade. Muito mais delicada do que toda delicadeza de vossa mulheres, é a vossa delicadeza, quando empenhais a vossa palavra ou escutais alguém e o compreendeis.

      (...) Dignas de louvor são as vossas mãos, quando nela tomais algo frágil, o preservais e sabeis como conservá-lo, e quando tomais a vós os encargos e removeis os obstáculos de algum caminho. E é bom ver-vos tratar os corpos das pessoas e dos animais, fazendo desaparecer uma dor, com toda precaução. Tal é a limitação das coisas que vêm por vossas mãos, mas há muita coisa boa, que deporá a vosso favor.
      (...) Jamais alguém falou assim dos homens, das condições em que vivem, de sua servidão, de seus bens, idéias, dos habitantes deste mundo, dos habitantes de um mundo anterior e de um mundo futuro. Estava certo que se falasse assim e que tanta coisa fosse ponderada.[20]

    Mas é principalmente a linguagem o símbolo da ambivalência humana, usada para nomear, para se expressar, mas também para jogar com as palavras, com os outros: “Tudo fazias com as palavras e frases, comunicava-tes por meio delas ou as transformavas, criavas uma nova designação para alguma coisa (...) Oh, ninguém sabia jogar tão bem, como vós, monstros!”.[21] A linguagem é também um instrumento da dominação, pois nela as coisas ganham formas novas, diferentes realidades e podem se distinguir do que genuinamente são. E a linguagem pertence aos seres humanos, mas principalmente aos homens, que por meio dela se colocam como superiores e dominam as mulheres e todos aqueles que da possibilidade do discurso são excluídos. Undine entoa seu canto, então, para incentivar, convidar e provocar os homens a uma nova experiência deles consigo mesmos, com os outros, com a realidade e com a linguagem, pois um outro relacionamento é possível justamente porque no mundo de Undine ele ocorre. Aproximar-se dela, portanto, significará romper uma barreira e ir ao encontro da verdade e da liberdade. Tal encontro, porém, deve ocorrer agora a partir de uma disposição dos homens, pois Undine foi, voltou para as águas e deixou-os livres para decidir sobre o que fazer da própria vida.

     

     

    Notas

    [1] BACHMANN, Ingeborg. Undine geht. In: BACHMANN, Ingeborg. Gedichte, Erzählungen, Hörspiel, Essays. München: R. Piper & CO Verlag, 1964. A tradução do conto para a língua portuguesa se encontra em: Langenbucher, Wolfgang (org.) – Antologia do moderno conto alemão. Tradução de Strohschoen, Iris & Kunz, Betty Margarida. Porto Alegre: Globo, 1968, p.  295-303.

    [2] A história de Undine é belamente narrada na obra de 1811 de F. de La Motte-Fouqué, um dos autores mais importantes do romantismo alemão. O texto está disponível em língua portuguesa: LA MOTTE-FOUQUÉ, F. Ondina: uma história de fadas da mitologia alemã. Tradução e Introdução de Karin Volobuef. São Paulo: Landy Editora, 2006.

    [3] DOROWIN, Hermann. Ingeborg Bachmann: Undine Geht, p. 2. Disponível em: http://www.uni-essen.de/literaturwissenschaft-aktiv/nullpunkt/rtf/bachmann_undine.rtf. Acesso em: set. 2009. (tradução nossa).

    [4] Bachmann, Ingeborg. Ondina parte. In: Langenbucher, Wolfgang (org.) – Antologia do moderno conto alemão. Tradução de Strohschoen, Iris & Kunz, Betty Margarida. Porto Alegre: Globo, 1968, p. 295.  

    [5] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 295.

    [6] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 300.

    [7] SMITH, Sara E. The problem of language reflections of Ludwig Wittgenstein’s Tractatus in the prose of Ingeborg Bachmann, p. 17. Disponível em: http://www.ohiolink.edu/etd/send-pdf.cgi?bgsu1143424083. Acesso em: jun. 2009. (tradução nossa). Neste texto, Smith faz uma leitura interessante do texto de Bachmann, comparando a figura de Undine como o místico em Wittgenstein. Undine seria a dimensão livre da lógica da linguagem, o inefável, o lugar em que não existem perguntas, porque, assim como para Wittgenstein, o problema da vida não pode ser abordado linguisticamente, de tal forma que para as perguntas que não podem ser feitas segundo a lógica da linguagem, tampouco podem ser fornecidas respostas. A música entoada por Undine, seria, então, a tentativa de ir contra os limites da linguagem, o que só seria possível por meio da arte. A contraposição entre a dimensão das águas e o mundo dos homens, portanto, representaria a cisão entre o âmbito lingüístico e o místico. E é por viver no lugar da não-linguagem que Undine é incapaz de permanecer junto aos seres humanos, com seus discursos, com sua lógica, sua linguagem e também suas manipulações. Apesar de ser uma interpretação instigante, trabalharemos com outra chave de leitura possível para o conto de Bachmann.

    [8] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 296.

    [9] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 295.

    [10] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 296.

    [11] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 297.

    [12] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 298.

    [13] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 298..

    [14] DOROWIN, Hermann. Ingeborg Bachmann, p. 5. (tradução nossa).

    [15] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 299.

    [16] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 299.

    [17] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 300..

    [18] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 296.

    [19] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 303.

    [20] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 302.

    [21] BACHMANN, Ingeborg. Ondina parte, p. 303.

    Doutoranda em Filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina, bolsista CAPES, atualmente fazendo Doutorado Sanduíche na J. W. Goethe Universität em Frankfurt am Main. Campus Universitário Trindade 88040-900 - Florianopolis, SC - Brasil Telefone: (48) 37218803; E-mail: ffpetry@yahoo.com.br



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