"FLORESTA BRASILEIRA": ARAÚJO PORTO ALEGRE E O LUGAR DE CORPOS NEGROS NO SEGUNDO IMPÉRIO

Marcelo F. Lotufo

Resumo


Resumo: Este ensaio investiga a naturalização da imagem do Brasil como um país europeu nos trópicos criada durante o Segundo Império. Através da leitura do quadro Floresta Brasileira do escritor, diplomata e pintor Araújo Porto Alegre, argumento que a elite imperial investiu após a independência na criação da imagem de um país europeu e branco, excluindo de suas principais alegorias e mitos nacionais os sujeitos escravizados. Diferentemente da geração de seus professores, vinda da França em 1816, e que fizera da representação de homens e mulheres de ascendência africana um importante elemento de suas pinturas, Porto Alegre evita pensar a representação de corpos negros em seu quadro mais importante, relegando estes corpos às suas caricaturas. Como aponta Jacques Rancière, as artes têm um importante papel em delimitar os contornos imaginados de nossas comunidades. Separar corpos brancos e negros nas artes colaborava, assim, para a naturalização de um país dividido. A comunidade imaginada pela elite brasileira - isto é, por Porto Alegre e seus contemporâneos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - não fomentava a convivência entre corpos brancos e negros, naturalizando a separação simbólica e física destes enquanto se debatia no mundo político a abolição. A naturalização desta separação ajuda a explicar os limites da própria abolição que, como aponta Angela Alonso, na sua celebração continuou excluindo sujeitos afrodescendentes.

Palavras-chave: Araújo Porto Alegre; Romantismo; Ocidentalização; Escravidão.

 

Abstract: This essay inquires into the creation of Brazil's image as a European country in the tropics, an image built by and during the Second Empire. Through the reading of the painting Floresta Brasileira, by the painter, diplomat and writer Araújo de Porto Alegre, I contend that after national independence Brazil's elite invested in creating an image of a European and white country by excluding enslaved subjects from their main national allegories. Differently from his teachers who came to Brazil with the 1816 French artistic mission, which made the representation of black bodies an important subject of reflection and a central element of their paintings, Porto Alegre avoided painting African bodies in his most important work, relegating them to his newspaper caricatures. As Jacques Rancière points out, the arts play an important role in delimiting the imagined boundaries of our communities. To separate white and black bodies in different genres, as did Porto Alegre and his generational peers, worked for the naturalization of a divided society. The community imagined by the Brazilian elite strengthened the symbolic division between white and black bodies in a time when the end of slavery was being discussed. This symbolic separation helps explain the limits of abolition, as discussed by Angela Alonso, and how in its celebration Brazil continued to picture a white and European country.

Keywords: Araújo Porto Alegre; Romanticism; Brazil; Slavery


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