Prorrogado até o dia 31 de outubro o período para submissão de artigos ao dossiê "Resistências africanas: novos problemas e debates", que será publicado em edição de 2019 da Anos 90

Prorrogado até o dia 31 de outubro o período para submissão de artigos ao dossiê "Resistências africanas: novos problemas e debates", que será publicado em edição de 2019 da Anos 90

Organizadores: Patrícia Teixeira Santos (UNIFESP) Sílvio Marcus de Souza Correa (UFSC)

Proposta do dossiê: 

Desde a chamada Scramble for Africa, os impérios coloniais tiveram que lidar com um grande número de movimentos de resistência. Entre outros, o enfrentamento do Estado mahdista com a coalisão anglo-egípcia por quase duas décadas serviu de referência para uma escrita da história da África contemporânea a partir da segunda metade do século XX. Até então, uma literatura colonial havia abordado as resistências como movimentos retrógrados, refratários à modernização. Este “colonial approach” considerou as várias rebeliões e insurgências como “revoltas bárbaras”, irracionais e amorfas. Na perspectiva do colonizador, as resistências eram um atavismo, uma simples manifestação da “tradição” em prol da reprodução das estruturas arcaicas, da preservação dos direitos consuetudinários, da defesa dos privilégios de uma elite local etc. A partir dos meados do século XX, uma nova geração de historiadores seria iluminada pelo raiar do sol das independências. Em Dacar, Ibadan e Dar es Salaam, para ficar em três exemplos, a nova historiografia africana refutaria a interpretação então vigente sobre as resistências africanas. Alguns dos mais proeminentes historiadores dessas escolas participaram do projeto editorial da UNESCO para a coleção História Geral da África. Nela, encontram-se algumas tentativas dos scholars para caracterizar as resistências, desde a defesa da autodeterminação de um conjunto heteróclito de grupos étnicos e/ou religiosos até movimentos armados com o firme propósito de vencer militarmente as tropas coloniais. Houve também propostas para uma tipologia e mesmo para uma cronologia das resistências africanas, como, respectivamente, a do historiador queniano Ali Al’amin Mazrui e do historiador ganense Albert Adu Boahen. Os trabalhos de Allen Isaacman, Jan Vansina, Terence Osborn Ranger e de outros historiadores contribuíram para uma ideia de conjunto sobre as resistências africanas. Os estudos passaram a abordar as resistências não mais localizadas, mas como vagas continentais. No sétimo volume da História Geral da África, as resistências africanas adquirem uma nova dimensão. Trata-se de um fenômeno amplo, omnipresente nos espaços coloniais (francês, alemão, belga, britânico, português, espanhol e italiano). Acontece que algumas resistências ao colonialismo foram tomadas por movimentos protonacionalistas. Lideranças políticas como o rei ashanti Prempeh I, o almamy Samory Touré,o imperador etíope Menelik II, o capitão nama Hendrik Witbooi e o líder herero Samuel Maharero entraram no panteão da resistência africana, sendo alguns deles considerados heróis nacionais avant la lettre. Uma vez abandonada a perspectiva colonial das resistências africanas, houve uma inflação de movimentos de resistência ao colonialismo. Para alguns historiadores, suicídios, abortos e redução da taxa de natalidade eram sinais de resistência. Para outros, algumas formas de resistência não eram anticoloniais e não teriam o mesmo impacto e nem a mesma relevância histórica que os movimentos de luta de libertação nacional. Num ponto, talvez, havia um consenso entre os historiadores. As resistências ao colonialismo eram uma decorrência da agência africana. Durante a primeira metade do século XX, algumas formas de resistências africanas obrigaram as metrópoles a redefinir suas políticas coloniais. Porém, as greves dos trabalhadores urbanos nas cidades portuárias da África ou dos mineiros no interior do continente nem sempre tiveram um cariz anticolonial. A participação dos “evoluídos” ou dos “assimilados” em algumas associações e em várias formas de protestos reivindicatórios daria azo para novas reformas dos estatutos coloniais, mas também para projetos mais radicais, inclusive anticoloniais. A partir da década de 1960, as lutas armadas na então chamada “África portuguesa” e as ações na clandestinidade do CNA, da SWAPO e da ZANU na África austral redimensionaram as formas de resistências africanas ao “poder branco”. Nas áreas com uma expressiva população muçulmana, os movimentos de libertação nacional passaram a evocar um passado de “guerra santa”. Na altura, pensou-se de uma forma bastante original, mas, ao mesmo tempo, bastante dicotômica, que as fronteiras coloniais teriam produzido divisões irreconciliáveis entre o “mundo do colonizado” e o “mundo do colonizador”. Apesar de sua lógica binária, essa argumentação foi muito importante e instrumental para a construção da historiografia das resistências africanas. A posição anticolonial na historiografia das décadas de 1960 e 1970 favoreceu ainda uma certa idealização do passado pré-colonial. Essa busca de um “passado sem males” levou a uma releitura política das tradições e histórias religiosas que, volens nolens, contribuiu ideologicamente para a legitimação de novos estados nacionais. Para alguns historiadores, o colonialismo teria sido um capítulo breve na história da África, não mais que um hiato. Porém, a experiência colonial foi fundamental para algumas lideranças das lutas de libertação nacional e, por conseguinte, para a construção dos estados modernos. Cabe ainda lembrar que as elites africanas buscaram se legitimar no poder por meio de uma reconciliação da modernidade (pós-colonial) com uma tradição (pré-colonial). Em muitos países africanos, o regime político de partido único agiu como se a oposição fosse inimiga da nação. As guerras civis em Angola e Moçambique demonstraram também que as resistências africanas não eram somente diante do estrangeiro colonizador. As experiências políticas de um passado recente, especialmente de ditaduras militares, de guerra civil ou de regimes de partido único de nações africanas, suscitaram uma revisão teórica das resistências africanas, assim como uma seara de trabalhos inovadores em vários aspectos. Entre outras, destacam-se as contribuições Klaas van Walraven, Jon Abbink, Gregory Maddox e Frederick Cooper sobre o conceito de resistência na história da África. Cabe ainda ressaltar os trabalhos como de Nina Emma Mba e Catherine Coquery-Vidrovitch que atentaram para a agência feminina nos movimentos de resistência africana. Assim, os estudos subalternos, os estudos pós-coloniais e os estudos de gênero permitiram uma renovação das perspectivas sobre as resistências africanas dos séculos XIX e XX. Os organizadores convidam pesquisadores a contribuir com a reflexão e o debate sobre as resistências africanas desde o colonialismo até o tempo presente. A proposta é trazer à baila novos aportes para a historiografia sobre certos movimentos políticos e/ou religiosos na África desde a colonização até a globalização. Passados 120 anos do fim do Estado mahdista no Sudão e do estabelecimento do Condomínio anglo-egípcio, os estudos sobre as resistências africanas têm uma série de “rebeliões”, “levantes” e “guerras” a revisitar, bem como outras formas de resistência por identificar.