Vozes negras no candomblé baiano: Quando a raça importa e quando a raça não importa

Ari Lima, Nana Luanda M. Alves, Comissão Editorial Nau Literária

Resumo


Desde o final do século XIX, as religiões de orientação africana são seguramente um dos temas mais estudados no que diz respeito à problematização da presença africana e descendente no Brasil. Estas religiões têm agregado majoritariamente negros, mas também mestiços e brancos. Têm se constituído como uma reserva de memória, gestos, falas, relações e laços sociais de orientação africana, mas também de memória, gestos, falas, relações e laços sociais gerados durante a colonização, a escravidão e o pós-escravidão no Brasil. A hipótese deste trabalho - proposto ao Eixo de discussão: Vozes luso-africanas e negras, do III Seminário Brasileiro de Poéticas Orais -, é que um aspecto fundamental que também tem constituído o candomblé é a experiência da raça, do racismo e das desigualdades raciais que se manifesta ou é silenciada, em particular, através das vozes e das performances que lhe dizem respeito nos contextos desta religião. O trabalho é um resultado parcial de um projeto de pesquisa que propõe historicizar e mapear a prática religiosa de orientação africana em Alagoinhas, cidade localizada a 117 Km, da capital baiana, Salvador. Do ponto de vista teórico e conceitual, toma-se “raça” como constructo social que configura relações, racismo e desigualdades raciais orientadas por uma ideia do “negro”. Logo, a vigência da raça é histórica, social, política e cultural, tanto quanto transversalizada por questões de gênero, sexualidade, origem territorial e interceptada por um continuum de cor e fenotipia. A pesquisa vem sendo realizada através de revisão bibliográfica sobre a temática das religiões de orientação africana, pesquisa em arquivos públicos e/ou privados, coleta de depoimentos e observação participante em espaços de prática religiosa de orientação africana em Alagoinhas. Neste caso, são consideradas dimensões de intersubjetividade, relações de poder dentro e fora do universo do candomblé e a complexidade da representação alheia através da enunciação e transcrição da voz. Também se busca menos a continuidade ou ruptura histórica através de detalhes documentados e mais a possibilidade de se inferir concepções básicas e estruturas simbólicas entre o passado e o presente. Do mesmo modo, de um ponto de vista analítico, esta pesquisa em vez de trabalhar com a noção de “matriz africana”, que remete a um polemizado ideal de pureza e a uma ideia vaga de todo o continente africano, adota a noção de religião de “orientação africana” que aponta, porém não congela a referência à África.

Palavras-chave


Raça; Voz negra; História; Candomblé.

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DOI: https://doi.org/10.22456/1981-4526.43464

Revista Nau Literária | ISSN 1981-4526 | Universidade Federal do Rio Grande do Sul