Um herói às avessas revisitado: do “Tatu” do cancioneiro popular ao Tatu da novela de Donaldo Schüler

Lisana Bertussi, Comissão Editorial Nau Literária

Resumo


Tendo em vista a importância das composições poéticas do cancioneiro popular gaúcho, reunidas no Cancioneiro guasca de Simões Lopes Neto (1910) e no Cancioneiro gaúcho de Augusto Meyer (1959), como configurações do universo regional gauchesco e a presença, nas duas compilações, do poema narrativo “O Tatu”, que é também motivo de fandango e uma espécie de fábula, em que esse animal representa o homem sul-rio-grandense, em todas as suas inserções sociais na História do estado, seja nas revoluções, seja nos movimentos de imigração e migração, tanto de italianos quanto de alemães, e em suas relações pessoais com a mulher e os filhos, o estudo dedica-se a tomá-lo como uma desconstrução do mito do gaúcho, representação simbólica emblemática, traduzida em duas facetas: o monarca das coxilhas, por seu sentimento antimonarquista, gosto pela liberdade e autonomia, que o caracteriza, e centauro dos pampas, por sua forte ligação com o cavalo, companheiro nas lidas diárias e nas contendas bélicas. E como esse poema narrativo foi motivo de diálogo intertextual para a construção da novela O tatu: rimance, do crítico e escritor gaúcho Donaldo Schüler (1982), essa inquirição coloca lado a lado os dois textos, para demonstrar o quanto a narrativa moderna é uma retomada da possibilidade de desconstrução da idealização, característica das composições da literatura regionalista gauchesca, tendência que vem desde as fontes populares do cancioneiro e, reforçada pelo romantismo, chega também aos tempos modernos. Demonstra-se que a novela em questão apresenta um trabalhador rural, colocado como o Tatu numa posição de anti-herói e, através do método comparativo, como ambas as personagens estão despidas das qualificações do herói, pela pobreza e pelas condições inumanas a que estão sujeitas, e podem representar a opressão do homem comum num sistema que não lhes permite alçar-se acima da miséria que as acompanha, como é o caso do Capitalismo moderno.

Palavras-chave


Literatura sul-rio-grandense; Regionalismo; Literatura oral; Novela; Desconstrução do herói.

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DOI: https://doi.org/10.22456/1981-4526.43376

Revista Nau Literária | ISSN 1981-4526 | Universidade Federal do Rio Grande do Sul