Contratempos durante a viagem à Índia, com Gonçalo M. Tavares

Kim Amaral Bueno, Comissão Editorial Nau Literária

Resumo


Em Uma viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, a viagem sugerida no título ganha alguns desdobramentos que transcendem à temática diegética da narrativa. O caminho “físico” percorrido pelo protagonista, de Lisboa em direção à Índia, é apenas mote para representar o deslocamento interno de Bloom, atravessando sentimentos que oscilam da culpa ao tédio, da necessidade de fuga à busca pela sabedoria. A recuperação do mito camoniano ocorre pela profanação. Tavares constitui a epopeia de um único homem cujo nome fora emprestado por Joyce (e por toda a tradição literária) na qual não há mais nação, heroísmos nem glórias, apenas a fuga, o permanente trânsito. Operam-se também, na obra, deslocamentos formais da ordem da linguagem e do gênero. O modo como Tavares lê a modernidade se reflete na trama numérica estabelecida entre as centenas de estrofes distribuídas pelos dez cantos da obra. A potência poética profanadora de cada um destes estratos textuais produz um ponto arquimediano poético/linguístico/narrativo capaz de problematizar, no indeterminado espaço da contemporaneidade marcada por um século cuja crença no progresso tecnológico viabilizou as grandes fábricas de morte, o homem que nele deseja conservar a sua “alma”, este elemento que, nas palavras de Tavares, ainda “não perdeu a atualidade”. A cartografia da viagem poético-narrativa de Bloom por entre o tédio, a fuga e a melancolia é traçada num plano cartesiano de ações, intenções e sentimentos cujo resultado é um Itinerário da melancolia contemporânea, subtítulo desta Viagem à Índia.

Palavras-chave


Gonçalo M. Tavares; viagem; gêneros literários; alteridade.

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DOI: https://doi.org/10.22456/1981-4526.43369

Revista Nau Literária | ISSN 1981-4526 | Universidade Federal do Rio Grande do Sul