Outras Harmonias Insuspeitas: um estudo da (in) variabilidade discursiva em mitos indígenas à luz da semiótica francesa

Brito,$space}Clebson Luiz de (clebsonlb@gmail.com)
Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, Universidade Federal de Minas Gerais
fevereiro, 2011
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Graduado em Letras pela UFMG, Mestre em Linguística do Texto e do Discurso pela UFMG e atualmente doutorando do Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos da UFMG na linha de pesquisa em Análise do Discurso.
 

Resumo

Realizamos, ao longo de nossa pesquisa, um estudo discursivo de narrativas míticas oriundas de tribos indígenas do Brasil, buscando apreender, por meio de um confronto dos diferentes discursos, as regularidades que lhes são subjacentes. Por “estudo discursivo”, designamos um estudo que se concentrou no plano de conteúdo das narrativas selecionadas e, mais especificamente, nos mecanismos intradiscursivos de que elas se valem para construir o sentido. No que diz respeito aos discursos analisados, estes foram tomados como objetos significativos e representativos da sociedade a que se referem, bem como singulares no que diz respeito à veiculação de uma voz coletiva, que fala de si, para si e sobre a realidade que lhe é própria. Analisar narrativas míticas de diferentes culturas, nessa perspectiva, significa necessariamente debruçar-se sobre uma variabilidade no que diz respeito à superfície textual, na medida em que cada uma delas tende a materializar particularidades ligadas à tradição, às práticas sociais, às experiências, às crenças de cada grupo. Por isso, como forma de abordar essa diversidade mais superficial em busca de regularidades, aproximações e similaridades, recorremos à semiótica francesa (ou greimasiana), teoria que, buscando explicitar as estruturas significantes dos discursos, postula que a diversidade discursiva se constrói sobre estruturas menos flexíveis, ou seja, que discursos muito diferentes na superfície textual guardam, em níveis mais profundos, regularidades do ponto de vista de determinadas relações lógicas. Por opção metodológica, partimos de dois eixos temáticos recorrentes no acervo de mitos indígenas brasileiros já coletados por outros pesquisadores: o da aquisição do fogo e o do surgimento da lua, dos quais selecionamos um total de oito textos, quatro para cada eixo escolhido. Procedemos, primeiramente, a um exame individual dos textos para, então, confrontá-los em busca de suas regularidades, tanto no que diz respeito a cada eixo temático especificamente, quanto em relação ao corpus como um todo. Os resultados, obtidos pelo cotejo dos dois eixos temáticos contemplados, revelam discursos marcados pelo combate ao fazer da individualidade, entendido como dissociado do estado de civilização/cultura, bem como por um forte sentimento de elevação pela cultura, que diferencia os homens (índios) dos seres circunscritos ao domínio da natureza.