Kyringüé mboraí : os cantos das crianças e a cosmo-sônica Mbyá-Guarani

Stein,$space}Marília Raquel Albornoz
Programa de Pós-Graduação em Música, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
abril, 2009
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Resumo

Os Mbyá-Guarani são um subgrupo indígena de fala Guarani, pertencente à família lingüística Tupi-Guarani. Estima-se que cerca de 5.000 pessoas da etnia Mbyá vivam entre o Sul e o Sudeste brasileiro. As crianças indígenas Mbyá-Guarani e as performances musicais e lúdicas que as envolvem cotidianamente são o tema central desta tese desenvolvida a partir de uma etnografia norteada pela Etnomusicologia, em uma aldeia Mbyá-Guarani, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Neste estudo reflito sobre o protagonismo das crianças Mbyá como agentes sociais co-responsáveis pela construção do modo de ser Mbyá-Guarani e problematizo o estudo da música nos moldes ocidentais, no sentido de descrever etnograficamente categorias êmicas Mbyá relacionadas ao âmbito sonoro, cuja centralidade na sociocosmologia Mbyá indico pelo termo "cosmo-sônico". A partir da análise músico-performática, textual e músicoestrutural de três âmbitos de performance musical de que as crianças participam - as apresentações dos mboraí (cantos sagrados) pelos grupos de cantos e danças tradicionais Guarani, as gravações dos mboraí em diversos CDs e as performances cotidianas dos kyringüé mboraí (cantos das crianças) -, apresento os significados que os Mbyá compartilham e negociam sobre estas performances, sobre ser criança e sobre sua musicalidade. A análise destes cenários indica seu vínculo a uma outra esfera performático-musical, às rezas xamânicas, assim como aos processos de construção da pessoa, da etnia e do território. Interpretei que a agentividade (agency) entre as kyringüé se expressa, por um lado, no âmbito ontológico. A concepção de uma criança é vista como um sinal de satisfação das divindades na relação com os humanos e ao mesmo tempo propulsora desta relação; os adultos, ao se tornarem mais alegres e sábios no convívio com as crianças, ganham força para criar cantos e cantar, no caminho de se tornarem mais próximos às divindades. Por outro, no âmbito da cosmo-sônica Mbyá, a performance cantada das crianças, variavelmente conforme o âmbito de performance musical em que se realiza, desencadeia emoções nos humanos, colaborando na constituição de caminhos de comunicação destes com as divindades e na perpetuação da vida na Terra; media a relação dos Mbyá com os não-indígenas; faz circular capacidades e notícias entre os Mbyá de diferentes aldeias; ou ainda media as relações afetivas, de cuidado e de diálogo das kyringüé entre si e com seus afins adultos.