Gregory Bateson e o processo comunicativo





RESUMO
Em busca de proposições para a definição do conceito de comunicação, este artigo apresenta a revisão de dois trabalhos de Gregory Bateson: Communication, the social matrix of psychiatry, de 1965, em co-autoria com Jurgen Ruesch e Communication, de 1971, capítulo de abertura da obra coletiva The natural history of an interview. Conforme Yves Winkin, o trabalho de Bateson situa-se no modelo orquestral da Comunicação, que postula a circularidade e a complexidade dos processos comunicativos. Gregory Bateson, com sua formação interdisciplinar, traz contribuições importantes para a compreensão do caráter interativo da comunicação, bem como para a definição de seu estatuto enquanto disciplina fundamental para a compreensão da vida social.
PALAVRAS-CHAVE: Gregory Bateson. Processo comunicativo. Interação.


1 Introdução

Nos anos 1950, pesquisadores formam em Palo Alto (Califórnia) e na Filadélfia (Costa Leste), nos Estados Unidos, uma rede de investigação que ficou conhecida como colégio invisível. Uma nova leitura da comunicação era trazida nos trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores americanos. Em La nouvelle communication, Yves Winkin (1998) resgata a história da escola, tomando a metáfora da orquestra em contraposição ao telégrafo para discutir o modelo proposto por eles. Os integrantes da escola possuíam formação antropológica – Gregory Bateson, Erving Goffman, Edward T. Hall e Ray Birdwhistell – e psiquiátrica – Don Jackson, Paul Watzlawick e Albert Scheflen.

A mobilização de diferentes campos científicos para a análise do processo comunicativo resultou, a partir de leituras de fenômenos distintos, como sessões de psicoterapia ou lontras brincando, em formulações inaugurais que combinavam cibernética, psicologia e antropologia. Este artigo apresenta a revisão de dois trabalhos de Gregory Bateson em busca de suas proposições para a comunicação. O intuito é investigar argumentos que inspiram o modelo orquestral. Conforme Winkin (1998), a orquestra aponta para a comunicação como ordenada por um mecanismo superior (social) que a antecede; ela é marcada por múltiplos comportamentos, pela vida social e por um vasto sistema de integração. Na orquestra, o pesquisador faz parte do processo comunicativo. que é circular, global e de múltiplos níveis.

A teoria cibernética de Norbert Wiener, de 1948, e a teoria dos sistemas de Ludwig von Bertalanffy, de 1950, inspiraram de maneira decisiva a construção do modelo orquestral do colégio invisível. Winkin retoma o histórico das pesquisas de Wiener, mostrando que, com a Segunda Guerra Mundial, surge como objeto de investigação o desempenho de tiros de canhões antiaéreos, estudo precursor e pedra angular da cibernética.


Como o avião voa a uma velocidade muito alta, é preciso poder prever a sua posição futura com base em suas posições anteriores. Se o canhão for informado sobre o desvio entre a trajetória real e a trajetória ideal de seus obuses, pode conseguir cingir progressivamente o avião e finalmente abatê-lo. Wierner reconhece nesse problema o princípio conhecido e utilizado há muito tempo: o feedback ou retroação. (WINKIN, 1998, p. 24).

A idéia é relativamente simples: supondo a retroação, a cibernética busca mostrar que os efeitos atuam sobre as causas, ultrapassando a análise linear, modelada por uma via unidimensional. Já a pesquisa sobre os sistemas, coordenada pelo biólogo Bertalanffy, observa que as várias disciplinas trabalham com a articulação de sistemas de elementos para a construção do conhecimento. Winkin (1998, p.25) resgata a teoria, que define um sistema “[...] como um complexo de elementos em interação, sendo essas interações de natureza não aleatória”.

Todas essas características afastam-se do modelo do telégrafo, termo que lembra o objeto de investigação da obra de Claude Shannon, ex-aluno de Wiener, Teoria matemática da comunicação, publicada em 1949, contemporânea, portanto, às pesquisas de Palo Alto.


Por sistema de comunicação referimo-nos a um sistema [...] consistindo essencialmente de cinco partes: uma fonte de informação que produz a mensagem [...] um transmissor, que exerce determinada operação sobre a mensagem [...] o canal é simplesmente o meio utilizado para enviar o sinal [...] o receptor ordinariamente executa uma operação reversa ao do transmissor [...] e o destino é a pessoa (ou coisa) a quem desejamos alcançar com as mensagens transmitidas. (SHANNON; WEAVER, 1975, p.35-36).

A partir da definição de Shannon e Weaver, Winkin (1998, p.26) chama atenção para a natureza da informação na teoria matemática: “[...] não se trata de informação no sentido corrente de ‘notícia’ ou ‘instrução’, ‘informe’. Trata-se de uma grandeza estatística abstrata que qualifica a mensagem independentemente de sua significação”. Winkin mostra que a informação no modelo telegráfico é cega, o que ia ao encontro dos sistemas de computação que eram desenvolvidos na época. A teoria matemática influenciou as ciências sociais e assentou uma idéia de comunicação esvaziada da produção de sentido, simplificada em caixinhas conectadas em direção unilateral.

Ao contrário de Shannon e Weaver, que partiram de problemas técnicos enfrentados pelos telefones para definir um modelo linear de comunicação, os pesquisadores de Palo Alto e da Filadélfia têm como ponto de partida a cibernética e a teoria dos sistemas para buscar um modelo orquestral da comunicação. O colégio invisível volta-se ao fenômeno da comunicação interpessoal, reivindicando um olhar próprio das ciências sociais para o processo comunicativo. Apesar das particularidades de cada um dos trabalhos do colégio invisível e dos desdobramentos da escola, Winkin (1998, p.32-33) levanta como ponto de vista comum a compreensão da “complexidade da menor situação de interação”, sendo “[...] inútil querer reduzi-la a duas ou várias ‘variáveis’ que operem de maneira linear”. Assim, a “comunicação é um todo integrado”.

A leitura dos trabalhos de Gregory Bateson, um dos fundadores da escola de Palo Alto, procura resgatar passagens, conceitos e posicionamentos que indiquem a globalidade do processo comunicativo. Foram escolhidos os trabalhos Communication, the social matrix of psychiatry, de 1965, em co-autoria com Jurgen Ruesch e Communication, de 1971, capítulo de abertura da obra coletiva The natural history of an interview. A teoria do duplo constrangimento, desenvolvida inicialmente por Bateson em conjunto com um grupo de pesquisadores em um artigo de 1956 intitulado Para uma teoria da esquizofrenia, e sua biografia abrem o artigo.

Gregory Bateson (09/05/1904 – 04/07/1980) nasceu em Grantchester e naturalizou-se norte-americano em 1956. Gregory Bateson era o filho mais novo do biólogo William Bateson, o primeiro cientista a usar o termo genética para descrever o estudo da hereditariedade. Gregory Bateson, assim como seu pai, formou-se em Biologia (Natural History) em Cambridge em 1925. Entre 1931 e 1937, ele foi membro da Universidade, já trabalhando em atividades interdisciplinares. No final desse período, ele se muda para os Estados Unidos.

Sua trajetória pessoal é marcada pela morte dos dois irmãos, John, o mais velho, durante a Primeira Guerra Mundial (em 1918), e Martin, que suicida-se em 1922. Gregory Bateson casa-se em 1936 com a antropóloga Margaret Mead, com quem teve a filha Mary Catherine Bateson, também antropóloga. Em 1947, eles se separam. Gregory Bateson casa-se novamente em 1951 com Elizabeth Sumner. Eles têm um filho, John Sumner Bateson. Em 1957, Bateson separa-se de Elizabeth, casando-se mais uma vez em 1961 com Lois Cammack. Em 1969, nasce sua filha Nora Bateson.

A produção intelectual de Bateson é acompanhada principalmente pelo seu trabalho como terapeuta, já que ele não traçou uma trajetória acadêmica regular em universidades. David Lipset (1982), biógrafo de Bateson, mostra os problemas didáticos das palestras e cursos de Bateson, que não preparava nem mesmo anotações para seu auditório. A rede de parcerias que estabeleceu em suas pesquisas envolve as ciências sociais (especialmente, a antropologia e a etnografia), a psiquiatria, a ecologia, a biologia e a cibernética.

O conceito mais célebre de Bateson é o duplo constrangimento (double bind), desenvolvido em Palo Alto, junto com Donald Jackson, Jay Haley e John Weakland. A teoria, relacionada à esquizofrenia, postula que os sintomas da doença seriam expressão da angústia causada pelas situações de duplo constrangimento, que se refere a um paradoxo na comunicação. Há alguns pressupostos para a identificação dessas situações, tais como: a vítima toma contato com mensagens emocionais contraditórias (a criança é encorajada a falar livremente, mas, quando o faz, é criticada) ou nenhuma metacomunicação é possível (como perguntar qual das duas mensagens é válida). As bases da investigação psicoterápica concentram-se nas práticas comunicativas: no terreno da comunicação humana, situam-se indícios e causas da esquizofrenia. As relações interpessoais são vistas como o processo de receber mensagens, interpretá-las e retorná-las – sob a forma de metamensagens; nos indivíduos esquizofrênicos não há a possibilidade da metacomunicação, ou seja, dizer algo sobre o conteúdo mesmo das mensagens.

A análise das situações de duplo constrangimento concentrase no exame da comunicação entre os membros da família. Yves Winkin (1998, p.50-51) conta que ao longo do desenvolvimento do conceito, aplicado em tratamentos psiquiátricos e discutido em âmbito acadêmico, Bateson se afasta do grupo de pesquisadores, pois não pretende circunscrever seu trabalho à psiquiatria: “[...] enquanto seus colegas prosseguem seus trabalhos no interior da psiquiatria, Bateson retoma a sua vasta interrogação sobre a comunicação [...] Interessa-se pelos modos de interação entre os polvos, e depois entre os golfinhos”. Além disso, o conceito de duplo constrangimento alcançou outros âmbitos da pesquisa de Bateson, conforme Winkin (1998, p.50): “não é mais o duplo vínculo no seio do sistema familial, mas, sim, o sistema familial no seio do duplo vínculo” (grifos do autor). Bateson leva a postulação do conceito ao conjunto de seu trabalho. Winkin (1998, p.53) caracteriza os próprios métodos do autor como derivados da reflexão sobre a questão do duplo constrangimento e do processo comunicativo: “Bateson sempre se observou enquanto refletia”.


2 Communication, the social matrix of psychiatry

Communication, the social matrix of psychiatry[¹] foi publicado em 1965 em parceira com o psiquiatra Jurgen Ruesch. Diante dos novos estatutos da psiquiatria – que não se circunscrevia mais apenas às clínicas, definindo outros campos de atividade – a pesquisa traz, assim como o conceito de duplo constrangimento, o processo comunicativo como o cerne da prática psicoterápica ou psicoterapêutica. O corpus de análise corresponde a inúmeras entrevistas e sessões com mais de trinta psiquiatras. O interesse pela comunicação refere-se à busca pela compreensão das relações humanas, já que ela vincularia e definiria as relações entre os indivíduos dentro de uma situação social. Conforme Bateson e Ruesch (1965, p.17), “[...] a comunicação é a matriz em que estão cravadas todas as atividades humanas”[2]. A proposta do trabalho é articular o individual e o social, e a comunicação é vista como prática que define aspectos físicos, intrapessoais, interpessoais e culturais dos acontecimentos. Bateson e Ruesch (1965, p.11) discutem que a comunicação não “[...] se refere somente à transmissão verbal, explícita e intencional de uma mensagem”, mas “inclui todos os processos através dos quais as pessoas se influem mutuamente”. A formulação ressalta a dinâmica interativa entre os indivíduos que, diante uns dos outros, percebem seus próprios atos, recebem impressões, modificam/moldam ações e retêm informações para ações futuras. Dessa maneira, a psiquiatria, tratando de indivíduos singulares, não perderia de vista os processos amplos: “[...] é possível considerar a rede interna do organismo como parte da rede interpessoal mais ampla ou, inclusive, a rede transpessoal (cultural)”.

Como premissas básicas, os autores distinguem a comunicação interpessoal, intrapessoal e de massa. A comunicação interpessoal se caracteriza pela presença de atos expressivos por um ou mais indivíduos, pela percepção (consciente ou inconsciente) desses atos e pela observação que essas ações foram notadas, o que interfere na conduta. A comunicação intrapessoal refere-se ao registro interno de experiências passadas dentro dos indivíduos e, ao contrário da comunicação interpessoal, é impossível saber se há erro na interpretação, pois não é possível avaliar e corrigir possíveis enganos. A comunicação de massa (rádio, televisão, cinema e imprensa) é caracterizada pela participação dos indivíduos em um grande sistema suprapessoal, que não permite o conhecimento da totalidade do sistema. Com isso, não é possível observar os efeitos imediatos das mensagens, o que dificulta a correção de possíveis distorções.

Outras premissas do processo comunicativo são os “instrumentos” da comunicação: órgãos sensoriais receptores, órgãos transmissores, lugar de origem e destino das mensagens e outras partes do corpo que protegem os aparatos para a comunicação. Bateson e Ruesch (1965, p.20) caracterizam as funções da comunicação como receber e transmitir mensagens, obter informação, “[...] operar com a informação existente a fim de deduzir novas conclusões que não haviam sido percebidas e para reconstruir o passado e antecipar o futuro [...] ”, modificar processos fisiológicos dentro de seu corpo e influir outras pessoas e acontecimentos; efeitos da comunicação: facilitar o amadurecimento dos indivíduos através da interdependência de ações corretivas.

O processo comunicativo é caracterizado pelo contínuo registro e emissão de sinais. Na dinâmica, ao reter mensagens recebidas e enviadas, os indivíduos avaliam traços comuns em eventos diversos. A atividade, que abarca a ação e a linguagem, é abstrata, e os seres humanos tornam-se preparados para se comunicar, prevendo e antecipando eventos com habilidade, quando já se expuseram suficientemente a acontecimentos anteriores.

O conceito de matriz social é, então, definido como estímulos repetitivos e consistentes a que os indivíduos se expõem. Para Bateson e Ruesch (1965, p.13), “[...] o estímulo dá forma a uma resposta, e uma vez que esta tenha sido aprendida, o indivíduo se encontra condicionado a buscar aqueles estímulos que colocariam em funcionamento suas respostas”. Os autores comparam o processo ao leito de um rio: tanto a água vai aprofundando a superfície da terra como suas margens definem a direção da corrente. Para definir o curso do rio não é possível separar entre causa e efeito a corrente de água ou a conformação das margens. Estímulo e resposta no processo comunicativo estão unidos em relação a valores que “[...] são, por assim dizer, simplesmente os canais preferidos para a comunicação e a relação”. É possível interpretar mensagens quando se identificam os valores colocados, definindo os rumos da conduta dos indivíduos, que se afetam mutuamente. Os valores, assim, não são restritos a um indivíduo, mas compartilhados por grupos e sociedades.

A herança da Escola de Chicago, impregnada pela matriz pragmatista e consolidada cerca de quarenta anos antes, apesar de não ser citada pelos autores, dialoga com essas premissas. O conceito de cadeia de gestos significantes, tratado por George Herbert Mead em Mind, self and society, publicado em 1934 (três anos depois de sua morte), aproxima-se da dinâmica de mútua afetação proposta por Bateson e Ruesch. Para Mead, entre atitudes e estímulos dos interlocutores, significados são produzidos no movimento contínuo de reação e de ajuste dos gestos. Nesse sentido, a significação é dada pela consciência dessa reflexividade entre gestos e estímulos, o encadeamento de gestos significantes, em que não há adição psíquica em sua definição. Mead (1993, p.112) mostra que ela deriva das ações dos indivíduos em interação: “[...] tal é o mecanismo geral do que chamamos ‘pensamento’, porque para que o pensamento exista é preciso que haja símbolos, gestos vocais em geral, que provocam no indivíduo mesmo a reação que está em condições de dirigir sua conduta posterior”. Os interlocutores se constituem a partir da habilidade para atuar diante do outro e da capacidade reflexiva de projetar seu lugar na escolha do gesto mais apropriado à interação.

A chave de leitura estímulo e resposta, com a configuração processual do significado, é semelhante em ambos trabalhos. A abordagem da mútua afetação dos interlocutores e do social (para Mead, a antecedência do social), dos valores e da cultura também podem ser aproximadas. A reflexividade de Mead, vista na capacidade dos interlocutores de se projetarem diante do outro, dialoga com a formulação do processo comunicativo em Communication, the social matrix of psychiatry, que baseia-se na leitura do processo ativo de ajuste de ações e gestos entre os interlocutores. A pedra angular da comunicação é a dimensão global e prática da afetação entre indivíduos que se configuram diante uns dos outros, não determinando causa e efeito do processo ou ceifando (descontextualizando) a ação comunicativa. O pano de fundo que orienta as práticas – para Bateson e Ruesch, a situação social e a rede transpessoal; para Mead, a sociedade e o outro generalizado atuante na construção do self – localiza a comunicação no terreno da dinâmica da vida social, que enseja, de maneira dinâmica, variados aspectos contextuais.


3 Communication

Communication é o texto de abertura da monumental The natural history of an interview, que analisa uma entrevista psiquiátrica com três pacientes de uma mesma família: Doris, Gregory e o filho do casal. Inúmeros detalhes, como a dinâmica corporal e vocal, são pesquisados, buscando compreender os diversos níveis de envolvimento dos participantes. O artigo de Bateson (1981) apresenta os pressupostos que orientaram o estudo, cujo interesse novamente é o âmbito da comunicação humana. Dois eixos de teóricos são mobilizados: os conceitos de Sigmund Freud e da psicologia da forma.

O primeiro conjunto de premissas relaciona-se a conceitos freudianos. A noção de inconsciente é acolhida como pressuposto, pois, conforme Bateson (1981, p.119) “[...] somente certos aspectos da comunicação humana podem aceder à consciência dos participantes”. Bateson afirma que, para Freud, o inconsciente não se relaciona exclusivamente ao recalque. O aprendizado se dá por hierarquia, e vão para o inconsciente estímulos e referências que não são usadas. A presença de significado é outra premissa também relacionada aos conceitos freudianos, já que tudo possui significação. Freud lê os significados a partir do psiquismo. Para a comunicação, Bateson localiza o processo de significação no âmbito interpessoal: tudo que dizemos tem a ver com a relação estabelecida.

Os procedimentos primários, trazidos por Bateson (1981, p.121) como a “[...] idéia que a elaboração de mensagens, verbais ou não-verbais, se efetua pelos truques de processos primários”, são premissa do trabalho que toma as mensagens como povoadas pelos sonhos e pelo imaginário. Toda mensagem possui elementos inconscientes dos processos primários (emoções básicas, pulsões sexuais, medos, desejos, fantasias) que estão presentes e atuam em sua configuração. Ultrapassar a separação entre razão e emoção através da análise do processo comunicativo é observar a inteireza, o todo que atua de maneira global. Os mecanismos freudianos de transferência, projeção e identificação também são pressupostos da análise do processo comunicativo por Bateson e seu grupo.

O segundo conjunto de premissas relaciona-se à psicologia da forma, assinalando as noções de percepção e de quadro na configuração do processo comunicativo. A hipótese dos estudos da Gestalt pontua a emergência da significação a partir da composição de quadros – com figura e fundo. Iluminando aspectos mais relevantes e apagando informações não necessárias para as situações, os quadros vão sendo compostos processualmente. Não há fixidez ou definição prévia dos quadros, eles são móveis, variando de acordo com o contexto: para a sua definição, participam a cultura e os valores. A percepção das experiências, portanto, se dá em relação aos valores, que são situados contextualmente. Nesse processo, os quadros vão sendo encaixados. O nível hierárquico mais elevado é composto pela maneira como os quadros se organizam nos outros níveis, sendo associados globalmente para a significação ser construída. Bateson (1981, p.127) aponta que a “[...] ‘significação’, no sentido em que esse termo é utilizado na linguagem ordinária, emerge somente a um nível mais elevado dessa hierarquia”, ou seja, cada etapa superior recoloca um elemento do nível inferior em seu patamar.

O contexto é definido pelo conjunto de elementos presentes e interagindo em uma situação. No estudo de The natural history of an interview, a fala da paciente Doris é tanto a anterior como a posterior do quadro recortado. O contexto situado é imediato, no entanto, ele se mostra inteiro no presente.

Assim, a comunicação é fundamentalmente interacional – Bateson aqui aponta a referência de G. H. Mead para sua definição. O estudo desenvolvido no trabalho não é de Doris ou de Gregory, mas, sim, do agregado superior que se passa entre eles. A noção interativa dos processos comunicativos coloca algo além do conteúdo do diálogo entre os parceiros. Conforme Bateson (1981, p.130), “[...] a resposta que obtemos nos diz qualquer coisa sobre a disposição do receptor, uma vez que ele recebeu os sinais que nós emitimos”. A investigação baseia-se na situação de interação, na identificação de regras comuns estabelecidas pelos sujeitos para a compreensão das mensagens. Não se tratam apenas de conteúdos, mas de formatos de mensagens construídos no processo interativo. Conclui-se que toda operação de comunicação comporta um aprendizado permanente de acordos e de negociações, a partir não somente de conteúdos estabelecidos, mas de formatos propostos.


4 Para concluir

A leitura dos trabalhos de Gregory Bateson revela a riqueza de campos científicos envolvidos nas Ciências da Comunicação. A formação – e a inspiração – interdisciplinar do autor faz com que esses campos dialoguem de maneira complexa, sem perder de vista o foco no processo comunicativo. Diante do pesquisador da orquestra de partitura invisível, colocam-se desafios que o modelo telegráfico não supunha. Definir a circularidade e os múltiplos níveis envolvidos na comunicação humana corresponde à visada mais adequada para a compreensão do processo, dada sua raiz humana, social e lingüística.

Trabalhando na injunção interacional e situacional da comunicação, resgatam-se quadros singulares que dialogam com o contexto. A circularidade do processo comunicativo é evidenciada por múltiplos níveis, pela mútua afetação dos parceiros, pela configuração da cadeia de gestos significantes. A caracterização da matriz social a partir da comparação com o leito de um rio ressalta a dinâmica e a não-fixidez do tecido social: os valores e os rumos da conduta dos indivíduos são definidos de maneira processual, referendados em gestos anteriores, mas também abertos à atualização constante. Para isso, a base pragmatista da comunicação é fundamental. Os interlocutores constroem suas interações fundados em momentos presentes, efetivos e atuais da comunicação.

Outra contribuição importante de Bateson refere-se à discussão do caráter interativo da comunicação. O processo comunicativo é marcado não somente pelas trocas de conteúdos entre os parceiros da interação. Ao dialogarem, os interlocutores estabelecem formatos de mensagens, que fazem referência a algo além da simples troca de informação. Na análise das entrevistas com Gregory e Doris, está em jogo o agregado superior que os parceiros acionam no curso da interação.

Uma última observação: apesar de Gregory Bateson e outros autores radicados no modelo orquestral estarem sendo relidos atualmente na área, seus conceitos ainda não se traduziram em ferramentas metodológicas adequadas para o trabalho com a comunicação. Hoje, este é o desafio colocado para as ciências da comunicação.


Gregory Bateson and the communicative process
ABSTRACT
Searching for propositions for the definition about the concept of communication, this article presents the review of two works by Gregory Bateson: Communication, the social matrix of psychiatry, of 1965, co-writen with Jurgen Ruesch, and Communication (1971), opening chapter of the collective work The Natural History of an interview. According to Yves Winkin, the Bateson’s work is situated in the orchestral model of communication, that states the circularity and complexity of the communicative processes. Gregory Bateson, with his interdisciplinary background, brings important contributions to the knowledge of the interactive character of communication, as well as the the definition of its status as a fundamental discipline for the comprehension of social life.
KEYWORDS: Gregory Bateson. Communicative process. Interaction.


Gregory Bateson y el proceso comunicativo
RESUMEN
En busca de las proposiciones para la definición del concepto de comunicación, este artículo presenta la revisión de dos trabajos de Gregory Bateson: Communication, the social matrix of psychiatry, de 1965, escrito con Jurgen Ruesch y Communication, de 1971, capítulo de apertura de la obra colectiva The natural history of an interview. Según Yves Winkin, el trabajo de Bateson se coloca en el modelo orquestal de la comunicación, que demanda la circularidad y a la complejidad de los procesos comunicativos. Gregory Bateson, con su formación interdisciplinaria, trae contribuciones importantes para la comprensión del carácter interactivo de la comunicación, así como para la definición de su estatuto cómo disciplina fundamental para la comprensión de la vida social.
PALABRAS CLAVE: Gregory Bateson. Proceso comunicativo. Interacción.


Notas
[1] Cada capítulo do livro é assinado por um dos pesquisadores, ou seja, apesar da parceria de Jurgen Ruesch e Gregory Bateson, não há textos conjuntos. Tomamos aqui o capítulo de abertura do livro, que, apesar de ser assinado por Ruesch, traz as premissas do trabalho desenvolvido no conjunto da pesquisa apresentada na obra.
[2] Todas as citações são traduções da autora a partir da obra em castelhano, publicada pela editora Paidós.

Referências

[<]BATESON, Gregory; RUESCH, Jurgen. Comunicacion: la matriz social de la psiquiatria. Buenos Aires: Paidos, 1965.

[<]BATESON, Gregory. Communication. In: WINKIN, Yves (Org.). La nouvelle communication. Paris: Éditions du Seuil, 1981. (Points essais n. 136).

[<]LIPSET, David. Gregory Bateson: the legacy of a scientist. Boston: Beacon Press, 1982.

[<]MEAD, G. H. Espiritu, persona y sociedad. México: Paidós, 1993.

[<]SHANNON, Claude; WEAVER, Warren. Teoria matemática da comunicação. São Paulo, Rio de Janeiro: Difel, 1975.

[<] WINKIN, Yves. A Nova comunicação. Da teoria ao trabalho de campo. São Paulo: ed. Papirus, 1998.


Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social / UFMG.
Mestre em Comunicação Social / UFMG.
Professora da Faculdade Promove de Belo Horizonte /MG.
Pesquisadora do GRIS.
E-mail: ligialana@gmail.com
Curriculo Lattes





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