Fazer ciência:

o lugar do conceito




RESUMO
Este texto visa abrir uma discussão acerca da pesquisa contemporânea, investindo o enfoque no discurso científico para uma abordagem dinâmica de estratégias discursivas. Tento realizar uma reflexão crítica sobre a produção do saber em alguns procedimentos conceituais. Neste caso, remeto o olhar a uma consideração teórico-metodológica que pretende contribuir à atualização do discurso da ciência, hoje, e permita propor maior flexibilidade e deslocamento diante das diferentes produções de conhecimento. Este trabalho, portanto, não pretende expor, diretamente, idéias sobre ciência, mas sobre o discurso dito científico. Nesta investigação crítica, apresento sucintamente a noção de pós-(des)construção. Utilizo os estudos contemporâneos como eixo teórico-metodológico para este desenvolvimento argumentativo. Os estudos contemporâneos pesquisam as atualizações de conceitos, que se organizam mediante a produção de atualidades e vasculham uma (re)dimensão teórica e política, associada ao sistema flexível da linguagem. Essas atualizações esboçam a área dos estudos contemporâneos em sua intensidade descritiva, quando aciona um olhar investigativo sobre as inovações no discurso científico, hoje.
PALAVRAS-CHAVE: Ciência contemporânea. Estratégia discursiva. Linguagem. Pesquisa


1 Introdução

Tenho desenvolvido uma experiência investigativa partindo do campo da pesquisa aplicada às ciências humanas no Brasil. Como professor e pesquisador, fico alerta à compreensão de estratégias que abarcam o discurso científico contemporâneo, uma vez que lido com questões técnicas e conceituais sobre o processo de criação de fotografia, vídeo, imagem digital, entre outros. Entre a prática e a teoria, a questão da criação coabita uma leitura crítica interdisciplinar. Considero que arte, arquitetura, comunicação, design e moda, por exemplo, registram atualmente muitas transformações em razão da cultura digital, que afeta de maneira impactante o pensar da/na ciência.

Desta forma, a ciência pode ser qualificada como sistema de acomodação provisória pautada pelo intercambialidade dos resultados obtidos. Para a ciência, sistema é uma arrumação necessária que atesta a aplicação da pesquisa. Expostas pelo discurso da ciência contemporânea, as múltiplas possibilidades para estudar as intervenções enunciativas equacionam novos olhares sobre a produção do conhecimento e o saber. Observo que este discurso é agenciado pelo encadeamento sistêmico da informação disponibilizada no contemporâneo.

Na vulnerabilidade de espaço-tempo, o contemporâneo agrupa e reformula pontos de investigações conceituais que se desdobram pelas práticas de um pensamento (re)inscrito pelos avanços e avatáres tecnológicos – sobretudo diante das implementações dinâmicas da cultura digital. Essa última tem por expectativa atualizar dados.

Interessa-me transitar sobre a idéia de ciência. Pretendo investigar essas representações, bem como navegar em veredas cortinadas por instaurações dos enunciados, estrategicamente apoiados pela discursividade interdisciplinar. Falo de um espaço não muito confortável, devido à complexidade e à intensidade subjacente dos interstícios discursivos. Assim, este trabalho resgata a emergência de temáticas contemporâneas, uma vez observada a necessidade de pesquisas acadêmicas em um contexto no qual a ciência possa falar sobre a ciência. Ou melhor, o campo da pesquisa aplicada possa permear a agenda da ciência com ações atualizadoras do discurso científico contemporâneo.

Nessa disposição metodológica, direciono meu olhar para o processo de criação como exercício do pensar acoplado à cultura digital, cuja relevância está mapeada na implementação dos registros acadêmicos, para o qual a ciência possa descrever o movimento contemporâneo. Nesse movimento há uma pertinência singular acerca do lugar do conceito, agora, atualizado pela flexibilidade e pelo deslocamento.

O fluxo permanente de métodos, teorias e conceitos, agenciados por outras discursividades, aposta na transversalidade de idéias, princípios, premissas, pressupostos, noções e fundamentos que na sua extensão gerativa hibridiza a produção do conhecimento humano. Com esses instrumentais teórico-metodológicos da pesquisa contemporânea, busco potencializar um encontro entre perspectivas de diferentes (re)visões estratégicas. Isso pode ser fortalecido com a nomeação instável das investigações científicas e seus discursos que atestam traços, eminentemente, contemporâneos.

De fato, este texto não expõe, diretamente, idéias acerca da ciência, mas envereda ao campo da pesquisa científica para tangenciar o discurso dito científico. É a expressão viva de um saber profícuo, via metalinguagem – uma intelligentsia crítica. Tomo essa perspectiva como avivamento do saber contemporâneo. Para que se possa cumprir com o objetivo proposto, abordo ações enunciativas de linguagem mediante a uma metacrítica e sua episteme, que ao propor a noção conceitual de pós-(des)construção do objeto anuncia, também, algumas alternativas entre a regulação de mercado e a regulação social. Segundo Alberto Moreiras:


A regulação social não pode mais aparentemente aspirar a abarcar a totalidade do social, e a regulação do mercado parece hoje basear algumas de suas estratégias ideológicas na ação de ter como alvo o consumo de microgrupos em lugar do consumo individual (MOREIRAS, 2001, p. 292-293).

Neste ambiente, devo indicar que o presente texto utiliza uma terminologia recorrente aos prefixos da língua portuguesa, como variantes que retomam a atuação gramatical. A intenção é ampliar, simultaneamente, a expressão dos termos que no tempo-espaço tende a (re)configurar o radical da palavra. As articulações necessárias à prefixação, aqui executada, tentam demonstrar um eixo teórico dos enunciados contidos/produzidos pela discursividade contemporânea.

Atesto esse movimento que gera ruído conceitual pelo emprego metodológico da descrição densa (HUTCHEON, 2000). Descrição que renova a noção de artefato, objeto, produto, imagem, experiência e/ou subjetividade. Portanto, mediante a essa condição metodológica, tento argüir acerca da discursidade no campo das (im)possibilidades inerentes aos termos que descrevem objetos e experiências.

Realizadas tais considerações preliminares, passo a apontar dois tópicos que equacionam minhas intenções reflexivas: Estudos Contemporâneos e Pós-(des)construção. Passo, a seguir, para descrição desses tópicos, com o intuito de promover (amarr)ações epistemológicas para pensar o fazer ciência ao buscar o lugar do conceito; lugar provisório do saber. Com isso, me distancio de um propósito mais direto, objetivo, uma vez que prefiro caminhar na produção de efeitos de sentido do objeto!


2 Estudos contemporâneos

No contemporâneo, as coisas alteram-se sem necessariamente operacionalizar uma síntese teórica. Não pode mais haver só um ponto de vista exclusivo, fixo. Tudo é agenciável, negociável. Nada de esgotamento!

Os estudos contemporâneos (BHABHA, 1998; CANCLINI, 1998; EAGLETON, 2005; GUMBRECHT, 1998; HALL, 2003; HUTCHEON, 2000; e MOREIRAS, 2001) contextualizam uma abordagem flexível marcada por deslocamentos de idéias. Em sua inscrição contemporânea, o objeto-discurso abordado apresenta-se como dimensão atualizadora de resultados parciais para fomentar intercâmbios de pesquisas interdisciplinares na produção ativa do conhecimento humano. Dito de outra forma, o esforço desses estudos torna-se uma tentativa de atualizar a escritura de idéias e conceitos que possam renovar a efetivação do discurso científico atento à produção do conhecimento humano.

A flexibilidade dos estudos contemporâneos propicia uma dinâmica de argumentações teóricas, as quais procuro expor nestas anotações críticas. É como pensar o percurso criativo da arte à moda, da comunicação ao design, da arquitetura à engenharia em uma (dis)junção interdisciplinar que desloca a idéia em produto, uma vez que investigo estratégias discursivas articuladas e evidenciadas no contemporâneo.

E dado que, o contemporâneo reveste-se de atualizações conceituais que vigoram um percurso metodológico, eleito aqui pelos estudos contemporâneos. Na medida em que ocorre esse percurso, o objeto-discurso é capturado em sua intensidade descritiva, provocado pela exaustão de um olhar investigativo da pesquisa acoplado às inovações tecnológicas.

A tecnologia digital sem a impressão humana não é nada, porque necessita de um valor representacional. Ou seja, o desenvolvimento tecnológico deve se basear também na preocupação sociocultural. O que aproxima as variantes discursivas – tecnológica e sociocultural – são os estudos contemporâneos, (de)marcados pela perspectiva de uma leitura crítica cuja finalidade repousa na contribuição dessa metodologia diante da divulgação científica. Tudo isto é pautado na compreensão do objetivo proposto: tentar inovar a discursividade cientifica agenciada pelas estratégias que informam sobre o objeto.

Com efeito, endosso que a área dos estudos contemporâneos associa e desdobra os estudos culturais – em suas variantes (multiculturalismo, pós-colonialismo e diásporas) – às novas tecnologias digitais da informação. É uma articulação flexível entre a representação e o uso do objeto-discurso. Neste sentido, esses estudos também atualizam a cooperação entre discursividades contemporâneas (globalização, ecologia, neoliberalismo), cujo escopo concentra-se na discussão teórica e prática sobre responsabilidades socioculturais, políticas e identitárias (HALL, 2003).

É importante destacar que essas responsabilidades, focadas pelos estudos contemporâneos, possibilitam fluxos e intercâmbios de informações as quais transitam em diferentes segmentos acadêmicos e/ou mercadológicos. Grosso modo, são estudos que exibem um fértil território de agenciamento/negociação. “Nenhum estilo de vida na história tem sido mais amante da transgressão e da transformação, mais emaranhado do hibridismo e do pluralístico do que o capitalismo” (EAGLETON, 2005, p.166).

Embora, intercambiar aqui é muito mais que trocar informações, pois garante o deslocamento sistêmico, fazendo com que cada eixo, cada percurso, cada bifurcação articule a urgência de resultados híbridos. Vertidos em uma base epistêmica, esses estudos alicerçam-se na preocupação com o desenvolvimento conceitual e crítico, pautado pela natureza sociocultural, política e identitária sobre a atualização dos códigos híbridos (CANCLINI, 1998).

Neste sentido, os estudos contemporâneos mapeiam e entrecruzam diferentes conceitos, teorias, métodos, técnicas e críticas atuais a fim de realizar (inter)mediações de experiências, cujos aspectos sincréticos reforçam as malhas (inter/trans)textuais. O fluxo de intercâmbio, estrategicamente, (re)vela um registro aberto – em constante transformação – e por isso necessita da ordem interdisciplinar. Isso só é possível com um pensamento contemporâneo capaz de atualizar aberturas necessárias para essas trocas e/ou intercâmbios (re)feitos em compartilhamento de idéias e soluções criativas.

Aqui, atualizar refere-se à disposição de categoria crítica, como condição adaptativa para deslocar os enunciados discursivos. Atualizar implica mais que considerar as (re)configurações que inovam, reinventa, os dados do produto, do objeto, do resultado. É renovar as (de)marcações com a força das mudanças registradas pelo deslocamento de idéias. No discurso científico, utilizo o termo atualizar como categoria crítica para apontar “novos/outros” parâmetros, que às vezes pode ser mais coeso e/ou coerente, dependendo da flexibilidade do enunciado. Destaque: atualizar requer aproveitar recursos e diretrizes, já instalados, para se obter remodelações que intensificam a vivacidade de cada ação atualizadora, como somatório constante de (re)formulações e novidades. Somatório que pode gerar danos tanto positivos quanto negativos, dependendo de sua incursão técnica.

As estratégias discursivas utilizadas como recursos dos estudos contemporâneos para atualizar os dados – em discursividade – redimensionam a tensão do campo de investigação, justificado pelo deslocamento de idéias. É um trabalho que se permeia na fronteira do sistema, em que há uma agudeza com o limite conflitivo da tentativa de uma voz de domínio/controle – com o discurso hegemônico mainstrean – já estabelecido.

A idéia de atualizar aproxima-se do contexto de reformular como nova imagem, nova aparência ou nova possibilidade. Ao reiterar o pensar e o fazer, a atualização incorpora fatos que surgem com a experiência cotidiana na aplicação da pesquisa – daquele instante da produção de conhecimento – como ato constituinte do atualizar o saber. Nisso, o objeto-discurso atualiza-se quando lhe é agregado algo, que processa valor – ainda que possa ser/estar extrínseca sua representação enunciativa.

O discurso científico, efetivamente, implementa-se para além de ocorrências reativas que tangenciam a identificação do fenômeno, como causa e descoberta de mecanismos subjacentes ao assunto pesquisado, ainda mais na contemporaneidade. Assunto esse que aponta ferramentas e mecanismos relevantes e afeta, de forma inevitável, uma dinâmica da exposição prática e teórica. Deste modo, o condicionamento de uma temática científica perpassa por um espaço de fruição constante, entre prática e teoria, em diferentes áreas do conhecimento, na proposição do objeto-discurso.

Um objeto-discurso contemporâneo não exprime, necessariamente, uma solução criativa, mas pode intensificar uma ação, um comportamento, uma atitude, observada pela descrição densa. No universo da performance como narratividade, por exemplo, o discurso escapa à transitoriedade do próprio evento/acontecimento. Diante de questões abertas e propostas pela contemporaneidade, parece impossível ao observador tomar um único ponto de vista sobre o objeto. Por isso, penso que o contemporâneo (re)configura-se estrategicamente por meio da inscrição instável de agenciamento/negociação.

Os estudos contemporâneos da arte, da arquitetura, da comunicação, do design ou da moda devem ampliar os estatutos conceituais que possam suturar cultura e representação – (de)marcados com a linguagem –, a fim de eleger a urgência de abordagens mais críticas e, ao mesmo tempo, criteriosas. Diante deste contexto, (re)considero a expansão da imagem corpórea que atualiza a representação do corpo em contraponto ao design, à imagem e à tecnologia, ainda mais com o advento da cultura digital – por exemplo, a internet (GARCIA, 2005).

Neste viés, readequo esta leitura de atualizações conceitual e crítica dos estudos contemporâneos, sobretudo no encontro de design e corpo. Ao tentar atualizar a proposição sociocultural, política e identitária, descrever é anterior a interpretar (GUMBRECHT, 1998); portanto, implica considerar a materialidade do artefato/produto. Esse último pode ser descrito em um estudo diante de impressões impactantes. Mas e a imaterialidade? Bem, isso é uma lacuna para ser debatido em outra ocasião.


3 Pós-(des)construção

Se, no contemporâneo, a idéia de construção e/ou desconstrução já não dá mais conta do discurso científico, como refletir sobre isso? Se isso é subentendido, a permanência do discurso científico subjaz? Historicamente, a lógica construtivista realizada a partir do Formalismo Russo foi retraduzida à metafísica de Martin Heidegger na condição adaptativa de uma Destruktion: terminologia compreendida por Jacques Derrida para adequar uma lógica desconstrutivista (GREIMER, 2005, p. 82-85). Neste caso, há uma emergência de debate que ateste “novas/outras” possibilidades, as quais podem articular a sistematização de uma noção conceitual de pós-(des)construção.

Propor o desenvolvimento de um percurso metodológico para demonstrar a imanência do objeto contemporâneo é, assim, revelar a emergência mensurada pela pós-(des)construção. Essa última tende a recuperar e descrever a indicação de construção e/ou desconstrução em um eixo paradigmático de simultaneidades entre tempo e espaço, pois não se trata de uma destruição do objeto ou espaço, mas sim, de explanar seus traços que organizam a fruição dos termos, expressões e resultados. Em outras palavras, ao imbricar a dinâmica de uma estratégia discursiva sobre o discurso científico, seus efeitos de sentidos produzem uma artimanha que agencia/negocia a argumentação da noção de pós-(des)construção, ainda mais na cena digital contemporânea.

O termo noção constitui-se de um caráter parcial e provisório, que não garante a permanência exclusiva de um princípio conceitual; entretanto, este trabalho baseia-se na disposição do termo para evidenciar sua própria pós-(des)construção. Dessa forma, quando menciono esse termo – noção – inscrevo-o como premissa reflexiva articulada a outra condição adaptativa, que (re)dimensiona as relações discursivas. Tal qualificação terminológica não implica definição normativa, apreendida como: conhecimento, idéia, premissa, concepção, conceito.

Ao transferir sua carga representacional de um conceito, a noção sugere uma maleabilidade circunstancial do agenciamento/negociação composta no discurso do objeto. Nesse caso, participa substancialmente da pós-(des)construção de conceitos, visto que, o objeto de pesquisa privilegia em seu corpus uma (inter)mediação de enunciados transcritos por noções. Isso é observado no discurso científico contemporâneo.

A dinâmica da ordem sistêmica encontra-se aberta, devendo obedecer a uma orientação de sua intelligentsia crítica, conforme a disposição de diferentes instâncias: do objeto, do observador/usuário e do contexto. Como exemplo dessa dinâmica com a relação das coisas no mundo, cito o uso do aparelho de telefonia celular, sua interação aplicável ao usuário/interator e a situação de virtualidade. O agrupamento de áreas para uma pós-(des)construção promulga uma perspectiva reflexiva à verticalização sobre eixos temáticos, inseridos no panorama sociocultural, artístico, identitário, científico, comunicacional, tecnológico e político-ideológico. A condição desses eixos discursivos no desenvolvimento metodológico aparece como elemento facilitador/orientador, o qual diante da premissa estabelecida tem por finalidade acompanhar a flexibilidade e o deslocamento do percurso conceitual do objeto – ou melhor, o lugar do enunciado!

Esta abordagem (explanativa, e não explicativa) baseia-se no conhecimento disponível acerca da proposta em questão, realizada numa descrição densa de fatos e regularidades de observações pertinentes a uma espacialidade-temporalidade. Faço desse movimento algo da ordem da explanação e, com isso, não me preocupo diretamente com as explicações subjacentes ao objeto. Anotar a noção de pós-(des)construção pela descrição densa de um dado objeto é estender a estratificação de resultados críticos em sua matiz representacional.

Dito de outra forma, é propor determinantes e/ou categorias que, fundem entre si, uma (re)dimensão híbrida da leitura crítica a respeito do objeto. As resultantes do discurso científico – que pretendem apontar os “avanços” atualizadores e decisivos diante das “críticas sociais” – organizam combinações de dispositivos à produção de idéias e conceitos. É uma produção de conhecimento que se demonstra como catalisador de complexidade numa cultura, sob a ótica da leitura do objeto e sua representação discursiva.

Considerar essas atualizações como discurso científico inovador é, em última instância, ponderar a tessitura sociocultural e teórica, vista/lida sob o objeto e sua representação discursiva. Esse exercício reflexivo de tentar elaborar essa noção conceitual com a potencialidade de operacionalizar uma leitura crítica.

Muito embora pareça oportuno indicar que, a validade da ciência contemporânea emerge resultados parciais (por etapas) e um tanto quanto imprecisos e incompletos, tendo em vista a multiplicidade de variantes discursivas – tecnológicas e socioculturais – para alcançar um ideal estabelecido. A imprecisão mostra o esforço da pesquisa científica de aproximação a uma condição de verdade. Esse seria um ideal, talvez, distante de sua efetivação!

A cada nova observação investigada, um exercício de percepção científica experimenta outro desafio que provoca a reformulação de uma teoria geral. E digo mais: o saber se atesta, na complexidade da pós-(des)construção contínua do pensamento contemporâneo – desdobrado numa infinita fluidez (ação) sobreposta no contexto/objeto. Com isso, torna-se possível ressaltar que a ciência contemporânea, como atividade cognoscível-perceptível, contém elementos (inter/trans)disciplinares no campo da pesquisa científica, que cooperam entre si. Eles compõem uma experiência de alteridade, (inter)mediada por uma manifestação quase indescritível do objeto.

Ao utilizar o termo indescritível, intenciono remeter à passagem do enunciado, expandido pela aresta e metamorfoseado em um limite de fronteira narrativa, que permeia os intervalos da dúvida e do conhecimento – um efeito metonímico. Pode-se considerar que, esse acordo deslizante produz um movimento fértil, simultâneo de deslocamentos e condensações, no qual o provisório se faz presente. A circunstância para pensar a ciência contemporânea acopla-se à manifestação flexível de um evento/acontecimento percebido pela apresentação de um modo de descrever a pesquisa científica. Compartilho essa posição com o trabalho do biólogo chileno Humberto Maturana:


[. . . ] minha reflexão está relacionada àquilo que vejo que nós, cientistas modernos [e contemporâneos] da prática científica, estamos fazendo para defender a validade científica de nossas afirmações e explicações, e demonstrarei que, aquilo que nós fazemos como cientistas, está relacionado com o nosso comportamento cotidiano, e como se evidencia o status epistemológico e ontológico daquilo que nós chamamos de ciência (MATURANA, 1995, p. 164, grifo nosso).

A citação esboça um percurso gerativo da conduta ética e estética da moral científica que, ao expressar sua existência, traz consigo uma exigência de modelos sociais e de suas mudanças, as quais possam, supostamente, intencionar adaptações. Ainda que acarretem uma possibilidade de risco, já que o perigo se apresenta pelo desconhecido que está por vir. Ratifico, com isso, o cuidado metodológico na elaboração dessa discursividade sob a ciência contemporânea que introduzo para leitura, a partir dos estudos contemporâneos. A validade do discurso, agora, é relativizada pela leitura.

Tanto nos estudos culturais quanto nas novas tecnologias, a reflexão sobre a proposição binária (centro/periferia, hegemônico/subalterno, opressor/oprimido ou tradicional/moderno) demonstra ser ineficaz, bem como reduz a possibilidade de indagar outras abordagens teóricas, que contribuem à transformação social de visões compartilhadas sobre a alteridade. Esse posicionamento serve como contraponto de agenciamento/negociação da exclusão de termos. E como pensar essa questão diante da efervescente dinâmica da globalização?

Penso que essa noção conceitual de pós-(des)construção indica uma proposição imanente e, ao mesmo tempo, contingentecial – na passagem representacional – do objeto à palavra, ou ainda, do entre-lugar. Assim, a pós-(des)construção possibilita a quase que descrição (i)mutável do objeto como ocorrência subjetiva de estratégia discursiva à enunciação atualizadora.

Nesse sentido, esta noção expressa uma dinâmica contemporânea de investigação, na medida em que seus dispositivos de leitura crítica subvertem as situações enunciativas (em estratégias discursivas), operando a partir de condições adaptativas. Em outros termos, nesse espaço íngreme de ocorrências (im)precisas rascunha-se a representação do objeto, o qual tento apreender por um registro, provisório sua atualização científica.

Antecipadamente, tento esclarecer que, a pós-(des)construção distancia-se de prerrogativas consensuais, que configuram o campo da linguagem na perspectiva da subjetividade do sujeito, como constituinte de uma discursividade. Contudo, remeto esta noção ao propósito da apreensão da imagem do objeto mediante a elaboração descritiva proporcionada pelo surgimento das “quebras” de fronteira na cultura, descrevendo a contemporaneidade para além de um estado de subjetividade que privilegia a atuação no aqui e no agora (BHABHA, 1998, p. 27).


4 Considerações finais

Diante do exposto, equaciono essas estratégias discursivas que tenho testado para o meu desenvolvimento teórico-metodológico como intelectual interessado na pesquisa aplicada à crítica. Parece-me conveniente tentar elaborar um discurso científico, na atualidade, a partir da pós-(des)construção; uma vez que os estudos contemporâneos abarcam as competências e habilidades de enunciações estratégicas.

Todavia, o emprego de bases teórico-metodológicas ocupa um contexto crítico e intelectual em que determinadas questões emergem a possibilidade de nomear um conceito. Acredito que tudo isso torna uma efetiva contribuição dos estudos contemporâneos, ao permitir maior flexibilidade e deslocamento na produção do conhecimento humano. É um panorama que tenta expandir uma intelligentsia crítica contemporânea.


Doing research: the place of the concept
ABSTRACT
This text considers opening a discussion concerning contemporary research, investing the focus on the scientific speech for a dynamic approach of discursive strategies. I try to carry through a critical reflection on the production of knowledge in some conceptual procedures. In this in case, I refer to a theoretical-methodological consideration, which intends to contribute for the updating of the discourse of science, today, and allows proposing a greater flexibility and displacement to the different productions of knowledge. Therefore, this work does not display directly ideas on science, but on the so called scientific speech. In this critical research, I briefly present the notion of pos-(de)construction. I use the contemporary studies as a theoretical-methodological axle for the argumentative development. The contemporary studies research the updates of concepts, which organize themselves by means of the production of news and seek a theoretical and political (re)dimensioning, associated to the flexible system of language. These updates sketch the area of the contemporary studies in its descriptive intensity, when it sets in motion an investigative look on the innovations in the scientific discourse today.
KEYWORDS: Contemporary science. Discursive strategy. Language. Research



Hacer ciencia: el lugar del concepto
RESUMEN
Este texto visa abrir una discusión acerca de la investigación contemporánea, invirtiendo el enfoque en el discurso científico para un abordaje dinámico de estrategias discursivas. Intento realizar una reflexión crítica sobre la producción del saber en algunos procedimientos conceptuales. En este caso, remito la mirada hacia una consideración teórico-metodológica que pretende contribuir a la actualización del discurso de la ciencia, hoy, y permita proponer mayor flexibilidad y desplazamiento delante de las diferentes producciones de conocimiento. Este trabajo, por lo tanto, no pretende exponer directamente ideas sobre ciencia, pero sobre el discurso dicho científico. En esta investigación crítica, presento sucintamente la noción de post-(des)construcción. Utilizo los estudios contemporáneos como eje teórico-metodológico para este desarrollo argumentativo. Los estudios contemporáneos investigan las actualizaciones de conceptos, que se organizan mediante la producción de actualidades y escudriñan una (re)dimensión teórica y política, asociada al sistema flexible del lenguaje. Esas actualizaciones esbozan el área de los estudios contemporáneos en su intensidad descriptiva, cuando acciona una mirada investigativa sobre las innovaciones en el discurso científico, hoy.
PALABRAS CLAVE: Ciencia contemporánea. Estrategia discursiva.Lenguaje. Investigación



Referências

[<] BHABHA, Homi K. O Local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. 394 p.

[<] CANCLIN, Néstor Garcia. Culturas híbridas. São Paulo: Edusp, 1998. 385 p.

[<] EAGLETON, Terry. Depois da teoria: um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 301 p.

[<] GARCIA, Wilton. Corpo, mídia e representação: estudos contemporâneos. São Paulo: Thomson, 2005. 364 p.

[<] GREIMER, Christine. O Corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablume, 2005. 150 p.

[<] GUMBRECHT, Hans Ulrich. Corpo e forma: ensaios para uma crítica não-hermenêutica. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998. 180 p.

[<] HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. 434 p.

[<] HUTCHEON, Linda. Teoria e política da ironia. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000. 359 p.

[<] MATURANA, Humberto. Ciência e cotidiano: a ontologia das explicações científicas. In: WATZLAWICK, Paul ; KRIEG, Peter (Orgs.). O Olhar do observador: contribuições para uma teoria do conhecimento construtivista. Campinas: Psy,1995. 269 p. P. 163-198.

[<] _____. A Ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997. 350 p.

[<] MOREIRAS, Alberto. A Exaustão da diferença: a política dos estudos culturais latino-americanos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001. 405 p.


Doutor em Comunicação e Estética do Audiovisual pela ECA/USP Pós-doutor em Multimeios pelo IA/Unicamp Artista visual, pesquisador de cinema, fotografia, vídeo e imagem digital, desenvolvendo estudos sobre o corpo
E-mail: wgarcia@usp.br
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