O risco doméstico das parcerias com a china: a condicionalidade cruzada e a construção de coalizões

Alejandro Angel

Resumo


Empréstimos chineses se tornaram alternativas viáveis de financiamento durante a onda rosa devido à ausência de cláusulas de condicionalidade tradicionais. No entanto, essas operações financeiras, além de outras de diversos tipos, implicam com frequência a condicionalidade cruzada. Contrário à condicionalidade tradicional, a condicionalidade cruzada implica que operações nas áreas de comércio, financeira ou de ajuda ao desenvolvimento sejam prejudicadas em resposta a decisões de autoridades nacionais que mudem condições de projetos paralelos. O objetivo do presente trabalho é explorar as possíveis consequências políticas da condicionalidade cruzada nos assuntos domésticos dos países da América Latina. A hipótese é que a condicionalidade cruzada representa um risco similar àquele da condicionalidade tradicional em termos de autonomia nacional, mas por motivos diferentes.  Se conclui que a condicionalidade cruzada afeta os esforços governamentais de construção de uma coalizão de governo devido aos impactos potenciais que ela possa ter sobre parceiros importantes do mesmo. No Brasil, o setor agroexportador, parceiro chave da coalizão de governo atual, seria aquele que poderia ser potencialmente afetado se o governo chinês decide implementar a condicionalidade cruzada como medida de retaliação a políticas ou declarações hostis do governo brasileiro a respeito de interesses chineses.

Palavras-chave


Condicionalidade cruzada; coalizões; China.

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DOI: https://doi.org/10.22456/2178-8839.106429



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