Relações interespecíficas de cuidado no sistema de saúde convencional brasileiro: uma análise antropológica sobre a dinâmica da zooterapia

Ivana Teixeira

Resumo


Através de uma análise das atividades desenvolvidas pelos terapeutas da zooterapia, apresentado pela experiência de um trabalho de observação de longa duração, este artigo se propõe a colocar em questão a associação do homem e do animal, em um corpus de conhecimentos vindo de uma “etologia” empírica e de um corpus elaborado e estruturado de saberes antropológicos. A zooterapia enquanto mediação animal é uma técnica de cuidado para além de uma constatação trivial interespecífica ou de uma projeção antropomórfica sobre os animais de categorias universalmente reconhecidas como humanas. Ela permite nos interrogarmos sobre o recurso à participação animal e seu estatuto de sujeito dotado de capacidades agentivas, ao lado de um terapeuta humano e face à uma pessoa doente. Por ocasião de três estudos de caso contextualmente situados nas cidades de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, destacamos a questão mais geral da interação entre os dados empíricos que a zooterapia acumula e as representações sociais que são implicitamente mobilizadas para situar o animal dentro de uma cadeia operativa. De modo geral a problemática de interesse deste artigo trata das práticas e horizontes relacionais que atravessam vários grupos sociais e indivíduos contemporâneos que apostam na direção de uma relação interespecífica. Essa problemática é também empírica e epistemológica, pois demarca uma remodelação das diferenças entre natureza e cultura, baseada em uma conjunção de fenômenos invocados a caracterizar os sujeitos (conduta, ações, afetos, comportamento).

Palavras-chave: Antropologia da natureza. Agentividade dos animais. Zooterapia. Modalidades de ações.

The interspecific relations for human care in the conventional health system: an anthropological analysis of the dynamics of zootherapy

Abstract

Through an analysis of the activities developed by zootherapy therapists, presented by the experience of a long-term work of observation, this article proposes to put in question the association of man and animal, in a corpus of knowledge coming from an empirical "ethology" and an elaborate and structured anthropological knowledge corpus. The zootherapy as an animal care mediation is a technique other than an interspecific trivial finding, or an anthropomorphic projection on animals of universally recognized as human categories. It allows us to interrogate about the use of animals and their status as subjects endowed with agentive capacities, alongside a human therapist and in face of a sick person. Based on three case studies contextually located in the cities of Porto Alegre, Rio de Janeiro and São Paulo, we highlight the more general question of the interaction between the empirical data that zootherapy accumulates and social representations that are implicitly mobilized to locate the animal inside of an operative chain. More comprehensively the issue of interest in this paper deals with the practical and relational horizons that cut across social groups and contemporary individuals who bet on the direction of an interspecies relationship. This problem is also empirical and epistemological because it marks a remodel of the differences between nature and culture, based on a combination of phenomena invoked to characterize the subjects (behavior, actions, feelings).

Keywords: Anthropology of nature. Animal agency. Zootherapy. Modalities of actions.


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Revista Iluminuras - Publicação Eletrônica do Banco de Imagens e Efeitos Visuais - NUPECS/LAS/PPGAS/IFCH/UFRGS

E-ISSN 1984-1191