Recepção Bifocal: "Hécuba" vs. "As Troianas"

Glenn W. Most

Resumo


Nas últimas décadas, vários especialistas tentaram descobrir um termo geral único para aplicar ao estudo das relações entre autores antigos e modernos. Mas afinal das contas talvez não haja um termo melhor, visto que o processo em si é essencialmente dialético e complicado, e todas as possíveis candidatas – por exemplo, recepção, tradição, influência, transmissão – captam apenas um aspecto disso e, por isso, falsificam-no, pelo menos parcialmente. Ao invés disso, seria muito mais útil dedicar nossa atenção em reunir mais estudos de caso e pensar sobre as questões metodológicas gerais que ainda confundem o estudo da tradição clássica e que vale a pena ser considerada – por exemplo, a inclusão de objetos e práticas além dos textos, o alargamento de nossa visão para além da Europa Ocidental e América, o julgamento de níveis de validade entre as recepções, e a determinação de nosso ponto de vista dentro da recepção como especialistas da recepção – e reunir mais estudos de caso. Por exemplo, os estudos de recepção tendem a focar apenas sobre textos e autores principais e sobre as tradições que criaram. Mas os textos, assim como os autores e vendedores, têm sempre de competir um com o outro para a atenção e prazer de seus públicos, e examinar casos duplos de recepções competitivas pode explorar novas questões que recepções únicas talvez obscureçam. Eurípides escreveu por volta de 424 AEC, e As Troianas de 415. Ambas concentram-se em Hécuba e lidam exatamente com o mesmo material mítico: o sofrimento das troianas, imediatamente após a queda de Troia. Mas as duas peças são construídas de forma muito diferente: Hécuba centra-se nos sofrimentos e ações da rainha, e constrói uma trama unificada a partir de sua miséria e vingança; As Troianas, ao contrário, apresenta um conjunto de tableaux de sofrimento e não tem a linha da trama muito bem amarrada. Os contrastes de sua recepção pode nos dizer muito sobre a mudança de gostos.

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